Brasil renova recorde de passageiros internacionais, puxado por rotas para Argentina
Por Paulo Ricardo Martins, Nicholas Pretto e Douglas Gavras | Folhapress
Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil registrou recorde no número de passageiros em voos internacionais partindo ou chegando no país no acumulado dos primeiros 11 meses do ano. De janeiro a novembro de 2025, foram mais de 25 milhões de viajantes –maior patamar da série histórica da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), iniciada em 2000.
O destaque ficou com as rotas Brasil-Argentina, que movimentaram mais de 4,12 milhões de pessoas entre os dois países. O número quase ultrapassou trajetos com origem ou destino nos Estados Unidos (4,15 milhões), país que tradicionalmente ocupa o primeiro lugar.
O levantamento foi feito pela reportagem com base em informações do órgão regulador e considera rotas com ao menos 400 passageiros pagos anuais, incluindo partidas e chegadas, em voos regulares. Viajantes em voos que fazem escala no Brasil sem imigrar não foram incluídos.
O tráfego aéreo com origem ou destino na Argentina representou, no período, salto de 42% em relação ao observado no mesmo intervalo do ano anterior. São 1,2 milhão de passageiros a mais nessa rota.
Os preços mais caros no país vizinho afastaram turistas brasileiros, mas o mesmo não ocorreu por aqui, com o real desvalorizado frente ao dólar e ao peso argentino, tornando hospedagem, alimentação e serviços mais baratos para estrangeiros.
A Argentina foi o maior emissor de turistas para o Brasil nos primeiros 11 meses de 2025, totalizando 3,1 milhões de argentinos, 82% acima do visto no mesmo período de 2024, segundo a Embratur (Empresa Brasileira de Turismo).
Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, afirma que o aumento no fluxo de viajantes é reflexo de preços praticados pelo setor de turismo no Brasil —abaixo do observado nos EUA e na Europa. "Os hotéis, a alimentação, os serviços brasileiros estão mais competitivos em dólar."
Ele acrescenta que o custo da tarifa aérea e a similaridade entre os idiomas português e espanhol também influenciam a decisão dos argentinos.
É o caso da pesquisadora argentina Paula Teijeiro, 39, que viajou com a família para Florianópolis. "Escolhemos Florianópolis pois precisávamos de um destino confortável para viajar com nosso bebê de um ano. O preço era razoável, e as praias eram muito bonitas", diz.
A viagem saiu mais barata do que o verão na costa Argentina. "Como tenho parentes no litoral, poderia ir sem gastar com aluguel, mas os outros custos sairiam mais pesados e ficaríamos em uma praia que não é tão bonita quanto as brasileiras."
A motorista de aplicativo Veronica Maer, 43, também aproveitou o peso forte para visitar o irmão, que mora em São José dos Campos (SP). Ela esticou a viagem e passou o Carnaval de 2025 em Búzios, no litoral fluminense.
"Até então, só havia ido ao Brasil na década de 1990, quando a nossa moeda também estava valorizada. Nos últimos dois anos, tive uma sensação parecida, de encontrar muitos argentinos viajando pelo mundo para aproveitar o câmbio."
Após uma sequência de desvalorizações do peso em 2025, veranear no Brasil pode ficar um pouco mais caro neste 2026. Estimativas do Instituto de Economia da Uade indicam que uma família argentina precisava desembolsar 3,5 salários mínimos para passear no Rio de Janeiro no verão de 2025 e precisará de 3,7 no deste ano, apenas para cobrir gastos com transporte e acomodação para dois adultos e duas crianças. O desembolso, entretanto, ainda é menor do que em Cariló ou Pinamar.
COMPANHIAS AÉREAS ESTÃO OTIMISTAS COM A ARGENTINA
Para o ano, as companhias aéreas brasileiras demonstram otimismo com o país vizinho. A Gol anunciou o retorno dos voos sazonais para Bariloche, partindo de Guarulhos, durante a alta temporada de inverno. A empresa vai operar também voos inéditos entre Guarulhos e Ushuaia, na Patagônia, nas férias de inverno.
Em dezembro de 2025, a Gol tinha 21 rotas entre o Brasil e a Argentina. Ela oferta quatro destinos e cinco aeroportos no país: Buenos Aires (aeroportos de Ezeiza e Aeroparque), Mendoza, Córdoba e Rosário.
No total, a empresa liga esses destinos a 12 capitais brasileiras e a Porto Seguro (BA). Até 2029, a Gol estima que 25% da malha aérea seja composta de voos para o exterior —patamar hoje de 18%.
Já a Latam inaugurou duas novas rotas para a Argentina na virada do ano. Uma delas, que começou a operar em 30 de dezembro, liga Guarulhos a Rosário e tem quatro voos semanais. A outra, que liga Florianópolis a Buenos Aires (Ezeiza), tem sete frequências semanais.
Em 2025, a companhia lançou rotas entre os dois países: Rio-Buenos Aires (Ezeiza), Porto Alegre-Buenos Aires (Aeroparque), Guarulhos-Córdoba e Recife-Buenos Aires (Ezeiza). Nas férias de inverno, a companhia também terá operação entre Guarulhos e Bariloche, com sete voos semanais.
Com menor participação no mercado argentino, a Azul operou, entre junho e agosto do ano passado, quatro rotas sazonais para o país: Confins-Bariloche, Viracopos-Bariloche, Porto Alegre-Bariloche e Viracopos-Mendoza. Segundo a empresa, foram realizados no período 146 voos de/para Bariloche e 60 para Mendoza.
A companhia disse à reportagem que as rotas sazonais tiveram boa ocupação e que espera manter os trajetos neste ano.
Adalberto Febeliano, especialista em aviação civil, afirma que, apesar do cenário mais favorável, o potencial turístico do Brasil ainda é mal-aproveitado. "Não adianta ter uma praia maravilhosa se não tem um hotel ou uma pousada com conforto pra ficar nessa praia."
Apesar de não serem mercados grandes, países latinos são importantes para o turismo brasileiro.
"É muito mais fácil um argentino vir ao Brasil, um chileno vir ao Brasil, um brasileiro ir à Argentina, do que um brasileiro ir a Paris. A viagem é mais curta e mais barata", explica.
No geral, o Brasil apresentou aumento no número de rotas internacionais, que chegaram a 180 até novembro —mesmo nível de 2018. Nos 11 primeiros meses de 2025, 34 países tinham rotas para o Brasil. O número está distante do recorde de 40 países registrado em 2015 e 2016, mas cresce ano a ano após a pandemia.
