Maioria das empresas que abriram capital desde 2016 vale menos que no IPO
Por Folhapress
O retrato atual do que aconteceu na última década com as empresas que estrearam no mercado de ações levanta algumas questões importantes para o investidor e pode ser útil para encarar os próximos dez anos.
Das 92 companhias que fizeram ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) na Bolsa brasileira desde 2016, 20 delas deixaram o mercado no período. Entre as 72 empresas que seguem listadas, somente 16 registram desempenho positivo em relação ao preço fixado no IPO até o dia 24 de abril, e apenas 5 superaram o índice Bovespa no período.
Nesse bolo, há empresas de características e setores diversos —varejo e tecnologia concentraram quase 35% dos IPOs—, cujas performances se explicam por diferentes razões.
Ainda assim, os números, fruto de um levantamento feito pela assessoria financeira especializada em fusões e aquisições e mercado de capitais Seneca Evercore, servem como um bom alerta aos investidores que embarcam em ofertas sem avaliar com calma o perfil e os objetivos das empresas que se propõem a entrar no mercado de ações, sobretudo em períodos de euforia.
Isso é válido diante de um mercado que não vê operações há mais de quatro anos e ensaia registrar a primeira delas em breve, a despeito de ainda parecer distante de recobrar o vigor apresentado em 2020 e 2021, período em que se concentraram mais de 80% dos IPOs das companhias que entraram na Bolsa nos últimos dez anos e que ainda estão listadas.
Na semana passada, a Compass Gás e Energia, empresa do grupo Cosan, anunciou seu plano de listagem em Bolsa —o único esperado pelo mercado em um momento em que temores em relação à inflação e aos juros altos se misturam. A previsão é que o preço final de venda por ação seja anunciado em 7 de maio.
Rodrigo Mello, sócio-fundador da Seneca Evercore, diz que ter 56 de um total de 72 empresas listadas desde 2016 cujas ações valem hoje menos do que o preço fixado no IPO é ainda mais surpreendente diante do bom desempenho da Bolsa em 2026 e da abundância de recursos estrangeiros recebidos no período (mais de R$ 60 bilhões).
"E isso não leva em conta, por exemplo, que o investidor poderia ter pego esse mesmo dinheiro e deixado no CDI. Olhando por aí, o prejuízo é ainda maior", diz Mello.
Mello lembra, porém, que o investidor que decidiu entrar no IPO não perdeu dinheiro necessariamente porque no meio do caminho pode ter vendido o papel.
Ainda assim, ressalta, chama a atenção que, do universo de 92 companhias que estrearam na Bolsa desde 2016 (incluindo aqui as que deixaram o mercado no período), em apenas 25% dos casos o desempenho das ações no primeiro ano após a listagem é positivo.
Os 75% restantes apresentam retorno mediano negativo no primeiro ano após o IPO, com uma queda de 65% entre as 25% piores. Um ano, diz Mello, é um prazo relativamente curto para investimentos em ações, o que significa que, provavelmente, o prejuízo, nesse caso, tenha ficado com o investidor que entrou na oferta.
Pedro Moura, analista de empresas da gestora Reach Capital, diz que, normalmente, uma oferta é malsucedida por uma conjunção de fatores: reversão do ciclo econômico, perspectivas de crescimento superestimadas, ou planos de investimento que não remuneram adequadamente o capital.
No rol de empresas que testam a janela de abertura de mercado, diz Moura, há empresas em estágios de maturidade diferentes e, dependendo do ciclo do negócio, o IPO pode se provar inadequado para aquele momento. "Mas ex ante [antes do fato] é difícil fazer um julgamento objetivo, é muito caso a caso", diz.
De modo a comparar os desempenhos das 72 empresas que abriram capital desde 2016 e continuam listadas na Bolsa, a assessoria também fez o exercício de calcular a taxa de crescimento anualizada das ações dessas companhias, dividindo-as em quatro grupos, com 18 empresas cada um.
Enquanto o grupo 1, que reúne as ações com melhor retorno anual desde seus respectivos IPOs até o dia 24 de abril, apresenta alta média anual de 7,7%, o grupo 4, com os piores desempenhos acumulados, registra uma taxa de retorno média anual negativa de 43%.
Segundo Mello, embora o levantamento abarque um período de dez anos, na prática, 61 das empresas listadas fizeram o IPO há cinco ou seis anos. De lá para cá, houve um grande e rápido salto nos juros, tornando os investimentos em renda fixa quase imbatíveis. A taxa básica de juros entrou 2021 em 2% ao ano, o piso histórico, chegando aos 15% em meados de 2025, recorde em quase 20 anos.
Além disso, diz ele, juro alto e crescimento econômico mais baixo, entre outros fatores, causaram endividamento grande entre empresas que tomaram crédito quando o juro estava menor. "Todas as empresas com dívida sofrem, mas as que estão na Bolsa a gente consegue ver", diz Mello.
Diante do desafio de fazer um bom investimento, Mello diz que os investidores precisam ser mais seletivos e, dado tudo o que passaram nesses anos, que tenham uma barra mais alta para só participar de ofertas de empresas que realmente tenham uma boa história e estejam prontas para acessar o mercado.
Para Moura, da Reach, o investidor deve analisar as premissas e os motivos da abertura de capital pela empresa e avaliar se o projeto e o valor da companhia fazem sentido considerando o apetite individual a risco. "E, especialmente, evitar entrar em momentos de euforia generalizada."
