Trump intensifica ataques contra jornalistas após pesquisas registrarem queda de popularidade
Por Renam Marra | Folhapress
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nunca disfarçou seu desprezo por jornalistas que o confrontam. Com a popularidade em queda e próxima de mínimas históricas, entretanto, o republicano intensificou, nos últimos meses, os ataques contra repórteres e veículos de comunicação, reforçando uma estratégia que transforma a imprensa em inimiga preferencial e ajuda a mobilizar sua base de apoiadores.
Neste mês, Trump atacou repórteres de diferentes veículos e interrompeu uma entrevista de forma abrupta. Também em junho, comentaristas que se apresentam como independentes encontraram seus nomes numa seção intitulada "Influenciadores de Esquerda" dentro da página "Infratores da Mídia", hospedada no site da Casa Branca, o que motivou novas críticas relacionadas à liberdade de expressão.
No ataque de fúria mais recente, Trump abandonou uma entrevista à rede americana NBC depois de ser pressionado a apresentar provas relacionadas às acusações de fraude eleitoral no pleito de 2020, quando ele foi derrotado pelo democrata Joe Biden. Sem responder aos questionamentos, o presidente arrancou de sua camisa o microfone de lapela, jogou-o no chão e acusou a emissora de parcialidade.
"Vocês são um canal parcial e desonesto. Sinto muito, acabou, já tive o suficiente. Obrigado, querida. Divirta-se", afirmou Trump.
Antes de se levantar, o presidente ofendeu a jornalista Kristen Welker, que conduzia a entrevista, chamando-a de "corrupta ou estúpida". Também atacou outras redes americanas, caso de CBS, ABC e CNN, acusadas por ele de serem fraudulentas. A entrevista e a irritação do republicano foram ao ar no último domingo (7) no programa "Meet the Press".
Não foi um caso isolado. Nas semanas anteriores, Trump ofendeu jornalistas que o questionaram sobre temas sensíveis, incluindo a economia, as operações militares dos EUA no exterior e as investigações envolvendo integrantes de seu governo. Os alvos principais são as mulheres.
Trump afirmou no último dia 3, durante entrevista na Casa Branca, que Kaitlan Collins, jornalista da CNN, tinha "ódio nos olhos". E assim como fez com Welker, também a chamou de corrupta.
Semanas antes, em abril, disse que Norah O’Donnell, âncora da CBS, é "uma pessoa horrível" e "uma vergonha" após ser questionado sobre seu posicionamento em relação a um texto atribuído ao homem que tentou invadir armado o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, que teve a presença do republicano.
O episódio com Norah O’Donnell ganhou repercussão não apenas pelo tom agressivo, mas por ter ocorrido no "60 Minutes", um dos programas jornalísticos mais respeitados da televisão americana e que se tornou o principal alvo da ofensiva de Trump contra um veículo de comunicação.
Trump processou a CBS após a exibição de uma entrevista com a então vice-presidente Kamala Harris durante a campanha de 2024, sob o argumento de que a edição favoreceu a candidata democrata. Em 2025, a controladora da rede, a Paramount, concordou em encerrar a ação com um acordo de US$ 16 milhões, sem admitir irregularidades.
A decisão foi considerada polêmica: para críticos, o ato representou uma concessão inédita à pressão de um presidente contra uma organização de mídia nos EUA.
A crise no "60 Minutes" se aprofundou nos últimos meses sob a gestão de Bari Weiss, contratada em outubro passado para comandar a divisão de notícias da CBS. A jornalista passou a ser acusada de fazer uma reformulação editorial que buscaria tornar a cobertura menos combativa em relação ao governo, o que ela nega. A turbulência culminou na saída ou demissão de nomes importantes do programa.
A ofensiva do presidente atingiu também personalidades do entretenimento que costumam satirizá-lo. Um dos principais alvos foi Stephen Colbert, que apresentou o "Late Show", exibido pela própria CBS.
No mês passado, Trump comemorou a transmissão do último programa do "Late Show", no último dia 21. O encerramento havia sido anunciado pela emissora em julho de 2025, apenas três dias após Colbert criticar o acordo firmado entre a Paramount e o presidente. Nas redes sociais, o republicano publicou um vídeo feito por inteligência artificial que o mostra arremessando o humorista dentro de uma lata de lixo.
A intensificação dos embates contra a imprensa ocorre à medida que o presidente perde popularidade. Na segunda (8), pesquisa divulgada pela agência de notícias Reuters e o Instituto Ipsos mostra que a parcela da população dos EUA que aprova o trabalho de Trump atingiu 35%.
Com uma margem de erro de dois pontos percentuais, a aprovação continua na mínima histórica para o republicano, que tinha 33% em dezembro de 2017. A taxa teve uma oscilação de um ponto percentual em comparação com a pesquisa Reuters/Ipsos anterior, conduzida em abril, quando 34% dos americanos diziam aprovar o trabalho de Trump.
A ofensiva ganhou novos contornos também após o início da guerra contra o Irã, em fevereiro. Diante de pesquisas que mostravam resistência de parte da população ao conflito, Trump e integrantes de seu governo passaram a acusar veículos de comunicação de tentar sabotar o esforço militar americano.
O presidente chegou a afirmar que parte da imprensa estaria trabalhando contra os interesses dos EUA durante o conflito e acusou veículos de comunicação de colaborarem com a propaganda do Irã.
