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Marca Bahia Notícias

Notícia

Júri dos PMs acusados de matar delator do PCC é remarcado para 2027

Por Eduarda Esteves e Luis Adorno | Folhapress

Júri dos PMs acusados de matar delator do PCC é remarcado para 2027
Foto: Reprodução / Domingo Espetacular

A Justiça de São Paulo remarcou o júri popular dos três policiais militares acusados de participar do assassinato Vinícius Gritzbach, empresário e delator do PCC, e de Celso Araújo Sampaio Novais, motorista de aplicativo, para fevereiro de 2027. Eles foram mortos a tiros no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, no dia 8 de novembro de 2024.
 

Júri será realizado nos dias 22, 23, 24, 25 e 26 de fevereiro de 2027. Na decisão, o magistrado Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo manteve a prisão dos três réus, o soldado Ruan Silva Rodrigues, o cabo Dênis Antônio Martins e o tenente Fernando Genauro da Silva. Eles estão presos preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes e são acusados de homicídio doloso e organização criminosa.
 

Em liberdade, os réus poderão influir de forma negativa na colaboração das vítimas sobreviventes e das testemunhas, escreveu o juiz. Segundo o magistrado, os envolvidos podem se sentir ameaçados e deixarem de cooperar, afetando a instrução do júri.
 

"Mantenho a custódia cautelar dos réus, uma vez que os motivos que ensejaram a prisão preventiva se mostram juridicamente hígidos, não tendo ocorrido qualquer alteração fática que autorize a revogação da prisão preventiva (...) Os crimes têm penas máximas abstratas superiores a quatro anos, de maneira que
 

admitem a prisão preventiva", disse Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, juiz do TJ-SP.
 

Além de Gritzbach, os três também vão responder pelo homicídio de Celso e pelas tentativas de homicídios de mais duas pessoas. Eles estavam no aeroporto no dia em que o delator do PCC foi assassinado e acabaram atingidos pelos disparos.
 

O cabo Dênis, do 30º Batalhão (Carapicuíba), é apontado como um dos atiradores que executou Gritzbach. O soldado Ruan, do 20º Batalhão (Barueri) é apontado pela Corregedoria da PM como o segundo atirador. Ele é amigo do cabo Dênis.
 

O tenente Genauro, do 23º Batalhão (Pinheiros), foi acusado de dirigir o carro que deu fuga para o cabo e o soldado. Ele e Dênis trabalharam na Força Tática do 42º Batalhão, em Osasco (SP), e atuaram na mesma viatura em 16 de novembro de 2013. O tenente era amigo de Gritzbach e frequentava a casa dele.
 

O júri foi anulado após a defesa dos três policiais militares deixar o plenário. Os defensores, entretanto, não abandonaram as defesas dos clientes. "Por conta da posição da defesa, fica prejudicado o trabalho que começaria hoje. Iremos designar uma nova data", declarou o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, na última segunda-feira (22). Todos os depoimentos desta segunda serão desconsiderados e devem ser realizados novamente no novo julgamento.
 

O primeiro dia de julgamento foi marcado por enfrentamento entre promotor e advogados. Tanto acusação quanto defesa entraram em um embate, que durou cinco minutos no início da tarde. Enquanto o promotor Rodrigo Merli Antunes disse que o advogado Renan Pacheco Canto era habituado a conversar com "bandido" e "matador de aluguel", o defensor perguntou ao juiz se existia no plenário algum promotor "sério, respeitoso e honesto".
 

À noite, uma nova discussão acalorada ocorreu entre a acusação e a defesa, quando o promotor tentou questionar um ataque a tiros sofrido pelo advogado Mauro Ribas Junior. O advogado teve a visão afetada após o carro em que estava ser alvo de tiros, em fevereiro de 2025, no bairro Quintais do Imperador, em Sorocaba.
 

O juiz indeferiu a pergunta, o promotor tentou insistir e os advogados "peitaram" o promotor, que teve como resposta: "O senhor está com mau hálito". "Nas redes sociais é tudo leão, aqui são todos gatinhos", afirmou o promotor. Os advogados responderam que os ataques da promotoria ocorreram porque a acusação chegou despreparada ao júri. O juiz determinou uma pausa de cinco minutos.
 

O advogado dos réus, Cláudio Dalledone, afirmou que o juiz determinou o não prosseguimento da sessão de julgamento após uma "atitude tresloucada", do promotor Rodrigo Merli. Dalledone declarou que o promotor é "sem educação e alguém que precisa ser parado e sem limites", acusando-o de atacar um dos membros da banca de defesa. O defensor também informou que entrará com uma representação contra Merli e voltou a defender a inocência dos clientes.
 

Promotor declarou que a defesa fez aquilo que ela "está acostumada a fazer" e chamou os advogados de "bons de mídia". "Na hora de discutir a causa sempre abandonam [o júri] tentando colocar a culpa no Ministério Público e Justiça Pública para tentar eventual soltura dos réus", disse Merli.
 

Merli negou ter atacado um membro da banca de defesa. "Nós apenas estávamos conseguindo demonstrar para os jurados que, mais uma vez, a defesa cria narrativas para colocar bandidos, travestidos de policiais, nas ruas." Ele acrescentou afirmando que quase foi agredido por oito advogados dentro do plenário: "Quando viram que tudo iria ruir, a aposta é sair para que um novo Conselho de Sentença seja formado".
 

"Nas redes sociais, nas mídias, na imprensa parecem leões, mas, na verdade, não passam de gatinhos que, mais uma vez, fugiram do embate com a Justiça Pública", disse Rodrigo Merli, promotor do MPSP.
 

Familiares do motorista de aplicativo morto no ataque a Gritzbach acusaram os defensores dos PMs de agirem visando cancelar o julgamento. "Não é justo. Estou há dois anos esperando por Justiça. Vocês têm que voltar para a faculdade, seus atores. Eles estavam lá dentro dando um show", gritou a esposa de Celso Araújo Sampaio Novaes, se referindo aos advogados de defesa do PM.
 

Vinícius Gritzbach foi assassinado a tiros em 8 de novembro de 2024. O empresário havia desembarcado no Aeroporto Internacional de Guarulhos e foi surpreendido pelos criminosos armados.
 

Gritzbach se tornou um dos principais delatores do PCC. As investigações sobre o asassinato dele desvendaram a participação de policiais civis e militares associados ao crime organizado.
 

Para o DHPP, Gritzbach foi assassinado porque desviou R$ 100 milhões em criptomoedas de Cara Preta e ordenou a morte dele. Ele também sumiu com outros R$ 4 milhões de Cigarreiro; e ainda delatou integrantes do PCC para o MP-SP.
 

As investigações apontam que Gritzbach foi morto por um consórcio formado por criminosos do PCC e do CV, com a participação dos três PMs. Além de Cigarreiro e Didi, Gritzbach também havia delatado à Corregedoria da Polícia Civil um delegado e outros seis investigadores acusados por corrupção, um advogado e dois empresários vinculados ao PCC. Eles não respondem pelo homicídio.
 

PMs teriam aceitado promessa de recompensa para a execução e participação no crime. Ainda conforme a denúncia do MP, eles agiram "como verdadeiros mercenários e matadores de aluguel".
 

Os dois homens apontados como mandantes do crime estão foragidos. Eles foram identificados como o narcotraficante Emílio Carlos Gongorra Castilho, o Bill ou Cigarreiro, e Diego dos Santos Amaral, o Didi.
 

O olheiro do PCC Kauê do Amaral Coelho, que estava no aeroporto no dia do crime, também está foragido. Ele é acusado de ter avisado aos atiradores o exato momento em que a vítima deixava o saguão do Terminal 2 do aeroporto.
 

Eles não serão julgados no júri que começa nesta segunda. A Promotoria explicou que Kauê e Cigarreiro não são citados formalmente no processo e que, por isso, a ação está suspensa. "Esse é o termo técnico que a gente usa quando a pessoa não teve conhecimento formal da acusação. Ela não recebeu a cópia da denúncia e nem compareceu no processo por intermédio de advogado. Não é só que o acusado está foragido, mas também não tem ciência oficial e formal que tem um processo correndo contra ela. Nessas situações, a lei não deixa que o processo prossiga, então ele fica suspenso", explica o promotor Rodrigo Merli, do Ministério Público de São Paulo.
 

"Quando eles forem presos, vão tomar conhecimento formal da acusação e o processo pode ter andamento. Ou se eles constituírem algum advogado, mesmo que estejam foragidos, o processo pode começar a andar", disse Rodrigo Merli.