Trump anuncia medida contra monopólio da carne após críticas a empresas brasileiras
Por Isabella Menon | Folhapress
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira (28) que prepara medidas para permitir que agricultores e pecuaristas processem a própria produção, em uma nova ofensiva contra a concentração do setor de carnes no país --setor que tem entre seus principais atores duas empresas de origem brasileira.
O anúncio ocorre dois dias depois de Trump afirmar em um podcast que existe um monopólio no processamento de carne bovina nos Estados Unidos e pouco mais de duas semanas após seu conselheiro comercial, Peter Navarro, acusar quatro grandes empresas do setor de formar um cartel.
"Há, essencialmente, quatro delas, um número nada competitivo, e elas tornam horrível a vida dos nossos maravilhosos agricultores e pecuaristas", escreveu Trump nesta sexta-feira, sem citar nominalmente as companhias.
O movimento também ocorre na esteira da disparada dos preços de proteínas de origem animal nos Estados Unidos e da redução do rebanho. Um quilo de carne moída chegou a US$ 6,759 (R$ 35,10) em janeiro deste ano, de acordo com o Federal Reserve Economic Data, um aumento de 18% em comparação com o ano passado.
Em números oficiais, a inflação da carne foi de 9,4% nos 12 meses encerrados em julho, segundo o índice de preços ao consumidor divulgado pelo Departamento do Trabalho.
As quatro maiores processadoras de carne bovina nos Estados Unidos são JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef e, juntas, controlam cerca de 85% do mercado. Duas têm ligação com o Brasil: a JBS tem origem brasileira, enquanto a National Beef é controlada pela MBRF. A reportagem procurou ambas as empresas por meio da assessoria de imprensa por volta das 19h, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.
Trump afirmou que parte significativa da propriedade das grandes processadoras está fora dos Estados Unidos e disse ter autorizado a preparação de documentos jurídicos para que produtores tenham "o direito de processar seus próprios alimentos". O presidente não detalhou quais regras pretende alterar.
A secretária da Agricultura, Brooke Rollins, afirmou que o governo prepara uma série de anúncios a partir de segunda-feira (31) para fortalecer produtores e pequenos processadores de carne, incluindo redução de burocracia no processamento, ampliação das vendas entre estados, revogação de orientações consideradas ultrapassadas, além de financiamento e desregulamentação para pequenos processadores.
A iniciativa dá continuidade a uma discussão iniciada publicamente nesta semana durante uma entrevista de Trump ao apresentador conservador Glenn Beck. Dono de um rancho, Beck disse ao presidente que as regras federais dificultavam que pecuaristas processassem os próprios animais e que isso os tornava dependentes das grandes companhias.
Trump respondeu que analisaria se havia regulamentação excessiva no setor.
A legislação impede que pecuaristas comercializem carne de animais abatidos e processados por eles próprios sem inspeção federal, embora existam exceções. A fiscalização é realizada pelo Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar do Departamento de Agricultura.
A possibilidade de flexibilizar essas regras já provocou reação de representantes do setor. O Meat Institute, que representa empresas processadoras, afirmou que permitir a comercialização de carne sem inspeção pode colocar em risco a segurança alimentar. Já a National Cattlemen's Beef Association, representante de pecuaristas, afirmou apoiar a redução de regulamentações e a criação de oportunidades para pequenos processadores, mas defendeu a manutenção dos padrões de inspeção.
A ofensiva da Casa Branca contra as grandes processadoras ganhou força neste mês. Em entrevista a jornalistas no último dia 11, Navarro afirmou que as quatro maiores empresas constituem um "cartel" e destacou especificamente a presença brasileira no setor.
"E fica pior porque duas das quatro empresas são de propriedade brasileira e estão envolvidas até o pescoço com os chineses", afirmou na ocasião.
Navarro também acusou as empresas de exercer pressão dos dois lados da cadeia, pagando menos aos pecuaristas pelo gado e cobrando preços mais altos dos supermercados.
"O que a parte brasileira do cartel faz, como qualquer cartel faria, é maximizar seus preços globalmente, e os americanos estão pagando a conta por isso", disse.
Na época, a MBRF afirmou que opera "em estrita conformidade com as leis de defesa da concorrência e antitruste e mantém políticas robustas de governança e integridade".
A empresa afirma que o modelo de operação da National Beef é único nos EUA e que possui uma parceria de longa data com aproximadamente 700 produtores locais, que, juntos, detêm cerca de 18% do capital da companhia. A JBS não se pronunciou.
Na quarta-feira (26), Trump também assinou uma medida para ampliar temporariamente em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que pode entrar no país sob uma cota com tarifa reduzida, numa tentativa de diminuir os preços pagos pelos consumidores.
A estratégia provocou críticas de representantes dos pecuaristas americanos, que temem que o aumento das importações pressione os preços recebidos pelos produtores locais.
