Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Quinta, 04 de Março de 2021 - 07:20

Feitiço do tempo: Momo levou a chave e ficamos presos em 2020

por Fernando Duarte

Feitiço do tempo: Momo levou a chave e ficamos presos em 2020
Foto: Reprodução/ Columbia Pictures

Quando brincávamos que o ano no Brasil só começa depois do Carnaval, talvez não tivéssemos noção de que a brincadeira era tão séria. Sem a Folia de Momo em 2021, a sensação possível no mês de março é que estamos no mesmo mês de 2020, pouco tempo depois dos trios elétricos cruzarem os circuitos de Salvador. Não paramos no tempo. O tempo parou e estamos vivendo o Dia da Marmota, em uma referência a um filme da década de 1990, cujo protagonista acorda sempre no mesmo dia.

 

A discussão no Congresso Nacional é sobre a concessão ou não do auxílio-emergencial. A proposta inicial do governo federal é que a cifra seja bem abaixo da real demanda dos brasileiros em condição de vulnerabilidade. A única diferença para março de 2020 é que naquele momento houve força de deputados e senadores para “turbinar” o programa. Agora, com os presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, totalmente alinhados com o Palácio do Planalto, não vai acontecer.

 

Naquele mesmo momento, a pandemia ainda engatinhava e o Brasil já mostrava que não teria um plano nacional de enfrentamento à crise sanitária. O presidente da República, Jair Bolsonaro, reclamava dia sim e o outro também que governadores e prefeitos estavam tentando prejudicá-lo politicamente, enquanto a imprensa “provocava pânico” na população. Passados quase 12 meses, o discurso continua exatamente o mesmo, sem tirar nem pôr. Os grandes vilões são gestores de estados e municípios, a imprensa e talvez a Cuca - não a de Alessandra Negrini na série Cidade Invisível, mas o personagem do folclore nacional.

 

O mundo todo aprendia a lidar com o novo coronavírus. A duras penas, sofrendo muito na própria pele, países na Europa decretavam lockdown e conseguiam conter o avanço ainda mais rápido da doença. O Brasil tinha essa opção, mas a falta de uma posição uniforme gerava desinformação e uma crise política interminável. Sob ameaça do colapso da saúde, brasileiros assistiam o noticiário descrentes de que era possível que aquilo acontecesse por aqui. À noite, Jair Bolsonaro se dignava a fazer pronunciamentos constrangedores e negacionistas em rede nacional, ao mesmo tempo em pessoas sem amarras ideológicas seguiam incrédulas de que aquilo era possível.

 

Será que pedir ajuda ao Momo pode nos libertar do feitiço do tempo? Ou será que se a vacina realmente chegar seremos imunizados desse looping infinito que se tornou acordar no Brasil da pandemia? Ah, se tivéssemos um relógio que pudesse nos transportar para o futuro ou então uma joia do infinito para confirmar se em algum final não estaremos próximos do fim da humanidade...

 

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (4) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio A Tarde FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

Histórico de Conteúdo