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Marca Bahia Notícias

Notícia

Brasileiros na Austrália contam como jovens vivem com redes sociais proibidas

Por LAURA MATTOS

Brasileiros na Austrália contam como jovens vivem com redes sociais proibidas
Bruno Peres/Agência Brasil

Faz quase seis meses que a Austrália se tornou pioneira mundialmente no banimento das redes sociais para menores de 16 anos. Brasileiros que moram no país relatam que o uso dessas plataformas diminuiu entre crianças e adolescentes, mas que ainda há muitas tentativas de se burlar as restrições.
 

"Conhecemos menores de 16 anos que continuam tendo acesso a redes sociais. A proibição não é tanto 'preto no branco'. Tem várias nuances", conta à Folha Carla Alzamora, que se mudou para a Austrália em 2018 com o filho, Caetano, hoje com 13 anos --a família mora na capital do país, Camberra.
 

Ela sempre supervisionou o uso de telas do filho, que chegou a usar redes sociais por um breve período. "Mas eu logo cortei, antes mesmo da restrição do governo."
 

Caetano aprova a lei, acha "muito bom que crianças e adolescentes estejam menos no celular". Mas conta que "a proibição funcionou em alguns lugares e, em outros, não". "Algumas redes sociais ficaram mais difíceis de acessar, mas ainda é possível entrar, e outros aplicativos nem tentaram cumprir a regra."
 

Apesar de cerca de 4,7 milhões de contas de usuários de até 16 anos terem sido removidas pelas plataformas na Austrália, a verificação de idade nem sempre é efetiva. As tentativas de se burlar as restrições costumam envolver o uso de contas de pessoas mais velhas, declarações falsas de idade, a utilização de VPNs (ferramentas que mascaram a localização do usuário) e a migração para plataformas menores, com checagem menos rigorosa.
 

"As redes sociais estão lidando com a restrição de formas diferentes. O Snapchat, pelo que eu escuto dos adolescentes, é mais difícil de burlar, porque tem reconhecimento facial, então muitos amigos do meu filho pararam de usar", conta Carla.
 

"Em plataformas que não utilizam esse reconhecimento facial, é mais fácil criar contas", afirma. "Mas, em geral, parece que o monitoramento está acontecendo. Recentemente, em uma viagem da turma da escola, soube que tentaram entrar no TikTok, mas a conta foi bloqueada."
 

Caetano diz que uma parte de seus amigos ainda fica muito tempo nas redes sociais, e "é como se a proibição não tivesse funcionado". "Mas também há alguns que passaram a usar menos", o que ele vê com bons olhos.
 

"As crianças e os adolescentes estão desenvolvendo uma identidade própria, sem ficar nas redes sociais tentando ser como outras pessoas", afirma.
 

Ele aponta um porém. "[O veto] reduz a comunicação online, a forma como interagimos, e, se houver crianças e adolescentes que se sentiam mais confortáveis nas redes sociais, e não podem usá-las, isso pode afetá-los."
 

Manoela Pace, que se mudou do Brasil para a Austrália há mais de 20 anos, conta que sua filha de 13 anos, Juana, está sentindo bastante as mudanças --a família mora em Sydney. "Quando houve o banimento, explicamos para ela que era uma determinação do governo, que não havia discussão. Foi difícil, porque ela já tinha redes sociais, principalmente TikTok e Snapchat. Até hoje ela reclama bastante."
 

Juana diz ter "uma opinião meio dividida" sobre o banimento. "Obviamente eu entendo por que estão fazendo isso, mas eu não acho que esse seja o jeito certo", afirma à Folha. "Em vez de tirarem as crianças e os adolescentes das redes sociais, deveriam tirar os predadores, o pessoal estranho da internet."
 

"A proibição está realmente atrapalhando a minha vida, porque todos os meus amigos ainda têm [redes sociais], sou uma das únicas que não têm. Quando estão falando sobre algo da internet que não entendo, me sinto excluída", reclama. "Nunca respondem às minhas mensagens de texto, e isso é muito difícil..."
 

Já Manoela, embora compreenda a insatisfação da filha, considera a proibição positiva, por achar que, na infância e na adolescência, eles não têm maturidade para lidar com os vários riscos das redes sociais. Ela menciona um deles: "Sempre me preocupei com o fato de a Juana, como muitas meninas da idade dela, ficar ligada demais em autoimagem, consumindo vídeos de maquiagem."
 

A discussão sobre restrições das redes sociais na infância e na adolescência ganha espaço internacionalmente, inclusive no Brasil. Na Indonésia, por exemplo, o banimento já entrou em vigor, em março; na Malásia entrará em junho, e, na Grécia, em janeiro de 2027. As restrições também já começaram na Dinamarca, e os planos de proibição estão avançados na França e no Reino Unido, entre outros.
 

No Brasil, o ECA Digital, em vigor desde março, determina que, não somente as redes sociais, mas todos os produtos e serviços de tecnologia que atingem crianças e adolescentes utilizem configurações que evitem o uso compulsivo, que ofereçam ferramentas de controle parental (para que os pais supervisionem o uso dos filhos) e adotem mecanismos de verificação de idade para conteúdos impróprios. Apesar dessas regras, novos projetos de lei propõem o banimento das redes sociais a menores de 16 anos.
 

Na Austrália, após quase meio ano vivendo essa experiência (o banimento entrou em vigor 10 de dezembro de 2025), Carla conta que ainda há questionamentos sobre o quão realista é a restrição. Mas, diante disso, a brasileira diz sempre se lembrar de uma analogia feita pelo primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese: "É como a proibição do consumo de álcool para menores de 18 anos. Não é 100% efetiva, mas reduz muito o consumo e abre a oportunidade de haver mais conversas familiares sobre esse tema, sobre a importância da restrição."