Nada justifica o absurdo de Lula dizer que 'ainda bem que natureza' criou coronavírus
Foto: Reprodução/ Facebook

"Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus". Não há contexto que justifique a aplicação dessa frase em uma construção racional. Porém não faltam tentativas de explicar a desastrada fala do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para os lulistas, é muito difícil admitir que o ex-presidente sempre gostou de frases de efeito  e que muitas delas deixam o limite da razoabilidade para trás. Se fosse Jair Bolsonaro a proferir esse absurdo, sobrariam críticas nas redes sociais e a esquerda estaria pedindo o impeachment do ocupante do Palácio do Planalto. Como veio de Lula, não faltaram malabarismo retóricos para encontrar uma explicação.

 

Lula estava em uma conversa de compadre com Mino Carta. É um direito tanto do jornalista veterano quanto do ex-presidente manterem o conforto durante uma conversa de velhos conhecidos. A fala que abre esse texto está inserida num papo sobre o virtual fim do liberalismo econômico causado pela crise do novo coronavírus, que obrigou o Estado a se fazer presente. É um discurso bem padrão da esquerda, que até adotou parte da agenda liberal quando esteve no poder no Brasil – vide lucros astronômicos dos bancos, por exemplo.

 

Lula precisa ser criticado na mesma intensidade que Bolsonaro seria com uma declaração como essa. Isso não quer dizer que ambos são dois lados de uma mesma moeda. Apenas que não é possível usar dois pesos e duas medidas justificados por uma questão de empatia. A declaração de “ainda bem” é a resposta perfeita para o “e daí?” do atual presidente. Para complicar ainda mais a situação, a fala aconteceu no dia em que o país ultrapassou a marca de mil mortos em 24h. Nada menos trágico para uma liderança que, até bem pouco tempo, era tratada como “única” esperança para a esquerda no país.

 

Mesmo assim, não faltaram aliados para minimizar a declaração de Lula. Enquanto isso, os adversários tripudiaram, com toda a razão, pelo ex-presidente ter passado do tom da verborragia, algo que se tornou incomum no passado recente. A posição mítica de Lula para muitos impede que se veja o óbvio: a insensatez acontece nos mais diversos campos políticos. E o ex-presidente não está distante disso. Ou alguém esqueceu das “mulheres de grelo duro”, para citar apenas uma pérola minimizada pelos movimentos sociais?

 

Diante da repercussão negativa da “força de expressão”, como chegaram a sugerir passadores de pano, Lula recuou. Em outra entrevista tratou como “uma frase infeliz, que não cabia”. Mesmo com as desculpas, fica difícil fingir que ela não aconteceu.

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