Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias

Notícia

No norte da Noruega, técnico brasileiro forja atacantes para sensação da Champions

Por José Henrique Mariante | Folhapress

No norte da Noruega, técnico brasileiro forja atacantes para sensação da Champions
Foto: Rune Larsen/Divulgação Bodo/Glimt

A delicadeza está nos detalhes. Minutos antes do duelo Bodø/Glimt x Sporting, pela Champions, o impenetrável norueguês que sai dos alto-falantes cede espaço para uma mensagem de boas-vindas e fair play em português, idioma dos visitantes. No estádio Apsmyra, poucos entendem o que está sendo dito, mas a maioria sabe de quem é a voz: Thiago Martins.
 

"Você precisa falar com ele", alertou dias antes John-Håkon Nybakk, que cuida da loja de produtos oficiais do clube, quando soube que o repórter era brasileiro. Organizando um cabide de camisas amarelas que se esgotariam antes da maior partida da história do clube, uma sólida vitória por 3 a 0, na quarta-feira (11), Nybakk explica que Martins cuida das categorias de base do Glimt. "É um cara muito legal."
 

"Eu desenvolvo individualmente atacantes do sub-13 ao sub-19", explica o próprio Martins, há duas décadas na Noruega, a maior parte do tempo em Bodø. Se ter chegado ao futebol norueguês já soa inusitado, o caminho que trilhou desde a rua Javari não deixa por menos.
 

"Comecei no Juventus, no futsal, mas não durou muito." A família trocou a Mooca por Itapevi em busca de mais segurança. Pingando de clube em clube foi parar no São Paulo. "Tomava café com o Cafu. Todos os jogadores do time almoçavam juntos." Acabou dispensado e, sentindo necessidade de trabalhar, abandonou o esporte.
 

Em um escritório de advocacia, alguém lhe falou que estudar inglês melhoraria o currículo e os salários. Convenceu então o pai de que seria mais rápido aprender a língua nos EUA. Viajou. "Depois de três semanas na escola, não estava entendendo nada e abandonei o curso." Sem visto, era difícil conseguir trabalho e, com outros imigrantes, aprendeu a pedir comida em restaurantes na hora do fechamento da cozinha e a dormir na praia.
 

"Estava na Califórnia, achava normal. E, quando eu ligava pro meu pai, eu falava que tava tudo bem, dava uma mentida, entende?"
 

Um dia, o sono na areia foi interrompido por um jogo de futebol sendo armado por mexicanos. "E aí eu falei: ‘porra, meu, vou jogar’, né?" Começou no gol e logo foi alçado para o ataque. O sucesso em campo valeu um convite para dormir em um sofá e uma oferta de duplo emprego do grupo: ajudar a cuidar de jardins durante a semana e em campeonatos de futebol aos domingos.
 

Na liga dominical, chamou a atenção de um zagueiro que, na verdade, era técnico de uma equipe universitária em Santa Barbara. Novo convite, agora para voltar à escola e como atleta. Dois anos mais tarde, seguiu com o treinador para a Universidade da Califórnia, onde Martins obteve uma graduação. "Estudei geografia. Era o curso mais fácil."
 

Já profissional, a vida nos EUA continuou peregrina, passando por sete times da MLS, com altos, como prêmios de melhor jogador, e baixos, duas cirurgias de joelho. Outra guinada na carreira parecia improvável, mas veio. "Consegui um agente norueguês e pedi para tentar algo na Europa." E o agente conseguiu, só que no modesto Glimt, então na segunda divisão da Noruega.
 

"Quando cheguei aqui, em novembro de 2006, só sabia que a cidade tinha 50 mil habitantes."
 

A primeira temporada no Glimt foi a melhor, com 17 gols e o acesso à divisão principal do país. As três seguintes, nem tanto. Nova contusão e dispensa decretaram sua aposentadoria em 2010. Até havia uma oferta para jogar em Oslo, mas, com mulher norueguesa e filho em Bodø, deixar a cidade não era opção para a família. "Fiz então o que já tinha feito nos EUA." Trabalhou em restaurantes, cafés e até em uma escola de crianças com necessidades especiais.
 

Em 2016, sem parar de atuar na instituição, aceitou treinar um time da quarta divisão, com o qual acabou conquistando o título. Dois anos mais tarde, estava de volta ao Glimt, como técnico do sub-17. Foi quando conheceu Kjetil Knutsen, técnico que na mesma época havia levado o time principal de volta à elite do futebol norueguês.
 

"Tinha dois brasileiros na equipe, e eles não falavam inglês. Aí o Kjetil me pediu para ajudar na tradução. Fiquei seis meses trabalhando com ele."
 

Knutsen, artífice da revolução que levou o Glimt nos anos seguintes a quatro títulos nacionais, às ligas europeias e, agora, à surpreendente participação na Champions, virou um modelo para Martins. "Ele é muito bom. A mentalidade é entender o sistema, é como você consegue jogar, mesmo quando está perdendo."
 

O treinador conta que levou um tempo para absorver a lição em seu trabalho na Academia, o departamento que cuida das categorias de base do clube. "Quando eu era técnico, eu pensava em como ganhar o jogo. Se o jogador não estava jogando bem, eu colocava no banco. Mas o trabalho é desenvolver o atleta. Como você vai ensiná-lo só no treino?"
 

Martins ressalta a continuidade do trabalho desenvolvido por Knutsen como chave. "Quando trabalhei diretamente com ele [em 2018], não havia tantos técnicos na equipe. O Glimt não tinha dinheiro. Demorou para desenvolver o sistema e para os jogadores entendê-lo. Demorou um tempo para crescer."
 

Neste 2026, o sistema já bateu Manchester City, Atlético de Madrid e Internazionale e chega ao segundo jogo das oitavas da Champions como favorito —a volta contra o Sporting acontece na terça-feira (17). Em campo, o Glimt repete sua dinâmica como uma máquina, um bloco disciplinado que sobe e desce o campo atrás da bola sem parar. "Ele enfrenta de igual, vai pra cima. Essa mentalidade é muito, muito forte", diz Martins, que tem um atleta de 17 anos treinando com o time principal.
 

Um Glimt bem diferente daquele que o brasileiro conheceu há quase 20 anos. Mas, e a cidade? Bodø, agora com 53.600 habitantes, ainda o surpreende? "Cara, isso aqui é a Disneylândia. É o lugar mais seguro que eu já estive na minha vida. Pelo amor de Deus, meu filho anda pra escola, não tem problema, sabe? Minha mulher não fecha a casa."