PF identificou que Vorcaro tinha ao menos 3 planos de voo diferentes antes de prisão
Por Adriana Fernandes e Bruno Boghossian | Folhapress
A Polícia Federal identificou que o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, tinha pelo menos três planos de voo diferentes antes de ser preso na noite do dia 17 de novembro do ano passado, quando se preparava para embarcar para o exterior.
Os investigadores avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria a acusação de que o ex-banqueiro tentava fugir do país, e não apenas ir a Dubai para fechar a venda do Master a um grupo de investidores árabes, numa parceria com o Grupo Fictor.
As informações sobre as rotas fazem parte das investigações do caso e, segundo integrantes do órgão ouvidos pela reportagem na condição de anonimato, desmontam a tese da defesa de Vorcaro de que não houve tentativa de fuga, de que havia uma negociação em curso e de que, portanto, o Banco Central teria se precipitado ao liquidar o Master.
Antes da prisão, o ex-banqueiro estava sendo rastreado pela PF, que teria identificado indícios de que um helicóptero pode ter sido usado para despistar um possível monitoramento.
Procurada, a defesa de Vorcaro chamou de especulações as informações sobre uma tentativa de fuga do dono do Master em novembro. "Na verdade, [ele] buscava –e continuará buscando– soluções de mercado hígidas para o conglomerado Master, com boa-fé, transparência e deferência ao regulador", diz nota encaminhada à reportagem.
De acordo com a defesa, Vorcaro informou o BC sobre diversas tratativas para a venda das instituições que integravam o conglomerado Master e comunicou que seria divulgada, no mesmo dia 17, a venda do banco à empresa Fictor.
Os advogados de Vorcaro não responderam a perguntas sobre os diferentes planos de voo que teriam sido identificados pela PF.
Desde a prisão, Vorcaro tem sustentado a posição, via sua defesa, de que o BC deveria ter analisado a proposta da Fictor antes de liquidar o banco.
Ainda na manhã dia 18 de novembro, poucas horas depois do anúncio da liquidação do Master pelo Banco Central, reportagem da Folha de S.Paulo já mostrava que investigadores suspeitavam que a proposta de compra do Master pela Fictor Holding Financeira, divulgada no final do dia anterior, seria uma espécie de simulacro para facilitar a fuga do banqueiro do país.
Na época, pessoas diretamente envolvidas nas apurações relataram à reportagem que a ordem de prisão de Vorcaro foi assinada às 15h do dia 17. No mesmo dia, a Fictor divulgou que pretendia comprar o Master em conjunto com um consórcio formado por investidores dos Emirados Árabes Unidos.
A mesma reportagem informava que, para os investigadores, houve vazamento da ordem de prisão por fraudes contra o sistema financeiro nacional, assim como da intenção do BC de liquidar o Master.
Alertado, Vorcaro teria acelerado a simulação de compra para ter uma justificativa para deixar o país, de acordo com a tese dos investigadores.
Um comunicado divulgado pela Fictor na última segunda-feira (12) reforçou a tese dos investigadores, segundo duas pessoas ouvidas pela reportagem. No texto, a empresa admitiu que tem enfrentado dificuldade de liquidez para honrar compromissos e se comprometeu a regularizar a situação no dia 12 de fevereiro de 2026.
Para autoridades que acompanham o caso, a situação financeira da Fictor neste momento seria mais uma evidência de que a empresa não teria condições de comprar o Master há menos de dois meses.
A reunião da diretoria do BC que decidiu pela liquidação do Master também ocorreu no dia 17. Os advogados do ex-banqueiro negaram a fuga e dizem que ele estava viajando a Dubai para tratar da operação de venda com a Fictor. O jato particular no qual Vorcaro embarcaria tinha como destino Malta, que seria uma parada técnica da aeronave para os Emirados Árabes Unidos.
O diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, teve uma reunião virtual com Vorcaro antes da prisão do ex-banqueiro pela PF, o que foi usado pela defesa para contestar o risco de fuga.
Integrantes da corporação que acompanham os trabalhos avaliam que já foram colhidas provas robustas para tirar conclusões sobre a participação de acusados no esquema. Um dos agentes diz, sob condição de anonimato, que essa parte da apuração pode ser finalizada após os depoimentos dos investigados, previstos para o fim de janeiro e o início de fevereiro.
