Rússia faz rara ameaça nuclear explícita contra a Europa
Por Igor Gielow | Folhapress
A Rússia fez uma rara ameaça explícita de emprego de armas nucleares contra países europeus da aliança militar Otan, e disse nesta quarta-feira (30) que o aviso é um lembrete aos "cabeças quentes" do continente sobre sua política de defesa.
O novo capítulo da crise entre Moscou gira em torno de Kaliningrado, o estratégico exclave europeu russo entre a Polônia e a Lituânia. Território alemão até 1945, a região foi incorporada à União Soviética e ficou isolada da Rússia com a independência dos Estados Bálticos e de Belarus, em 1991.
Há duas semanas, o chanceler polonês, Radoslav Sikorski, havia sugerido que a Otan deveria fazer exercícios militares perto do território para obrigar um reforço de tropas russas por lá, desviando foco da Guerra da Ucrânia.
Na terça (29), a embaixada russa em Londres emitiu uma advertência, repetida pelas representações de Dublin e Bruxelas, usando linguagem clara de forma pouco usual.
"Aqueles que defendem planos para bloquear ou lançar ataques contra Kaliningrado não devem ter ilusões sobre as consequências. Qualquer ação militar pelo Reino Unido ou a Otan contra território russo encontrará uma resposta com todos os meios disponíveis à Rússia, incluindo armas nucleares", diz o texto.
Também na terça, a mídia lituana divulgou um documento informal enviado pela Rússia à Otan com ameaças semelhantes. "A Rússia está pronta para usar todo seu arsenal de forças e capacidades, incluindo armas nucleares, para defender seu território caso países da Otan tentem isolar Kaliningrado do resto do país", disse o texto.
O clube militar apenas confirmou ter recebido um texto, sem comentar seu conteúdo. Mas a porta-voz Allison Hart disse que "nós mandamos uma resposta, notando que a Otan é uma aliança defensiva e que nenhuma de nossas atividades ameaça qualquer parte da Rússia".
"Nós denunciamos vigorosamente a ameaça de uso da força, incluindo qualquer retórica nuclear irresponsável", completou, na prática confirmando o teor do documento.
Nesta quarta, o recado russo foi reforçado pelo porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. "É natural que nossos diplomatas tentem lembrar os cabeças quentes da Europa acerca de nossos documentos de política sobre esse assunto", disse.
Ele se referia à doutrina revisada por Vladimir Putin em 2024, já com a Guerra da Ucrânia em curso, que ampliou os cenários em que a Rússia se reserva o direito de empregar armas atômicas. O país tem o maior arsenal nuclear do mundo, seguido de perto pelos Estados Unidos.
O texto de 2024 reafirma que mesmo um ataque convencional que seja considerado risco existencial à Rússia ou a Belarus pode ser respondido com armas nucleares.
Pela geografia, Kaliningrado é particularmente vulnerável, e já foi centro de crise em 2022, quando a Lituânia proibiu a passagem de trens russos para a região por seu território, recuando depois ameaças de Moscou.
O território faz parte do planejamento militar da Otan desde a Guerra Fria. Em agosto, a Otan havia realizado um exercício com 25 aeronaves perto do espaço aéreo de Kaliningrado, gerando irritação e surpresa em Moscou.
No ano passado, o então comandante das forças americanas na Europa, general Christopher Donahue, revelou em uma conferência na Alemanha que havia um plano pronto para tomar Kaliningrado rapidamente, "como nunca se viu".
O item Kaliningrado se soma à intensa troca de acusações entre os rivais, que se estranham de forma mais séria desde que Putin anexou a Crimeia em 2014 e invadiu o resto da Ucrânia oito anos depois. Nas últimas semanas, incidentes atribuídos a Moscou se multiplicam no continente na forma da chamada guerra híbrida.
Nessa modalidade, ataques de menor escopo são desenhados para esconder a identidade do agressor. Entre acusações formais da Otan, a Alemanha diz que os russos tentaram explodir aviões ucranianos no aeroporto de Leipzig e a Estônia viu o dedo do Kremlin no incêndio em uma fábrica de drones usados na Ucrânia.
Putin nega as alegações, que nos dois últimos anos se concentravam em avistamentos de drones por todo o continente, e diz que há russofobia nelas. Mais recentemente, contudo, seu governo escalou a retórica para um estágio de confronto.
Segundo a aliança e os governos continentais, o objetivo de Putin é semear pânico e enfraquecer o apoio da Otan ao esforço de guerra de Kiev contra a invasão russa.
A guerra em si continua em alta intensidade. Nesta madrugada de quarta, uma onda de ataques com drones e mísseis focou a infraestrutura energética de Kiev e regiões em torno da capital. Ao menos 5 pessoas morreram, e 14 ficaram feridas.
Segundo o presidente Volodimir Zelenski, as ações são um prelúdio da campanha de inverno do Hemisfério Norte, que começa no fim do ano. Como em outros anos, mas com mais impacto, os russos procuram deixar os ucranianos sem acesso a energia para se aquecer, derrubando o moral.
Os ataques deixaram Kiev coberta de fumaça nesta manhã. Uma embaixada ocidental de país não revelado foi atingida por destroços de drones. Voos no leste da Polônia foram suspensos durante os ataques, por risco de algum drone ou míssil cruzar o espaço aéreo, e um avião-robô caiu em Moldova.
Na via contrária, os ucranianos mantiveram seus ataques com drones a refinarias, atingindo uma unidade na região de Samara. Em Briansk, uma pessoa morreu.
