França mergulha em crise fiscal sob fogo cruzado dos mercados e das ruas
Por Fernando Canzian | Folhapress
Sob centenas de protestos por todo o país, a França caminha para um cenário de grave crise fiscal. O país, que por décadas se posicionou como pilar de estabilidade no coração da Europa, paga hoje mais caro para tomar dinheiro emprestado no mercado do que antigos epicentros de crise do continente, como Grécia e Itália.
Com uma dívida pública de EUR 3,5 trilhões (aproximadamente US$ 4 trilhões), o equivalente a 119% do seu Produto Interno Bruto (PIB), o modelo do Estado de bem-estar social francês dá sinais inequívocos de exaustão.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta que essa fatura pode alcançar alarmantes 200% do PIB em 2050 caso nenhuma trava estrutural seja acionada nos gastos públicos.
Nas ruas, o cenário é de profunda conflagração social. Barricadas montadas por estudantes em centenas de colégios, portos e terminais petrolíferos paralisados por pescadores e violentos confrontos com as forças policiais -que já resultaram em mais de 5.000 prisões- traduzem a resistência de uma sociedade habituada à proteção irrestrita do Estado.
Para tentar estancar um déficit orçamentário projetado em 5,4% do PIB para este ano (e com risco real de escalar a 6,8% até 2030), o governo tenta emplacar um pacote de contenção de custos de EUR 43 bilhões. As propostas preveem o congelamento parcial de salários do funcionalismo público, reajustes contidos nas aposentadorias e cortes diretos em auxílios sociais.
A resposta popular veio em fumaça de pneus queimados e gás lacrimogêneo: "Escolas sem dinheiro, país sem futuro", estampavam os cartazes que lideravam as marchas em Paris.
O grande entrave é que o mercado financeiro global perdeu a paciência com o desequilíbrio persistente das contas francesas -o país não registra um orçamento equilibrado desde 1974.
Investidores exigem rendimento nos títulos públicos de 10 anos do governo francês de quase 5% ao ano, maior nível desde 2002. Em apenas um mês, o spread de risco em relação aos Bunds alemães deu um salto de quase 60%, fixando-se em cerca de 1,4 ponto percentual.
De acordo com estudos comissionados pelo Ministério das Finanças, o custo para honrar o serviço da dívida subirá 59% até 2030, exigindo cerca de US$ 100 bilhões anuais já em 2027.
O pagamento de juros passou a ser uma das maiores despesas do orçamento nacional, superando os investimentos estatais em Defesa e Educação.
A matemática financeira do Tesouro francês é implacável. A França precisa refinanciar mais de US$ 1 trilhão em dívidas que vencem até 2030, além de emitir o valor recorde de US$ 380 bilhões em novos títulos no próximo ano.
O Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da França encerraram as compras líquidas, e o vácuo foi ocupado por fundos especulativos e hedge funds. Se o estrangulamento da dívida persistir, a intervenção de emergência do BCE pode voltar ao radar, mas a Alemanha e o norte da Europa resistem a resgates sem reformas draconianas.
Autoridades do próprio país já não escondem a gravidade da situação. "Na França, nós dizemos 'fin de règne'", afirmou Jean-Yves Camus, cientista político da Fundação Jean Jaurès, ao diagnosticar o ocaso político do governo Macron diante do impasse fiscal.
No banco central, o tom é de urgência: "Se não agirmos, há de fato o risco de sermos gradualmente estrangulados pelo aumento das taxas de juros", advertiu Emmanuel Moulin, governador do Banco da França.
Já Pierre Moscovici, ex-ministro das Finanças, resumiu o alerta de forma contundente: "A França é provavelmente grande demais para quebrar, mas não é grande demais para ser punida pelos mercados".
