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Das 10 companhias que mais receberam do Master, 4 têm sinais de empresa fachada; veja ranking

Por Marina Pinhoni, Joana Cunha e Thaísa Oliveira | Folhapress

Das 10 companhias que mais receberam do Master, 4 têm sinais de empresa fachada; veja ranking
Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo

Números de telefone (11) 1111-1111, emails [email protected] e endereços em bairros periféricos. Sócios ocultos ou que receberam auxílio emergencial. Estas são as características de algumas das empresas que ganharam os maiores pagamentos do Master em transações classificadas pelo banco como serviços prestados.
 

Das 10 firmas que receberam mais dinheiro da instituição de Daniel Vorcaro --somando R$ 1,2 bilhão no total--, 4 têm algum sinal de empresa de fachada ou possuem informações inconsistentes registradas nos cadastros da Receita Federal, segundo levantamento feito pela Folha a partir de dados enviados pelo fisco à CPI do Crime Organizado. Além da Midias Promotora, que no mês passado foi alvo de busca e apreensão na esteira do caso Master, as outras empresas se chamam Telure, Metanoein e Nanook.
 

Outras cinco companhias --Ouro Negro, MSG, MDSV, Terra Firme e uma filial dela-- se encaixam em perfil diferente: possuem alguma ligação direta com a cúpula do próprio banco.
 

A única que foge a esses dois padrões é o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
 

Procurada pela reportagem em 28 de abril, a assessoria de imprensa do Master disse que não iria se manisfestar.
 

Veja o ranking das firmas que receberam os maiores pagamentos do banco entre 2022 e 2025:
 

1º - Ouro Negro
 

No topo da lista, com quase R$ 220 milhões recebidos, está a Ouro Negro Empreendimentos e Participações, sociedade anônima que tem como diretor David Lopes Monteiro. Ele é irmão de Daniel Lopes Monteiro, advogado preso na operação Compliance Zero, apontado como operador jurídico-financeiro da estrutura do Master.
 

No CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da Ouro Negro está registrado como sede um endereço na avenida Luiz Carlos Berrini, centro empresarial na zona sul de São Paulo, porém, o telefone e o email para contato são da empresa Zero Burocracia, que fica na avenida Sapopemba, zona leste da capital. O local é um pequeno prédio com pichações na fachada. No térreo há uma loja de colchões e um serviço de reparo de vidros automotivos.
 

A reportagem entrou em contato pelo telefone atribuído à Ouro Negro no cadastro da Receita. Quem atendeu foi André Cardoso da Silva, sócio-administrador da Zero Burocracia. Ele diz não ter ligação com o caso. Afirmou que foi contratado só para fazer "serviços paralegais" para a Ouro Negro e que, por "erro de uma funcionária", seus dados foram parar no cadastro da firma de David Monteiro.
 

A Folha também tentou contato com David Monteiro, em 13 de maio, pelos emails de outras dez empresas em que ele figura como diretor ou sócio. Procurada em 29 de abril, a assessoria de imprensa de seu irmão Daniel Monteiro também não se manifestou.
 

2º - Terra Firme
 

Em segundo lugar no ranking, com quase R$ 186 milhões, vem a Terra Firme da Bahia LTDA, de Augusto Lima, ex-sócio do Master, que também chegou a ser preso na Compliance Zero e passou a usar tornozeleira eletrônica. A Terra Firme tem um outro braço, com CNPJ diferente, que aparece em décimo no ranking.
 

Procurada em 29 de abril, a assessoria de imprensa de Lima diz que a defesa dele não vai comentar e não respondeu quais foram os serviços prestados.
 

3º - Midias Promotora
 

Na sequência vem a Midias Promotora LTDA, que recebeu mais de R$ 126 milhões registrados como serviços prestados ao Master. Conforme revelou a Folha em abril, a empresa tem como sócio-administrador Gilson Bahia Vasconcelos, beneficiário do auxílio emergencial do governo na pandemia e réu em processo por golpe de um call center contra aposentados do INSS.
 

Bahia Vasconcelos também é administrador de outra firma chamada Midias Promotora LTDA - SCP1, que tem como sócia a Midias Promotora. O modelo de SCP (Sociedade em Conta de Participação) é uma estrutura com menor regulação que permite a entrada de sócios em posição oculta.
 

O endereço informado pela Midias SCP1 em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, é exatamente o mesmo que aparece no cadastro da Metanoein, empresa que ocupa a sexta posição do ranking.
 

Um mês após a reportagem da Folha, a Midias Promotora foi alvo de busca e apreensão em operação que investiga aplicações de R$ 3 bilhões do Rioprevidência (fundo de pensão dos servidores do Rio de Janeiro), no Master.
 

Na reportagem sobre Bahia Vasconcelos, a Folha conversou com o advogado dele, que negou participação do administrador no call center do caso em que é reú por estelionato e diz que ele cumpre medidas cautelares. Sobre a Midias Promotora LTDA, diz que as movimentações financeiras são legais.
 

A reportagem voltou a procurar o advogado em 29 de abril e em 6 de maio, mas não houve atualização de suas manifestações.
 

4º - Telure
 

A quarta empresa também está ligada a uma pessoa que foi beneficiária de auxílio emergencial na pandemia. Fabia Franca, que recebeu R$ 5.250 do governo, aparece como diretora da Telure Participações S.A, que obteve R$ 110,8 milhões do Master.
 

A Folha não conseguiu contato pelo telefone (11) 1111-1111 nem pelo email [email protected], registrados no CNPJ. As tentativas foram feitas em 29 de abril.
 

5º - MSG
 

Em quinto lugar, com quase R$ 106 milhões, está a MSG Serviços Empresariais LTDA-- dos ex-sócios do banco Felipe Wallace Simonsen e de Armando Miguel Gallo Neto.
 

Em 29 de abril e em 14 de maio, a Folha tentou contato pelos emails e telefones registrados no cadastro da empresa, mas não teve resposta.
 

6º - Metanoein
 

Com R$ 102 milhões, a sexta é a Metanoein Participações e Consultoria LTDA, que fica no mesmo endereço da Midias SCP1, em Bangu. Essa empresa também tem uma SCP vinculada --no mesmo endereço-- e dívida ativa superior a R$ 9 milhões com a União por falta de pagamento de impostos.
 

Em abril, uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do RJ impediu a transferência de valores ligados à Metanoein em desdobramento de investigação sobre crimes de constituição de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O caso envolve uma rede de postos de gasolina operada por meio de laranjas.
 

A Folha tentou contato, desde 27 de abril, por email e WhatsApp, mas não teve resposta. A sócia-administradora da firma, a advogada Rose Evelyn Coité, atendeu uma ligação da reportagem, mas desligou.
 

7º - MDSV
 

A próxima na lista é a MDSV Participações LTDA, do ex-sócio do banco Maurício Quadrado e sua mulher Denise, com R$ 100 milhões.
 

A MDSV fica em um prédio residencial de bairro nobre na capital paulista, perto do parque Ibirapuera.
 

Procurada pela Folha, a assessoria de imprensa de Quadrado diz que a MDSV atua com assessoria e consultoria financeira para firmas de diversos setores. Ele nega que a empresa tenha recebido este valor, mas não revela a quantia exata.
 

Em nota, diz apenas que os valores são inferiores a R$ 100 milhões, que os serviços foram regularmente prestados, conforme as práticas de mercado, e que "decorrem da prestação de serviços de assessoria na estruturação de operações financeiras diversas, incluindo, entre outras, operações de mercado de capitais, sendo que estas últimas resultaram na captação de recursos pelo banco em montante superior a R$ 2 bilhões".
 

8º - Nanook
 

A oitava é a Nanook Participações S.A., com R$ 92,8 milhões. Essa empresa também tem a beneficiária de auxílio Fabia Franca na direção, assim como a Telure. Ambas apresentam a mesma atividade principal, correspondente de instituições financeiras. Os cadastros da Telure e da Nanook na Receita têm endereços diferentes, em São Caetano do Sul e Goiânia, mas usam os mesmos telefones e emails: 1111-1111 e [email protected]. As tentativas de contato foram feitas pela reportagem em 29 de abril.
 

9º - Barci de Moraes
 

O nono do ranking é o escritório Barci de Moraes, com mais de R$ 80 milhões recebidos. Procurada pela reportagem, sua assessoria enviou nota com uma lista de atividades. Segundo o comunicado, o serviço incluiu consultoria e atuação jurídica com uma equipe de 15 advogados, além da contratação de outros três escritórios. A nota menciona 94 reuniões de trabalho, 36 pareceres e opiniões legais, elaboração de manuais, implementação de código de ética do banco, consultorias e atuação na área penal e administrativa, entre outras funções.
 

10º - Terra Firme (outro CNPJ)
 

A décima, que recebeu R$ 73,6 milhões, é novamente uma Terra Firme da Bahia LTDA, de Augusto Lima, mas aparece como filial, com outro CNPJ.
 

Colaborou Iran Alves, de São Paulo