Depoimento sobre suposta armação contra vice de Flávio é enviado ao STF, e Lindbergh diz ser vítima
Por Thaísa O., Catia S., Luísa M., Constança R. e José M. | Folhapress
A Câmara dos Deputados enviou ao STF (Supremo Tribunal Federal) o depoimento de um homem que acusa o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) de participar de uma armação contra o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), envolvendo a suspeita do crime de estupro de vulnerável.
O depoimento foi prestado por Luiz Antônio Lopes a partir de um boletim de ocorrência registrado por Gaspar em abril deste ano. O gabinete do deputado disse à Polícia Legislativa que Luiz entrou em contato por telefone dizendo ter informações sobre a denúncia feita contra ele pelo suposto estupro de uma adolescente.
Segundo a reportagem apurou, o BO foi encaminhado ao gabinete do ministro Gilmar Mendes pouco antes de o magistrado autorizar novas diligências no caso. O material foi enviado para que o STF o encaminhe à Polícia Federal, dentro das investigações sobre Gaspar por suspeita de estupro e também pela acusação de denunciação caluniosa feita pelo deputado contra Lindbergh.
O deputado petista acionou o STF nesta segunda-feira (10) para pedir a suspensão da investigação da Câmara contra ele. Ele afirma que a Polícia Legislativa extrapolou sua competência e que as afirmações de Luiz são "absolutamente falsas".
A acusação contra Gaspar por suposto estupro de vulnerável foi feita por Lindbergh e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) à PF em março. Na notícia-crime enviada, os dois afirmam ter recebido o relato de que Gaspar teria estuprado e engravidado uma menina, à época com 13 anos.
Os parlamentares também pediam à PF para investigar a afirmação de que Gaspar e pessoas ligadas a ele teriam pago R$ 70 mil e negociado outros R$ 400 mil para "assegurar silêncio, impedir a comunicação do crime e garantir impunidade".
Gaspar era relator da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) Mista do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) quando houve a acusação. O parlamentar disse que o relato era falso, que o material genético dele estava à disposição e divulgou um vídeo em que uma jovem afirma ser filha de um primo dele --fruto de uma relação consentida.
Na semana passada, quando foi anunciado vice de Flávio, Gaspar pediu à PGR (Procuradoria-Geral da República) e ao STF que acelerem a realização de um exame de DNA que, segundo ele, afastaria a suspeita de que tenha cometido estupro de vulnerável. Em razão do episódio, Gaspar também processa Lindbergh e Soraya sob acusação de calúnia, denunciação caluniosa, injúria e coação no curso do processo.
Luiz Antônio foi ouvido pela Câmara dos Deputados em abril. O homem afirma que uma mulher chamada Marcela Maria Mendes foi paga para dizer a uma repórter que havia sido abusada sexualmente por um político quando era adolescente e que tinha uma filha chamada Eloá. Marcela, na versão de Luiz, teria se apresentado para a repórter como Jailma.
"De que ela havia sido preparada para conceder entrevista sob identidade falsa, utilizando o nome fictício de 'Jailma', afirmando falsamente ser oriunda de Maceió/AL e sustentando narrativa segundo a qual teria sido abusada sexualmente, ainda adolescente, por um político, fato do qual teria resultado uma criança", diz o depoimento obtido pela reportagem.
Após o anúncio da chapa de Flávio, na semana passada, Lindbergh mandou mensagem para o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), e disse que não tinha provas de estupro contra Gaspar, segundo o parlamentar do PL.
Aliados de Lindbergh afirmam que a denúncia sobre um suposto estupro de vulnerável cometido por Gaspar chegou a integrantes da CPMI do INSS por meio de relatos do próprio Luiz, que dizia conhecer a vítima e ter elementos para comprovar a acusação. Segundo eles, Luiz mudou de versão em tentativas de extorquir dinheiro dos envolvidos. Procurado pela reportagem por mensagem de WhatsApp e ligações ao menos três vezes nesta segunda, Luiz não respondeu.
Lindbergh apresentou à reportagem vídeos antigos em que já era atacado por Luiz. Em uma das gravações, o homem diz que o deputado seria um dos mandantes da facada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018, o que é falso.
O gabinete de Gaspar também afirmou à Polícia Legislativa que Luiz relatou o pagamento de R$ 16,5 mil para forjar a história. Segundo ele, R$ 4.000 teriam sido pagos a mando de Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer -um dos principais alvos da CPI do INSS.
Apenas dois comprovantes de pagamento via Pix, em nome de outras pessoas, constam no relatório entregue pela Câmara ao Supremo, um no valor de R$ 10 mil, em fevereiro, e outro em no valor de R$ 2.500, em março.
A defesa do presidente da Conafer afirmou em nota nesta segunda que ele "não realizou nem autorizou pagamento destinado a remunerar, financiar ou viabilizar pessoa para produzir ou sustentar acusação falsa contra Alfredo Gaspar".
"Carlos Roberto Ferreira Lopes nega, de forma categórica e inequívoca, qualquer participação, anuência, planejamento, financiamento, coordenação ou adesão a iniciativa com essa finalidade", declarou a defesa, acrescentando que ele vai pedir acesso aos documentos recebidos pelo STF e procurar a PF para prestar depoimento.
Luiz também afirmou à Câmara que estava sendo pressionado e ameaçado pelo pré-candidato a deputado federal Tuninho da Padaria (PT-RJ), aliado político de Lindbergh.
Tuninho disse à reportagem que Luiz o procurou cerca de quatro meses atrás dizendo ter informações sobre a suposta vítima do estupro denunciado por Lindbergh. Luiz, segundo Tuninho, afirmou que a suposta jovem estava escondida com a família em Vassouras (município a cerca de 120 km do Rio de Janeiro). Tuninho afirma que interrompeu o contato com Luiz quando foi alertado por Lindbergh de que ele estava pedindo dinheiro para diferentes pessoas.
Soraya foi procurada pela reportagem nesta segunda, mas não quis se manifestar. A assessoria de imprensa da senadora afirmou que o caso está em segredo de Justiça e que todos os esclarecimentos estão sendo dados às autoridades.
A reportagem questionou a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados a respeito da reclamação de Lindbergh, mas não houve resposta até a publicação deste texto.
