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Marca Bahia Notícias

Notícia

"Tem gente que não me perdoa até hoje", diz Regina Duarte ao lembrar política

Por Matheus Rocha | Folhapress

"Tem gente que não me perdoa até hoje", diz Regina Duarte ao lembrar política
Foto: CNN Brasil

Regina Duarte e a filha, a também atriz Gabriela Duarte, estão sobre o palco numa atmosfera de tensão. Os nervos parecem à flor da pele e o desconforto na ribalta é quase palpável. O mal-estar, porém, nada tem a ver com "A Filha da...", que estreia na capital paulista na próxima quinta-feira e marca a primeira vez em duas décadas que elas contracenam num espetáculo.
 

Apesar da comoção em torno do trabalho, o nervosismo é fruto da entrevista que davam a este jornal na semana passada, no Teatro BDO Jaraguá. Num de seus ápices, depois de responder sobre sua passagem pelo governo de Jair Bolsonaro, Regina disparou "agora acabou, morreu esse assunto".
 

Se em "A Filha da..." as personagens querem esconder um assassinato, na entrevista, as atrizes desejavam enterrar de vez a política para tentar retomar o prestígio que Regina perdeu no meio artístico.
 

O esforço não é à toa. Em 2020, Regina fez uma participação tão breve quanto ruidosa no governo federal depois de encerrar um contrato de 50 anos com a TV Globo, emissora na qual ganhou o epíteto de "namoradinha do Brasil".
 

À frente da Secretaria Especial da Cultura, a artista acumulou críticas e controvérsias. Em maio daquele ano, encerrou uma entrevista ao vivo na CNN quando a emissora mostrou um vídeo enviado pela atriz Maitê Proença.
 

No registro, a artista pedia que a então secretária apresentasse soluções para a classe artística em razão da pandemia. Regina também causou mal-estar quando falou, naquela mesma entrevista, sobre as mortes provocadas pela ditadura militar. "A humanidade não para de morrer. Se você falar de vida, do lado tem morte."
 

Pouco depois da entrevista, um grupo formado por mais de 500 artistas publicou uma carta aberta em repúdio às declarações da atriz. Em meio ao desgaste, ela pediu demissão depois de 74 dias no cargo. O ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou, então, que ela comandaria a Cinemateca Brasileira. A promessa, porém, nunca se concretizou.
 

Diante desse desenlace conturbado, qual foi o custo pessoal de ter entrado na política? "Não teve custo nenhum. Eu saí de lá depois de 74 dias, voltei para minha vida e segui magnificamente bem. Tem gente que não me perdoa até hoje de ter ido. Tem gente que não me perdoa até hoje de ter voltado", diz Regina, depois de ser cutucada pela filha, que a orientava a não responder à pergunta.
 

Noutras ocasiões, Gabriela já sinalizou ter uma visão política diferente daquela defendida por sua mãe. Em entrevista ao jornal, há cinco anos, ela criticou a atuação do governo Bolsonaro na pandemia. "É trágico. Não temos uma liderança honesta, clara, que se preocupe com a vida."
 

Ao longo de pouco mais de uma hora, a conversa com a reportagem, que começou amena, foi ficando progressivamente tensa, conforme os assuntos se aproximavam da política. A equipe das artistas intervinha frequentemente, interrompendo perguntas sobre o tema, apesar da disposição de Regina para responder.
 

Em dado momento, uma profissional pediu que a equipe de filmagem do jornal parasse de gravar a conversa. Foi nesse clima que Regina afirmou não ter desejo de ser ministra nem vontade de voltar a ser secretária. "Não, definitivamente não. Senão, eu teria ficado mais lá, lutado para proporcionar alguma coisa para a classe artística, para o povo brasileiro", disse ela, pouco antes de ser interrompida novamente.
 

Política nunca mais, então? "Eu estou aberta. Eu estou viva. Quando a pessoa está viva, ela está aberta para o que der e vier. Ela pode dizer sim, ela pode dizer não. Está em aberto." O que não está tão aberta assim é a sua opinião sobre Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro e candidato do Partido Liberal ao Palácio da Alvorada.
 

A atriz já disse ser uma admiradora do ex-presidente, mas não responde se nutre essa mesma admiração por seu herdeiro político. "Você está me perguntando em quem eu vou votar? Fale do que fale, você vai concluir que eu vou votar nele ou não vou. A resposta é essa. Eu não vou responder em quem eu vou votar, tá?", afirma ela, com voz firme e gestos quase teatrais.
 

Quando a tensão atinge o auge, é possível lembrar as qualidades que fizeram dela um nome central da teledramaturgia brasileira. A artista parece preservar ainda o mesmo magnetismo, a verve dramática e a intensidade emocional que tornaram suas mocinhas célebres no Brasil e no mundo todo.
 

Uma das mais reverenciadas é Raquel Acioli, heroína de "Vale Tudo", clássico exibido em 1988 e 1989. No ano passado, o folhetim ganhou um remake criticado pelas mudanças em relação ao enredo original. "Eu jamais faria uma coisa dessas. Pegar o título de um ícone da teledramaturgia brasileira e fazer as mudanças que foram feitas", afirma Regina.
 

As alterações mais drásticas aconteceram justamente em sua protagonista, vivida dessa vez por Taís Araujo.
 

Na nova versão, a cozinheira voltou a vender sanduíches na praia depois da falência de sua empresa --algo que não estava na obra original. "O que é isso? Que personagem é essa? Eu não reconheço o meu personagem", diz Regina. "Não chama de 'Vale Tudo'. A novela pode ter sido ótima, embora eu não tenha visto, mas não podia chamar 'Vale Tudo'."
 

Outra protagonista marcante foi Malu, da série "Malu Mulher". No ar em 1979 e 1980, a atração antecipou pautas que só seriam amplamente debatidas anos mais tarde, como a independência feminina. Para Regina, a personagem foi um divisor de águas. "Ela me tornou uma nova mulher. Abriu a minha cabeça dizendo 'é possível, sim, ter vontade, ter opinião, lutar por isso tudo.'"
 

A artista, no entanto, diz não se considerar uma feminista. "Não gosto dessas 'tachações', porque tem hora que eu sou machista para caramba. Tem hora que eu acho que é a hora do homem botar o pé na porta. E eu agradeço, porque não quero fazer isso. Eu quero entregar essa função para ele, sabe? Acho que a gente tem que dividir."
 

Por falar em parceria, Regina e Gabriela formaram uma das duplas mais requisitadas da dramaturgia nacional. A obra que melhor sintetiza o sucesso da dobradinha é a novela "Por Amor", clássico de Manoel Carlos exibido em 1997 e 1998.
 

Na trama, Regina viveu uma das Helenas do autor, enquanto Gabriela deu vida à filha da protagonista. Depois do trabalho, elas emendaram outras duas produções juntas -a minissérie "Chiquinha Gonzaga" e a peça "Honra", ambas de 1999. Na sequência desses projetos, Gabriela decidiu se desvincular da parceria. "O que eu busquei foi entender a minha própria identidade."
 

Essa busca, porém, foi tortuosa e, por vezes, acidentada. "Eu ouvi muitas vezes assim 'a sua carreira vai acabar.'" A atriz, no entanto, bancou a decisão e seguiu o próprio caminho. Finda a jornada solo, Gabriela volta agora a dividir os palcos com a mãe em "A Filha da...", uma comédia nonsense dirigida por Darson Ribeiro. Além das duas, o espetáculo tem no elenco Vinícius Tardelli e Clau Carvalho.
 

Na trama, ambientada nos anos 1990, Gabriela vive uma mulher obcecada pela princesa Diana. Ao chegar em casa, a personagem vê a foto do agora rei Charles 3º estampada num jornal e atira na fotografia como se fosse uma vingança pelas traições do monarca. Ocorre que ela mata o marido por acidente. A partir daí, a mulher tenta esconder o crime com a ajuda da mãe, vivida por Regina.
 

"A descoberta de como fazer uma peça tão fora do convencional é muito divertida", diz Gabriela, para quem explorar esse novo território tem sido desafiador. "Mas ainda bem que os desafios existem, porque a gente gosta."
 

Regina faz coro a essa opinião e acrescenta que o espetáculo carrega uma estranheza interessante. "Ele sai daquele patamar que as pessoas esperam da gente. Aquela coisa de 'Por Amor', da mãe e filha, que sempre fizeram papéis de muita cumplicidade. Aqui, não. Aqui é outra história", afirma a artista. "Elas estão num jogo totalmente fora da curva.