Quinta, 22 de Outubro de 2020 - 07:20

No embate de Bolsonaro e Doria, quem perde é o povo - e eles não estão nem aí

por Fernando Duarte

No embate de Bolsonaro e Doria, quem perde é o povo - e eles não estão nem aí
Foto: Reprodução / Governo de SP

Na batalha entre Jair Bolsonaro e João Doria pelo protagonismo no caso da vacina CoronaVac, que deve ser produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, quem perde são os brasileiros. Bolsonaro erra ao tentar conduzir ideologicamente um debate sobre o imunizante. Doria erra ao manter a politização do debate, partindo para o enfrentamento com o presidente. No duelo pré-2022, o grande prejudicado é o povo, numa batalha que envolve desinformação e guerrilha política.

 

Há inúmeros interesses envolvidos na produção e distribuição da CoronaVac. Desde a política miúda, brasileira, à geopolítica mundial, dada a parceria com a China para o desenvolvimento do imunizante. A atual subserviência do Itamaraty à administração de Donald Trump explica parte da estridência da trupe bolsonarista, que controla o órgão e, infelizmente, possui ascendência sobre o Palácio do Planalto. Para esse grupo, pouco importa que os brasileiros tenham interesse em qualquer vacina cuja eficácia seja garantida.

 

O componente xenofóbico também fica implícito. Enquanto as vacinas desenvolvidas por universidades e farmacêuticas norte-americanas ou europeias levam o nome das indústrias, os imunizantes da China e da Rússia carregam o adjetivo pátrio como se fosse pejorativo. Dificilmente alguém vá admitir, porém o preconceito existe e não dá para fingir que vivemos em uma sociedade igualitária, tal qual a mentira recontada da democracia racial.

 

Se Bolsonaro e Doria tentam se capitalizar politicamente com esse episódio, outros atores tentam fugir desse embate. Lideranças baianas, como o governador Rui Costa (PT) e o prefeito ACM Neto (DEM), foram incisivos em criticar o comportamento ignóbil do presidente em relação à vacina cujas pesquisas parecem estar mais avançadas. Ambos foram a público garantir que a prioridade é o amplo acesso a um imunizante viável e não uma batalha eleitoral antecipada - e olha que tanto Rui quanto ACM Neto terão representatividade no contexto de 2022.

 

Em meio a dois antecessores diminuídos, o ministro Eduardo Pazuello foi quem saiu muito menor desse episódio. Foi desautorizado por um capitão da reserva sendo um general da ativa e deve seguir em silêncio e engolir a seco o pito ideológico dado pelo presidente. O teste positivo para o coronavírus veio bem a calhar. Pelos próximos 14 dias, o isolamento social fará bem para ele.

 

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (22) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio A Tarde FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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