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Islândia recusa em plebiscito retomar negociações de adesão à União Europeia

Por José Henrique Mariante | Folhapress

Islândia recusa em plebiscito retomar negociações de adesão à União Europeia
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

A Islândia recusou neste sábado (29) retomar as negociações de adesão com a União Europeia. Segundo a emissora pública RÚV, o "não" alcançou 52,8% dos votos, contra 47,2% do "sim". O plebiscito mobilizou 225.301 eleitores, 82,5% do total. É a maior participação desde as eleições parlamentares de 2009, sinal eloquente de como o tema movimentou a sociedade local.
 

Segundo analistas, prevaleceu a preocupação com a pesca, responsável por 40% das exportações e 15% do PIB do país, que teria de se submeter a regras rígidas estabelecidas por Bruxelas, como cotas e áreas de captura mais limitadas. O tema também reflete a profunda preocupação com soberania que os islandeses cultivam em seu remoto e pequeno território, no meio do Atlântico Norte.
 

A nação insular, por outro lado, seria uma candidata adequada para a UE, que desde os anos 1990 não acolhe um país-membro rico o bastante para manter uma contribuição líquida positiva para o bloco.
 

Bruxelas chegou a ventilar que poderia fazer concessões inéditas no âmbito econômico e que a Islândia teria acesso mais barato e seguro a serviços e alimentos, mas os argumentos não vingaram. Porta-voz de António Costa, presidente do Conselho Europeu, declarou que a Islândia "continua um dos aliados mais próximos e confiáveis da UE".
 

Ainda que boa parte da campanha tenha versado sobre assuntos domésticos, o principal gatilho para a consulta popular foram as reiteradas ameaças de Donald Trump à vizinha Groenlândia, distante cerca de 300 km do país.
 

Em um dos tantos lapsos que cometeu nos últimos tempos, o presidente americano trocou o nome território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca pelo da Islândia em manifestações à imprensa e discursos.
 

Em março, a situação chegou a tal ponto que o gabinete da primeira-ministra, Kristrún Frostadóttir, encontrou espaço político para convocar o plebiscito. "Este é um grande dia; há anos que esperávamos por isso para poder realizar uma votação", disse a política na manhã deste sábado, logo após depositar seu voto na urna, na capital Reykjavik.
 

Neste domingo, após a divulgação do resultado, a primeira-ministra declarou que "o governo não retomará as negociações com a UE durante esta legislatura". Segundo Frostadóttir, que foi ativa na campanha pelo "sim", o plebiscito era uma "vitória da democracia", repetindo a promessa de que sua gestão respeitaria o resultado.
 

"Vamos trabalhar agora para fortalecer o EEA", afirmou a política de centro-esquerda, em referência à Área Econômica Europeia, grupo do qual pertencem Islândia, Noruega e Lichtenstein, uma versão light de associação comercial com a UE. O país também compõem o Espaço Schengen, o acordo de livre circulação europeu.
 

Suspenso após as eleições de 2013, o processo de adesão era uma disputa política interna adormecida até Trump voltar à Casa Branca, no começo do ano passado. A primeira tentativa de negociação com a UE foi iniciada em 2009, devido aos estragos da crise financeira global desencadeada por uma bolha imobiliária nos EUA.
 

Além das bravatas expansionistas do presidente americano, as investidas de Rússia e China pelo Ártico, cada vez mais acessível devido às mudanças climáticas, concorreram para a retomada do assunto.
 

A Islândia não tem Exército e, desde sua independência da Dinamarca, em 1944, empresta seu território estratégico e remoto em troca de proteção.
 

Com menos de 400 mil habitantes, população de uma cidade média no Brasil, não tem gente suficiente para compor forças de defesa. Ainda assim, é um dos 12 países fundadores da Otan, a aliança militar ocidental criada em 1949, e tem acordos de cooperação com os EUA desde 1951.
 

Adeptos do "não" lembraram durante a campanha que aderir à UE significaria passar a concorrer diretamente com um mercado comum que poderia, entre outros projetados efeitos deletérios, inviabilizar a agricultura no país, pouco competitiva devido às condições climáticas adversas da ilha.
 

Como já ocorrera nos anos 2000, a argumentação principal ficou baseada no setor de pesca, que há décadas afasta Reykjavik de Bruxelas. No caso da Islândia, um dos três países do mundo que ainda permitem a caça de baleias, a pesca, além de atividade econômica importante, é um dos fundamentos de sua identidade cultural.
 

Militantes do "sim", principalmente os eleitores mais jovens, trabalharam a perspectiva de ganho econômico com a adesão. O euro é mais estável do que a moeda local, a coroa islandesa, e a inflação do bloco é mais baixa, assim como os custos de crédito e habitação.
 

Atrativos que não convenceram a maioria dos islandeses, em um revés mais do que simbólico para a UE. Nos próximos meses e em 2027, vários países do bloco, como Alemanha, França, Espanha, Polônia e Itália enfrentam eleições importantes com populistas de direita e extrema direita bem posicionados.
 

Boa parte deles com discurso avesso à integração do bloco, como a AfD, que defende, por exemplo, a volta do marco alemão.