Angelita Habr-Gama, cirurgiã que revolucionou o tratamento do câncer de reto, morre aos 92
Por Cláudia Colluci | Folhapress
A cirurgiã Angelita Habr-Gama, uma das maiores referências mundiais em coloproctologia e pioneira da cirurgia brasileira, morreu neste sábado (30), aos 92 anos, em São Paulo.
Internada desde o dia 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, instituição à qual esteve vinculada por mais de seis décadas, ela deixa um legado que transformou o tratamento do câncer de reto e abriu caminho para gerações de médicas em uma especialidade historicamente dominada por homens.
A causa da morte não foi divulgada. O velório acontecerá no teatro da Faculdade de Medicina da USP (na avenida Doutor Arnaldo, 455, em São Paulo), neste domingo, das 15h às 19h.
Ao longo de mais de 60 anos de carreira, Angelita acumulou pioneirismos. Foi a primeira mulher a se tornar professora titular de uma especialidade cirúrgica na Faculdade de Medicina da USP, a primeira brasileira aceita como membro honorário da centenária American Surgical Association e a primeira premiada pela Sociedade Europeia de Cirurgia.
Em 2022, entrou para a lista elaborada pela Universidade Stanford que reúne os 2% de cientistas mais influentes do mundo. Recebeu a notícia com surpresa. "Foi um reconhecimento que eu não esperava. Espero que seja um incentivo para os pesquisadores brasileiros, especialmente para as mulheres. A primeira coisa que a mulher precisa ter é autoconfiança e mostrar isso aos outros. E não aceitar o não como resposta", disse à Folha à época.
A frase condensava a filosofia que guiou sua trajetória e deu título à biografia lançada pouco antes, O Não Não É Resposta, escrita por Ignácio de Loyola Brandão. Desde cedo, a médica fez da recusa um estímulo.
O primeiro "não" veio dos pais, que desejavam vê-la professora, como as irmãs. O segundo surgiu ao optar pela cirurgia, quando ouviu de um chefe de residência que aquele não era um espaço para mulheres.
Mais tarde, enfrentou nova barreira ao ser inicialmente recusada por um hospital londrino especializado em cirurgia colorretal sob a justificativa de que a instituição só aceitava homens. Insistiu em todas as ocasiões. E venceu.
Nascida em 1933 na Ilha de Marajó, no Pará, filha de imigrantes libaneses, mudou-se ainda criança para São Paulo. Entrou na Faculdade de Medicina da USP em 1952, aos 19 anos. Em uma época em que as mulheres eram minoria absoluta nas escolas médicas e raríssimas nos centros cirúrgicos, construiu uma carreira marcada pela disciplina e pela obstinação.
Sua principal contribuição científica foi a consolidação do protocolo conhecido como "watch and wait", abordagem que mudou paradigmas no tratamento do câncer de reto. A estratégia demonstrou que, em pacientes selecionados com resposta completa à quimiorradioterapia, era possível evitar cirurgias mutiladoras e preservar o órgão. A proposta alterou diretrizes internacionais e beneficiou milhares de pacientes em todo o mundo.
Angelita integrou a equipe que cuidou de Tancredo Neves (1910-1985), a única mulher no grupo médico.
Publicou mais de 200 artigos científicos indexados e acumulou mais de 50 prêmios. Gostava de destacar que sua produção científica refletia a força da escola médica brasileira, embora lamentasse o desmonte da pesquisa nacional. "É pena que o país não valoriza a ciência, a cultura, a educação. As verbas, que já eram poucas, estão diminuindo ainda mais", afirmou à Folha em 2022.
A consagração internacional veio acompanhada de uma dramática experiência pessoal. Em 2020, contraiu Covid-19 e passou quase 50 dias sedada na UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Quando chegou à emergência, soube da gravidade do quadro.
"Cheguei ao hospital, fiz a tomografia e os pulmões estavam inteirinhos tomados. Pensei: ‘Vou morrer, mas vivi uma vida muito boa, consegui o que eu queria e o que nem imaginava’." Antes de ser sedada, no entanto, teve um pensamento definitivo: "Eu não quero morrer."
Sobreviveu. Dez dias após a alta, voltou ao trabalho. Retomou o consultório, as cirurgias e acrescentou à rotina aulas de xadrez no Clube Paulistano. Dizia ter saído da experiência com outra percepção da existência. "Foi uma experiência boa. Aprendi a valorizar ainda mais a vida."
Era uma celebração cotidiana, sem retórica. "Usufruo a vida, não deixo passar nada. Eu desfruto do dia a dia, desfruto da minha casa, desfruto da comida, desfruto da companhia dos parentes e dos amigos."
Casada com o também cirurgião Joaquim Gama, cultivava uma vitalidade competitiva que atribuía à infância e ao exemplo da mãe, que morreu aos 97 anos. "Acho que vou ser como ela. Quando tiver que morrer, vou morrer sob protestos", disse, com humor.
Gostava de se cercar de jovens —assistentes, sobrinhos-netos, alunos— e evitava o que chamava de "conversas de velhos". "Não saio com os meus amigos velhos. As conversas são sempre as mesmas: ‘Dói aqui, dói ali’."
A morte a alcançou ainda em plena atividade intelectual. Desde 1980 no corpo clínico do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, seguia operando, orientando e formando especialistas. Fundou a disciplina de coloproctologia do Hospital das Clínicas da USP, presidiu sociedades médicas no Brasil e na América Latina e ajudou a consolidar a especialidade no país.
Em nota, o hospital Oswaldo Cruz informou estar "profundamente consternado com esta perda irreparável para a medicina brasileira" e destacou seu legado científico e humano.
A Sociedade Brasileira de Coloproctologia também emitiu uma nota de pesar, na qual classifica a médica "como uma líder inconteste, professora por excelência, pesquisadora incansável e cientista brilhante."
"Angelita contribuiu como poucos para engrandecer a especialidade que abraçou e representou tão dignamente. A magnitude de seu reconhecimento como pessoa, educadora e profissional é fruto da grandeza de sua existência como ser humano. Em decorrência disso, sua vida grandiosa e rica foi sempre repleta de feitos, conquistas e exemplos, muitos deles contados em numerosas publicações e homenagens ao longo de sua existência", diz o texto.
