Bancada evangélica perde 4 de 5 presidentes, e urnas desgastam velha guarda
Por ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
Desde a vitória de Jair Bolsonaro (PL) em 2018, cinco deputados se revezaram na presidência da bancada evangélica. Todos tentaram voltar ao Congresso no pleito de 2026. Só um conseguiu: o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ). Ele foi escolhido com a sétima maior votação nas urnas fluminenses, tendo o pastor Silas Malafaia como cabo eleitoral.
Ficou de fora o atual líder do bloco, Gilberto Nascimento (Pode-SP) —por ora é suplente. Idem para Cezinha de Madureira (PL-SP), aposta da Assembleia de Deus Madureira e recentemente exposto no noticiário, por fazer ponte entre o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Silas Câmara (Republicanos-AM), que acumulava quase três décadas de Câmara, não passou dessa vez. Eli Borges (PL-TO) tentou o Senado e terminou em terceiro lugar no seu estado.
A derrota de quatro desses cinco ex-líderes evidencia o desgaste da velha guarda da bancada evangélica e reflete uma transição geracional na qual quadros tradicionais das igrejas vêm perdendo espaço.
Otoni de Paula, ex-bolsonarista que nos últimos anos se aproximou de Lula (PT), não voltará a Brasília. Deputado federal desde 2010, Pastor Eurico (PSDB-PE) foi capelão de vários dos cultos semanais que a bancada evangélica realiza na Câmara. Também não entrou.
O missionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, tinha dois filhos que concorriam à Casa, e mais dois para as assembleias legislativas do Rio e de São Paulo. Nenhum saiu consagrado da votação.
Não que o cenário tenha sido de terra arrasada para a bancada. Pelo contrário. Os dois deputados mais votados do país, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), são evangélicos, assim como o quarto melhor posicionado, André Fernandes (PL-CE).
Guilherme Kilter (Novo-PR), líder de jovens na Primeira Igreja Batista de Curitiba, estreia como deputado federal com expressivos 270 mil votos. À reportagem disse que entrou na política motivado por uma mensagem que Deltan Dallagnol lhe enviou em 2023: "Nós precisamos da juventude conservadora na política".
Nomes à esquerda que também sabem agitar as redes sociais, André Janones (Rede-MG) e Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) são outros evangélicos com expediente garantido na capital do país.
Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) voltou a repetir o feito de 2018 e foi o mais bem colocado no ranking geral baiano. Ele afirma não ser de direita ou esquerda, nem ver eleitor lulista como "jegue", e bolsonarista como "gado". Alguém que segue "avante com Jesus": é assim que se declara o homem que se diz "ex-gay", propôs criar o Dia do Hétero e empunhou uma Bíblia na posse de Lula em 2023.
Entre os veteranos que mantiveram o posto, Marco Feliciano (PL-SP) diz que "a renovação dos quadros políticos é normal em qualquer segmento" e que mais importam ideias do que nomes. "Houve uma avalanche conservadora e saímos muito fortalecidos. Em 2018, o povo só deu o queijo para Bolsonaro. Agora está dando o queijo e a faca para o Flávio."
A Universal do Reino de Deus emplacou quadros, inclusive Marcos Pereira, presidente do Republicanos, costela partidária da igreja. Também pelo diretório paulista da legenda se elegeram Maria Rosas, já deputada, e Altair Moraes, todos com apoio da máquina política da Universal.
O sobrinho do bispo Edir Macedo teve destino menos feliz nas urnas. Marcelo Crivella tentou voltar ao posto de senador após uma temporada na Câmara e terminou em sexto lugar, atrás de outra colega da bancada evangélica, Benedita da Silva (PT-RJ), terceiro lugar na disputa pelas duas vagas à disposição dos eleitores fluminenses.
Uma irmã do bispo Macedo é outro nome da dobradinha Republicanos-Universal que não amealhou votos o suficiente. Edna Macedo, que tentou um sexto mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo, pediu "a todos que caminharam comigo" para que "não fiquem tristes", pois tem o "coração em paz" e confia "nos propósitos de Deus".
São múltiplos fatores a se considerar para explicar o malogro eleitoral de alguns nomes clássicos da bancada, que vão da perda de apoio nas próprias igrejas à falta de posicionamento inequívoco na clivagem petismo-bolsonarismo. Outra explicação no radar de especialistas é a perda de terreno de nomes com menos traquejo virtual, engolidos pela onda de influenciadores bolsonaristas.
"Influencers estão no dia a dia das pessoas", reconhece Feliciano. "Isso ajuda muito na lembrança na hora do voto."
