Exército descarta risco militar para o Brasil e monitora refugiados
Por Igor Gielow | Folhapress
O Exército avalia que o impacto do ataque americano à Venezuela por ora é nulo em termos militares para Brasil, e que o eventual aumento no influxo de refugiados vindos do país é o principal motivo de preocupações imediatas.
Dois generais de alto escalão disseram à reportagem, pedindo anonimato, que a avaliação corrente na Força é de que o ataque deste sábado (3) foi uma demonstração única de força.
A facilidade com que comandos americanos capturaram e retiraram o ditador Nicolás Maduro e sua esposa do país sugere, segundo esses fardados, que houve algum tipo colaboração do estamento militar venezuelano.
A imagem mais sugestiva disso é a linha de helicópteros de forças especiais dos EUA voando sobre Caracas sem oposição nesta madrugada. O país tem recursos razoáveis de defesa antiaérea, e até aqui nada sugere que ela foi acionada na capital —em outros pontos, os americanos parecem ter alvejado baterias do regime.
Seja como for, por ora a avaliação militar brasileira é de que a situação não deve escalar. Desde a crise entre Venezuela e Guiana no fim de 2023, quando Maduro anunciou que ia tomar uma rica região do vizinho, Brasília reforçou um pouco sua posição em Roraima, estado que faz fronteira com o vizinho.
O esquadrão do Exército de Boa Vista, com 150 homens, está sendo transformado em regimento, com 400 militares. Um pelotão de fronteira, com 30 soldados, foi redesignado esquadrão. Por fim, há os recursos mobilizados de forma permanente pela Operação Ágata Norte, que combate garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomâmi.
O ponto fulcral de contato entres os dois países é Pacaraima, principal cidade fronteiriça do lado brasileiro. Lá fica o centro principal de triagem de refugiados da Operação Acolhida, uma iniciativa da Casa Civil que é operada pelo Exército.
Segundo informações desta manhã de sábado, não havia nenhuma mudança na rotina local. A cada dia, algo entre 300 e 500 pessoas atravessam a fronteira, parte delas fica e uma fração menor acaba sendo reconhecida como refugiada.
A fronteira está fechada pelo lado venezuelano, e a Casa Civil diz estar preocupado com o eventual aumento no fluxo.
O governo diz ter reconhecido como migrantes interiorizados ou refugiados 150 mil venezuelanos desde 2018, mas o número total de moradores que fugiram do vizinho no período ronda os 600 mil, segundo ONGs que trabalham com a questão.
Para a situação escalar, avaliam os militares, seria necessário algum tipo de conflito civil no país, já que não há nenhuma sinalização de que os EUA farão algum tipo de invasão terrestre —o que seria custoso e impopular para Donald Trump.
