América Latina fica de fora, pela terceira vez, de acordo de genéricos contra o HIV
Por Cláudia Collucci | Folhapress
A resposta global ao HIV vive hoje um dilema: de um lado, avanços científicos como as tecnologias de prevenção de ação prolongada, como cabotegravir e lenacapavir, administrados a cada dois ou seis meses; do outro, preços impagáveis e cortes de financiamento internacional, que já reduzem drasticamente a entrega desses mesmos avanços às pessoas que mais precisam deles.
A América Latina vive essa contradição de forma direta: apesar de participar dos estudos clínicos dessas novas tecnologias, pela terceira vez seguida a região ficou fora de um acordo internacional de produção de genéricos que ampliaria o acesso a uma tecnologia contra o HIV.
"Eu acho que, a nível global, a gente está vivendo um dilema terrível, terrível", disse à Folha Beatriz Grinsztejn, médica infectologista e pesquisadora brasileira, atual presidente da IAS (International Aids Society), durante congresso internacional de Aids, que acontece no Rio de Janeiro.
Grinsztejn é a primeira mulher latino-americana a chefiar a entidade e chefia o Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (Fiocruz), no Rio.
Segundo ela, mesmo os países que já têm acordos de compra a preços baixos enfrentam entrega muito aquém do necessário. O impacto dos cortes recai com mais força sobre populações-chave e sobre crianças. Dentro das regras do Pepfar, o programa americano de combate à Aids, a PrEP (profilaxia pré-exposição) só está disponível para gestantes, o que vem gerando protestos de ativistas durante o evento.
Nem mulheres em idade reprodutiva fora da gravidez podem acessá-la por meio dos serviços financiados pelo programa. Também houve queda expressiva no número de crianças cobertas por tratamento antirretroviral. "Estamos às portas de situações muito dramáticas que podem vir a acontecer caso não se restitua esse fluxo de recursos", disse.
O dilema entre inovação e desfinanciamento também afeta a América Latina. Na semana passada, por exemplo, foram assinados acordos de licenciamento do MK-8527, droga da Merck batizada agora de Alimatravir, com produtores genéricos em 129 países, incluindo três fábricas na África — enquanto a América Latina, novamente, ficou de fora.
A região já havia sido excluída de acordos semelhantes para o cabotegravir injetável e para o lenacapavir. "Essa é também uma questão nova que surgiu na sexta-feira e que demonstra que pela terceira vez a gente fica fora dos acordos de produção de acesso aos genéricos", afirmou Grinsztejn.
Grinsztejn fez questão de esclarecer que a exclusão dos acordos de genéricos não significa que os voluntários dos estudos clínicos realizados no Brasil — como o Expressive 11, que testa o Alimatravir — fiquem sem acesso ao medicamento. "Os voluntários dos estudos estão cobertos", disse.
O problema, segundo ela, é estrutural: sem participar das pesquisas clínicas, a região se distanciaria ainda mais do acesso a essas tecnologias. "Se o Brasil deixa de fazer pesquisa clínica, a gente fica cada vez mais longe e o fosso só aumenta", afirmou, descrevendo a participação em ensaios como um mecanismo de pressão sobre a indústria farmacêutica para que essas drogas cheguem à região.
Questionada sobre o andamento das negociações do Brasil com os laboratórios, ela foi direta: "até agora os preços oferecidos não se mostraram viáveis para a nossa economia".
Grinsztejn lembrou que o país tem histórico de incorporar tecnologias de alto custo quando o preço se mostra factível — caso do fostemsavir, usado em pacientes com múltiplas falhas terapêuticas —, mas que, no caso das novas tecnologias de prevenção, os preços praticados pela indústria ainda não chegaram a um patamar viável para o SUS (Sistema Único de Saúde).
O corte de financiamento também ameaça a permanência da própria Unaids. Perguntada sobre o futuro da agência da ONU, Grinsztejn foi enfática: "Precisamos que a Unaids continue — talvez não no mesmo escopo, com o mesmo número de pessoas trabalhando, mas ela precisa se manter."
Segundo ela, já existe um problema grave de perda de capacidade de monitoramento. "Já temos um grande problema, que é a maioria dos sistemas não estarem mais em vigor para entendermos os números — de infecções, de mortes, de pessoas em tratamento e em prevenção. Perder a Unaids agora seria uma perda enorme."
Sobre financiamento a pesquisa, ela também alertou para os riscos de cortes no NIH, que é a principal agência do governo dos Estados Unidos responsável por pesquisa biomédica e de saúde pública, da qual seu próprio grupo é financiado há 25 anos.
"É um desastre anunciado se esses recursos forem cortados", disse, lembrando que a infraestrutura de pesquisa mantida pelo NIH em países de baixa e média renda foi essencial não só para estudos de HIV, mas também para testes de vacinas durante a pandemia de Covid-19. "Sem pesquisa, nada vai vir para o futuro."
Questionada se o mundo vai cumprir a meta de acabar com a Aids até 2030, Grinsztejn não escondeu a preocupação, sobretudo diante dos dados sobre crianças apresentados na conferência. "Honestamente, se seguirmos no ritmo atual, eu realmente não vejo que vamos chegar lá. E os dados sobre as crianças são assustadores. Não vejo a gente indo bem o suficiente", afirmou.
Um dos pontos que Grinsztejn fez questão de reforçar foi o quanto o sistema público de saúde brasileiro isola o país dos efeitos mais dramáticos da crise de financiamento internacional, algo que, na sua avaliação, é pouco reconhecido pela própria população.
"O Brasil não tem impacto nenhum em relação a esses cortes [do Pepfar]. Acho que isso é pouco difundido", disse. "Embora a gente não tenha acesso a tudo, temos acesso a muito, muito mais do que a maioria das pessoas em outros países. E a gente pouco se apropria disso."
A jornalista viajou a convite da IAS (International Aids Society)
