Suspeito do novo cangaço usou nome falso para ser atendido em hospital municipal após explosão a carro-forte
Por André Fleury Moraes | Folhapress
Um foragido da Justiça que segundo o Ministério Público é ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital) esteve quatro vezes no Hospital Municipal de Santo André após participar de um ataque a carro-forte no interior de São Paulo. Em todas as ocasiões, apontam as investigações, ele entrou e saiu pela porta da frente.
Isso foi possível porque Jurandir da Silva Barros, 44, deu entrada no hospital portando documentos falsos. Ele foi registrado na unidade como Bertolino Tobias, uma suposta fraude da qual também teria participado o ex-assessor da prefeitura Leandro Bonifácio do Nascimento, segundo as investigações.
A defesa de Jurandir nega: diz que ele chegou ao hospital desacordado após um acidente de trabalho —caiu de um andaime, na versão de seus advogados— e que, quando acordou, já havia em seu braço uma pulseira com outro nome.
"A imputação de que ele próprio teria inserido dados falsos no sistema do hospital não se sustenta, pois pessoa estranha ao setor administrativo da unidade não detém acesso ao sistema informatizado do local", afirmam os advogados David e Victor Godoy Martins em nota encaminhada à Folha.
A reportagem não localizou a defesa de Bonifácio. Um dos escritórios que o defendia renunciou ao caso, e o atual não atendeu aos quatro telefonemas feitos na quarta-feira (3) nem respondeu a uma tentativa de contato feita por email.
Em juízo, ele disse que não tinha acesso aos sistemas do hospital nem conhecia os envolvidos no caso. A Prefeitura de Santo André afirmou à reportagem que ele não integra o quadro de funcionários da atual gestão.
ENTENDA A CRONOLOGIA DO CASO
- 08/04/2024 – Ataques em São Pedro e Cordeirópolis: Apontado como explosivista do grupo, Jurandir da Silva Barros fica gravemente ferido no braço esquerdo.
- 09/04/2024 – Internação com nome falso: Comparsas articulam atendimento clandestino. Jurandir é internado no Centro Hospitalar de Santo André sob o nome falso de Bertolino Tobias.
- 10/04/2024 – Cirurgia: Leandro Bonifácio, assessor municipal, acompanha o procedimento e informa aos aliados de Jurandir sobre o sucesso da operação.
- 11/04/2024 – Evasão: Jurandir deixa o hospital sem alta médica.
- 19/04, 08/05 e 15/05/2024 – Retornos médicos: Ele retorna à unidade para acompanhamento, mantendo a identidade falsa.
- 23/05/2024 – Fraude confirmada: Investigadores encontram o nome falso utilizado por Jurandir registrado na grade cirúrgica do hospital.
- 19/06/2024 – Novo crime: Mesmo ferido, ele é apontado como participante do roubo de R$ 30 milhões no aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul (RS).
- 27/06/2024 – Prisão: Após monitoramento policial, Jurandir é localizado e preso em Jacutinga (MG).
As informações sobre o caso constam de uma extensa investigação da Polícia Civil e do Ministério Público que apura uma série de ações do novo cangaço em Cordeirópolis (SP) em abril de 2024. A Folha obteve os documentos.
Para a Polícia Civil, Jurandir integrava uma organização especializada em ataques do gênero —o novo cangaço usa armamento pesado, táticas militares e faz ações geralmente rápidas em cidades pequenas, com menor efetivo policial e fácil acesso a rodovias.
No caso de Cordeirópolis, dizem as investigações, ele atuaria no preparo dos artefatos utilizados para romper a blindagem do carro-forte.
Conforme a Polícia Civil, Jurandir saiu da explosão com ferimentos graves e teve "o braço esquerdo transpassado por estilhaços da carenagem de um dos carros fortes, lançados em alta velocidade pela força da bomba".
Foi socorrido por outro suspeito de participar da ação, entrou no carro e fugiu. Começava aí uma busca por atendimento médico clandestino.
Jurandir já era considerado foragido desde 2023 —havia um mandado de prisão contra ele por participar de outro roubo. Por isso, ele não poderia aparecer em nenhum registro público oficial, sob o risco de ser identificado e preso.
A investigação diz que coube a Fernando Giurni encontrar um local que pudesse fazer o atendimento. Ele então procurou duas pessoas.
A primeira recusou após receber a mensagem "BO da porra", indicando que o caso envolvia um foragido da Justiça cuja ficha não poderia ser registrada.
O segundo, por sua vez, encaminhou um contato identificado apenas como "Piu". A polícia diz que ele é "conhecido na região por ser temido e fazer parte da facção PCC". Foi Piu, apontam as autoridades, quem forneceu o contato de Leandro Bonifácio aos envolvidos no atentado ao carro-forte.
Jurandir chegou ao hospital por volta das 20h30 do dia 9 e foi continuamente monitorado por Giurni através do então assessor. Às 23h15, por exemplo, Bonifácio enviou a ele o raio-x do braço de Jurandir e disse que tudo daria certo.
"Deus do céu", respondeu Fernando ao ver os ossos fraturados. "Vai ser trampo para não perder", disse o assessor.
O contato foi retomado na manhã seguinte, quando Bonifácio escreveu a Giurni para dizer que "salvamos o braço do amigo".
A defesa de Giurni nega a acusação. O advogado Joseph Florencio disse que inexistem provas de sua participação no caso ou que demonstrem seu envolvimento na alegada organização criminosa.
"A acusação não reúne elementos suficientes para sustentar um decreto condenatório", afirma a defesa, "permanecendo confiante de que a inocência de Fernando da Costa Giurni será reconhecida, com a observância rigorosa das garantias constitucionais que regem o processo penal brasileiro".
A Fundação do ABC, que administra a unidade hospitalar, disse que colaborou com as autoridades para encontrar a verdadeira identidade de Bertolino. "À unidade não cabe, por não deter competência, atribuição legal ou meios técnicos, exercer função investigativa ou de verificação de identidade de pacientes junto a bancos de dados policiais", afirmou.
Jurandir deixou o hospital na manhã do dia 11 sem qualquer alta médica e voltou ao hospital em outras três ocasiões, todas as quais como Bertolino. Chegou a marcar uma cirurgia para 29 de maio, mas nunca mais apareceu —segundo o Ministério Público, porém, nem poderia fazê-lo.
Poucos dias depois, ele teria se dirigido ao sul do país para participar de um assalto a um carro-forte que transportava dinheiro trazido de um avião no aeroporto de Caxias do Sul (RS), segundo a polícia. Criminosos entraram e roubaram ao todo R$ 14,4 milhões. Um policial morreu.
Àquela altura, porém, os passos de Jurandir eram monitorados. Em 27 de junho, Jurandir deixou a casa da namorada e dirigiu até a região de Jacutinga, no extremo sul de Minas Gerais, para se esconder num sítio em local "ermo e de difícil acesso" segundo as investigações.
Acabou cercado. Tentou pular pela janela do segundo andar para fugir pela mata, mas acabou preso em flagrante.
Em fevereiro deste ano, Jurandir e outras 14 pessoas foram condenadas pela Justiça Federal no Rio Grande do Sul pelo assalto ao aeroporto de Caxias do Sul.
A defesa de Jurandir disse à Folha que já recorreu da condenação no Rio Grande do Sul "na firme convicção de que a sentença será reformada". Em São Paulo, por sua vez, a ação penal já caminha para ser julgada.
No fim de abril, o MP-SP apresentou suas alegações finais no caso e pediu a condenação dos denunciados pelos crimes de organização criminosa, falsidade ideológica e inserção de dados falsos em sistema público.
