Documentário sobre Bolsonaro estreia com salas vazias e também tem elo com verba de deputados
Por Gustavo Zeitel - Ana Gabriela Oliveira lima | Folhapress
O documentário "A Colisão dos Destinos", dirigido por Doriel Francisco, que conta a história da vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), chega ao seu primeiro fim de semana em cartaz nos cinemas com distribuição falha e salas vazias. Apesar de ser exibido em 17 estados, a obra está fora do circuito Rio-São Paulo.
Profissionais do setor audiovisual afirmam que um filme com esse teor político, em ano eleitoral, afasta os programadores. Do mesmo modo, dizem que a estratégia de lançamento do filme foi mal conduzida. Tanto que, em geral, a comunidade cinéfila desconhecia sua produção até a estreia. Assim como "Dark Horse", "A Colisão dos Destinos" integra uma rede que tem elo com verbas de deputados bolsonaristas.
Além de ser o diretor, Francisco é dono da produtora, a Dori Filmes, sediada em Brasília, e assina o roteiro com William Alves. O argumento foi criado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também ajudou a financiar a obra, em parceria com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. A distribuição é feita de maneira independente, pela própria produtora.
A reportagem tentou contato com a Dori Filmes, mas não obteve resposta. "O pouco investimento que tem no filme é recurso próprio meu", afirmou Francisco, em entrevista à Gazeta do Povo, em abril.
No site oficial, consta que "A Colisão dos Destinos" foi desenvolvido a fim de repassar a biografia do ex-presidente, sob a perspectiva íntima de amigos e familiares. Segundo o texto do site, esse "filme de 70 minutos mergulha nas camadas mais profundas da vida privada de Bolsonaro, desafiando as narrativas convencionais e revelando ângulos inexplorados pela mídia tradicional." O texto é seguido pelo trailer.
Dentre as cenas selecionadas, estão entrevistas dos filhos. Numa delas, a câmera dá um close no rosto do ex-vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PL), que chora ao lembrar a figura paterna. "Me fazendo pagar mico aí, pô." O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que cobrou dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse", afirma, no documentário, que o pai é um escolhido de Deus.
Solange, a irmã, rememora o tempo que Bolsonaro saía para pescar e, com o dinheiro da venda, pagava uma tubaína para a família. O documentário estreou, em Brasília, na quinta-feira (14). "Não é um filme político, é um filme cultural. É um filme que fala do Jair Messias Bolsonaro humano e não político", conta Francisco, em um vídeo postado no Instagram. Embora todas as regiões recebam o filme, a obra não está sendo exibida, até o momento, nos dois principais circuitos culturais do país: São Paulo e Rio de Janeiro.
Coordenador do curso de cinema da Faap e programador da distribuidora Gullane+, Humberto Neiva diz que a ausência indica alguns entraves para a circulação da obra. "É um documentário sobre um político que traz milhões de polêmicas e alguns exibidores não querem se comprometer com questões políticas", afirma Neiva, exibidor do Espaço Itaú de Cinema por 28 anos. O professor também vê erros da produção.
Conta que o mercado exibidor sequer tomou conhecimento da existência da obra. Em geral, as salas têm acesso às obras com antecedência e avaliam quais fazem parte do perfil do espaço. Trata-se de um processo que envolve uma equipe de marketing e de assessoria de imprensa, tornando o filme em questão um assunto na comunidade cinéfila, diz. "Esse documentário não foi lançado, ele foi arremessado em um ano eleitoral." Proprietários de dois cinemas tradicionais da capital paulista dizem desconhecer a obra.
Da França, onde participa do Festival de Cannes, André Sturm, programador do Cine Belas Artes e ex-secretário municipal da Cultura, conta nunca ter ouvido falar de "A Colisão dos Destinos" e que ninguém o ofereceu ao Belas Artes. Afirma que teria restrições à escolha. "Se for um filme de divulgação, não [exibiria]." Por intermédio de sua assessoria, Adhemar Oliveira, do Espaço Petrobras de Cinema, também diz não ter recebido contatos de distribuidora e conta que a obra não se encaixaria no perfil de sua sala.
Mesmo nos outros estados, o documentário passa ao largo de grandes redes, como Cinemark e Kinoplex, sendo veiculado por marcas menos famosas, quais sejam, Grupo Cine, Cine Plus, Cinemas Premier, entre outras. Exibidor do Cine Glauber Rocha, em Salvador, Cláudio Marques afirma que toda produção passa pelo controle de qualidade das salas exibidoras. E que todo cinema deve conhecer o seu público.
"O dono da sala quer ver a sala cheia, não importa a questão ideológica. Se eles não passaram nesses lugares, é porque acham que as pessoas não querem ver", diz. Acontece que as salas têm estado vazias.
Na noite desta sexta-feira, havia sessão em ao menos 8 das 17 cidades do interior de São Paulo em que o Grupo Cine, o maior exibidor, tem sala. Faltando uma hora para o início do filme, quatro cinemas estavam completamente vazios. Em Itapetininga, duas pessoas reservaram assentos; Rio Claro, Sumaré e Vargem Grande Paulista, pouco mais de dez poltronas ocupadas.
Um profissional do setor audiovisual que prefere não se identificar conta que faltou à produção um contrato com uma distribuidora reconhecida. Diz que a Dori Filmes parece ter uma estrutura amadora por não constar em seu portfólio nenhum documentário de peso.
Se tivesse contrato com uma boa distribuidora, o documentário, afirma esse profissional, poderia até ser um sucesso comercial, haja vista o público crescente da produtora Brasil Paralelo. Mas, se o objetivo for expandir o eleitorado, a obra deveria estar no streaming —e não no cinema. Há pouca informação sobre o financiamento da obra.
É sabido, no entanto, que a Dori Filmes está envolta numa rede abastecida por verbas de bolsonaristas.
Entre abril e julho de 2024, Mario Frias enviou R$ 22.432 à Dori Filmes por meio de cota parlamentar. Frias afirma ter sido um colaborador pontual da produção, "auxiliando na articulação de agenda com a família do presidente Jair Bolsonaro e também como um dos depoentes".
O dinheiro da cota, diz, se refere a serviços prestados de produção de material publicitário para atuação parlamentar, "em valor irrisório quando comparado ao custo de produção de um documentário". Outra organização ligada ao diretor, a Associação Passos da Liberdade, recebeu emendas no total de R$ 860 mil de Frias, do deputado Marcos Pollon (PL-MS) e de Eduardo Bolsonaro.
A revelação foi do portal UOL. O valor foi repassado para a produção de um documentário, "Genocidas", criado, segundo diz a ficha técnica, com o objetivo de "correlacionar os horrores dos genocídios históricos na Europa com fatos contemporâneos na América Latina". Esse documento não cita Bolsonaro, chamado de genocida por seus oposicionistas, em razão de seu comportamento durante a pandemia da Covid-19.
A assessoria de Pollon diz que as emendas foram destinadas de maneira regular e transparente e que a obra tem "caráter histórico sobre acontecimentos ocorridos na Europa e seus reflexos na América Latina".
