Cotado para suceder Haddad, Dario Durigan é conhecido como 'CEO' do Ministério da Fazenda
Por Idiana Tomazelli | Folhapress
O Ministério da Fazenda ainda enfrentava dificuldades para se organizar internamente quando o advogado Dario Durigan, 41, assumiu a secretaria-executiva da pasta, em junho de 2023.
Embora alguns meses já tivessem se passado desde a cisão do superministério da Economia de Paulo Guedes e houvesse um plano de ação traçado pelo ministro Fernando Haddad, a sensação de secretários, assessores, técnicos e pessoas de fora do órgão era a de que os temas não tinham continuidade. As decisões eram tomadas, mas a estrutura interna sofria para extrair alguma consequência prática.
A chegada de Durigan foi como encaixar a peça que faltava para a engrenagem funcionar, de acordo com. 11 pessoas ouvidas pela reportagem e que, ao longo do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), lidaram ou ainda atuam diretamente com o secretário. Todas elogiam o estilo de trabalho daquele que, agora, é o principal cotado para suceder Haddad no comando da Fazenda.
Durigan está liderando interinamente o ministério durante as férias de Haddad, até o dia 11 de janeiro. O titular já disse que pretende deixar o cargo "até fevereiro" e deve ajudar na campanha de reeleição de Lula. Petistas, no entanto, desejam que Haddad tente um cargo eletivo em 2026.
Batizado de "CEO" do ministério, em referência ao cargo máximo de grandes empresas, é Durigan quem organiza os fluxos, delega tarefas, faz cobranças e centraliza as informações dos diversos temas da pasta -um peso que, em momentos mais conturbados, se faz notar em seu próprio semblante.
Para fechar as posições de governo, muitas vezes despacha diretamente com Lula, que confia em seu posicionamento. Segundo um interlocutor, o secretário "caiu no gosto do chefe".
Mais de uma pessoa diz que Durigan já é o "ministro de fato", no sentido de dar andamento prático às agendas do órgão. Da disputa pelo cargo em si, ele busca manter distância regulamentar e demonstra lealdade a Haddad. Mesmo quando é o principal responsável por alguma negociação bem-sucedida, ele credita a vitória ao ministro e à equipe.
CRÍTICAS
Apesar dos elogios, há também críticas. Em um governo defensor de pautas progressistas e com maior representatividade de mulheres e minorias, Durigan se cercou de assessores homens. De 32 pessoas vinculadas diretamente a ele, entre subsecretários, assessores, gerentes e coordenadores, apenas nove são mulheres, e só uma é subsecretária -as demais ocupam cargos inferiores na hierarquia.
Embora o estilo CEO seja exaltado na maioria absoluta dos relatos, ele também gera tensões, principalmente quando cobra manifestações céleres da burocracia para fundamentar atos de governo. Ainda assim, as mesmas pessoas que citam esse incômodo ressaltam que o secretário faz questão de ouvir os técnicos, ainda que a posição final contrarie áreas. A quem critica a cobrança, ele costuma dizer que exigir agilidade é a maneira de garantir que o rito formal seja cumprido.
Durigan é natural de Bebedouro e cresceu em Jaboticabal, ambas no interior de São Paulo. Formou-se em Direito pela USP (Universidade de São Paulo) e tem mestrado pela UnB (Universidade de Brasília). Ingressou na AGU (Advocacia-Geral da União) em 2010 e, no governo Dilma Rousseff (PT), começou a trabalhar na SAJ (Subchefia de Assuntos Jurídicos) da Casa Civil, por onde passam todos os atos a serem assinados pelo presidente da República.
Foi na SAJ que o atual secretário teve os primeiros contatos com Haddad, então à frente do Ministério da Educação. Durigan integrava um grupo de quatro técnicos que ganhou a admiração do ministro. Um deles, Felipe de Paula, foi o primeiro a ser convidado por Haddad para trabalhar na Prefeitura de São Paulo. Foi ele quem aproximou Durigan do então prefeito, que o chamou para embarcar na gestão.
Na Prefeitura, Durigan estreitou a relação com Haddad, com quem despachava todos os dias. A sintonia foi tão grande que, poucos dias após Lula sair vitorioso das eleições de 2022, Haddad lhe telefonou. Queria que fosse seu número dois na Fazenda. Ao lado do futuro ministro, chegou a entrevistar possíveis nomes para compor a equipe, mas precisou declinar do convite por razões pessoais.
Quem assumiu a secretaria-executiva em 1º de janeiro de 2023 foi Gabriel Galípolo, hoje presidente do Banco Central. Embora hábil nas negociações políticas, ele não conseguiu desenvolver o mesmo traquejo na gestão interna da Fazenda. Um integrante da pasta reconhece que o secretariado se ressentiu de não ter Galípolo mais presente na gestão do dia a dia, tarefa típica da função.
Entre março e abril de 2023, Durigan avisou que seu impedimento pessoal havia sido superado. Na época, ele trabalhava como diretor de políticas públicas no WhatsApp. Pouco tempo depois, no início de maio, a ida de Galípolo para o BC (ainda como diretor de Política Monetária) deu a Haddad a oportunidade de acertar a engrenagem do ministério, e ele ligou para Durigan para refazer o convite.
Os dois combinaram de jantar no sábado, 6 de maio, com suas respectivas esposas. Lá, fecharam os detalhes da transição. No dia seguinte, o executivo pediu ao WhatsApp que fosse desligado da empresa ainda na manhã de segunda-feira, 8 de maio —seu nome foi anunciado na tarde do mesmo dia.
À frente da secretaria-executiva, Durigan conseguiu transitar bem entre o mundo técnico e o político, onde também virou referência para as lideranças do Congresso como alguém que resolve. Pragmático, costuma delimitar com clareza até onde os parlamentares podem ir em mudanças nos projetos da pasta, sobretudo aqueles com impacto nas contas públicas.
"Considero um dos melhores, se não for o melhor quadro do governo federal. Preparado, seguro, corretíssimo em todas as discussões com a Câmara, principalmente nas negociações dos projetos de lei e medidas provisórias, com uma capacidade administrativa e visão do país como poucas vezes vi em alguém no setor público", afirma o deputado Doutor Luizinho (PP-RJ), líder da sigla na Câmara e um dos expoentes do centrão.
Nem sempre, porém, o pragmatismo foi suficiente para afastar sobressaltos. Um dos momentos mais difíceis foi a devolução da MP que restringia o uso de créditos de PIS/Cofins pelas empresas para pagar menos tributos. O texto foi enviado em 4 de junho de 2024, e Durigan esperava uma negociação dura com o Congresso, mas a reação foi ainda pior. Uma semana depois, a MP foi devolvida sem nem sequer ser analisada.
Outro momento delicado foi a edição do decreto do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), em maio de 2025. A medida gerou atritos com Congresso e Banco Central, já sob o comando de Galípolo, e acabou sendo enxugada.
Mesmo diante dos reveses, a persistência de Durigan é citada por colegas como uma característica decisiva para o avanço das medidas econômicas do atual governo, inclusive as que lhe dão maior orgulho, como a reforma tributária do consumo e o imposto mínimo para a alta renda.
No caso mais recente, ele se empenhou na aprovação do projeto que corta benefícios fiscais de empresas e aumenta tributos sobre setores como as bets (casas de apostas). A liberação de emendas parlamentares foi um ingrediente relevante na votação, mas o protagonismo do secretário nas negociações foi percebido por lideranças como uma espécie de passagem de bastão de Haddad.
