Até quando vamos perguntar até quando?
Por Fernando Duarte
A possibilidade de faltarem insumos para intubar pacientes em estado grave com Covid-19 talvez seja tão alarmante quanto o número de mortos em decorrência da doença, que não para de crescer. Some a essa equação as limitações de acesso a oxigênio e um possível colapso do sistema funerário, em moldes mais trágicos do que a falta de leitos de UTI. Talvez seja essa a síntese assustadora do noticiário brasileiro. E seguimos na batalha discursiva para identificar culpados - que existem, apesar de insistirmos em não vê-los.
Está cada vez mais difícil lidar com as perspectivas catastróficas para o país. O “vexame internacional”, citado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, é a ponta do iceberg da situação constrangedora que vivemos. No mesmo dia em que Lira defendeu que é preciso unificar as medidas de enfrentamento à pandemia, a família confirmou a morte do senador Major Olímpio. O falecimento precoce dele poderia simbolizar todas as contradições do processo político brasileiro. Resistente às medidas de restrição, Olímpio padeceu após complicações da Covid-19. Será ele apenas mais um número entre os quase 300 mil mortos?
Queria eu acreditar que não. Infelizmente, não é essa a perspectiva. O presidente Jair Bolsonaro minimizou, horas antes, a ocupação dos leitos de UTI por pacientes com o novo coronavírus. Essa é a política do Brasil atual. Brasileiros morrem aos milhares com a doença e com as consequências dela para o sistema de saúde. Alguns sequer conseguem ser contabilizados, devido às dimensões continentais do país. Ainda assim, Bolsonaro disse que “parece que só morre de Covid”. E com o apoio de percentuais expressivos da população, como mostram as pesquisas de opinião.
Voltando a nossa realidade, a Bahia segue batendo recordes negativos para a doença. Além do maior número de internados com Covid-19, o estado teve nesta quinta-feira (18) o maior número de mortos registrados em 24h. Os leitos de terapia intensiva, que seguem sendo abertos, não conseguem dar conta da forte demanda e os gestores devem estar apelando para todos os santos, como a baía, para tentar evitar que os óbitos diários se ampliem a ponto de não termos como enterrá-los. O governador Rui Costa já trata como colapso e o prefeito de Salvador, Bruno Reis, só evita usar o termo, apesar de admitir a gravidade do momento. Todos nós seguimos como espectadores da maior tragédia humanitária da nossa história.
Até quando vamos seguir apenas procurando culpados? Até quando vamos assistir os números de mortos subirem e fingir naturalidade com o caos a nossa volta? Até quando vamos seguir perguntando até quando?
Este texto integra o comentário desta sexta-feira (19) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio A Tarde FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.
