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Entrevista

Nilton Vasconcelos: "O preocupante para nós é, além da questão do estádio, a logística e os transportes" - 01/07/2009

Por Alexandre Costa

Fotos: Max Haack/Bahia Notícias

"O preocupante para nós é, além da questão do estádio, a logística e os transportes"

Por Alexandre Costa

Bahia Notícias – Como estão os preparativos para a construção do novo estádio para a Copa do Mundo de 2014 em Salvador?

Nilton Vasconcelos –
O projeto já está pronto e as obras devem começar ano que vem. Em fevereiro, quando houve uma visita do Comitê Organizador da Copa, discutiu-se muito a questão do estacionamento e da pista de atletismo. A FIFA deseja que os estádios sejam apenas de futebol, o que significa que, para eles, deve haver uma aproximação maior entre o público e o espetáculo, para compor o ambiente e favorecer a mídia também, que acaba sendo o maior público.

BN – De que forma o Estádio de Pituaçu será utilizado durante a Copa?

NV -
Alguns estádios como o de Pituaçu, o do Galícia e o do Vitória, ou mesmo o Fazendão, do Bahia, servirão de apoio para as seleções que jogaram em Salvador. Isso faz parte das garantias que demos para trazer a Copa para Salvador.

BN – De que forma as outras cidades próximas a Salvador podem se beneficiar dos investimentos gerados pela Copa do Mundo em Salvador?

NV –
Bom, sob a ótica do futebol é difícil que tenham participação. Mas, se você analisar a Copa como um todo, eles poderão se beneficiar com investimentos em infraestrutura, por exemplo, com a recuperação de estradas como a BR 324 e a BA 093, para facilitar o acesso a Salvador. Eu diria que, além de Salvador, municípios como Mata de São João tem muito a ganhar com a Copa, em função da sua estrutura hoteleira em Sauípe, já experimentada internacionalmente. Se fizemos bem a lição de casa, a Copa vai nos deixar um legado muito importante. E a lição de casa passa por investimentos em infraestrutura e transportes.

BN – E a área hoteleira?

NV -
Na hoteleira eu diria que a situação é mais confortável, embora precisamos modernizar a rede de hotéis. Em relação ao número de vagas, Salvador e Costa do Sauípe podem dar conta. Além disso, temos a possibilidade de três novos hotéis em Salvador, já anunciados, de cinco estrelas, na região central, próxima ao estádio. O preocupante para nós é, além da questão do estádio, a logística e os transportes. A preocupação é levar os torcedores e visitantes do aeroporto até os hotéis e à Fonte Nova. Se fizemos bem isso, podemos aproveitar a Copa para, a partir daí, buscar o acréscimo no fluxo regular de turistas que visitam Salvador. Há vários investimentos dentro do PAC em andamento que vão ajudar a melhorar nossa infraestrutura e transportes, o que pode ser o grande legado da Copa do Mundo de 2014 para nós.

BN – Já há um cálculo sobre a quantidade de empregos diretos e indiretos que a Copa do Mundo de 2014 vai gerar na Bahia, antes, durante e depois da competição?

NV -
Não há um cálculo específico. Há apenas especulações.

BN – A FIFA demonstrou preocupação com estádios vazios durante a Copa das Confederação realizada na África do Sul, sede da próxima Copa do Mundo. O senhor teme essa preocupação aqui, em função dos preços dos ingressos?

NV –
Quem define o preço é a FIFA. Como quem define o preço do ingresso da partida que o Brasil fará em setembro em Pituaçu é a CBF. Os clubes como Bahia e Vitória definem os preços dos ingressos em suas competições. De modo que não é uma temática de governo, embora a FIFA tenha apelado ao governo da África do Sul para ajudar a manter os estádios cheios. O governo pode ajudar na capacidade de comercialização do produto, ou seja, da competição. Isso é fundamental, acredita a FIFA, para atrair publico externo.

BN – O problema do acesso ao Estádio de Pituaçu será resolvido até a partida da Seleção do Brasil em setembro?

NV –
Não podemos ainda assumir nossos compromissos por conta da crise e das restrições orçamentárias. Nós temos projeto já em andamento, de curto prazo, que trata especificamente do tráfego de pessoas na região nos dias de jogos, através da construção de passarelas. A longo prazo, temos o projeto do viaduto e da duplicação da Pinto de Aguiar até a Orla. O compromisso do governo é de duplicar até a metade da via. Mas em setembro vai ficar como está ainda, ou seja, a polícia e a SET vão tentar amenizar os transtornos, que são normais em dias de grandes jogos.


"Tivemos uma queima de empregos grande em dezembro e um pouco em janeiro"

BN – O senhor considera positiva a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, aprovada esta semana em comissão especial na Câmara dos Deputados? Qual a posição do governo Wagner sobre o assunto?

NV -
O governo não tem propriamente uma posição sobre o assunto, já que não apreciou essa temática. Agora é uma reivindicação antiga. Nesse sentido, o próprio governador esteve, ao longo de sua trajetória política e sindical, empenhado nessa causa. Há no mundo inteiro situações distintas. A França já adotou a jornada de 35 horas. Aqui no Brasil, alguns setores já colocaram em prática a redução. Então, o que nós sempre dissemos é que historicamente um aumento da produtividade dos fatores econômicos correspondeu à redução da jornada, que já foi de 16 horas diárias. Agora, se discute a redução da jornada na área industrial. Vejo isso como positivo. Afinal, os trabalhadores precisam ficar mais tempo com a família, como já reconhece a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

BN – De que forma a crise financeira internacional afetou o mercado de trabalho na Bahia?

NV -
Num primeiro momento, o impacto foi grande. Tivemos uma queima de empregos grande em dezembro e um pouco em janeiro. Mas, a partir de fevereiro, não só o Brasil como a Bahia começou a observar uma geração de emprego. Hoje estamos, em 2009, no saldo positivo, embora menor em relação ao mesmo período do ano passado.

BN – O que a secretaria que o senhor comanda fez para enfrentar a crise?

NV –
Adotamos como uma das estratégias reduzir ao máximo o tempo em que as vagas de emprego ficam abertas. Exatamente no período da crise, tivemos a possibilidade de aumentar em 30% os empregos através do SineBahia. Conseguimos captar 54 mil empregos ano passado e este ano já temos um incremento de 30%. São novos empregos, em grande medida, mas também corresponde ao fato de termos reduzido o tempo em que as vagas ficam desocupadas. Mas o emprego não é a única solução. Procuramos incentivar o micro crédito ampliando as agências do Credibahia. Até maio, os empréstimos através do Credibahia chegaram a seis milhões. Empréstimos de R$ 200 a R$ 1.200 para o pipoqueiro, a baiana do acarajé, o agricultor, para as atividades informais. Aumentamos também o investimento em qualificação profissinal através de programas como o Juventude Cidadã e o Trilha. Em convênio com o governo federal, investimos na qualificação do público do Bolsa Família.

BN – O que o governo Wagner tem procurado fazer para reduzir a informalidade no mercado de trabalho?

NV –
Montamos na secretaria a Superintendência de Economia Solidária para buscarmos incentivar o chamado associativismo econômico e fomentar o cooperativismo. O governo também criou o Conselho do Corporativismo, que era uma demanda antiga do setor. Também temos o Programa Empreendedor Individual, programa que busca fazer a intermediação entre o mercado e os autônomos.

BN – A situação no pólo já se normalizou ou as empresas ainda devem demitir mais?

NV -
Na composição do emprego na Bahia, o primeiro é o setor público. O segundo é o setor serviços. Depois, vem comercio. O setor industrial não tem o peso que outros têm. De qualquer maneira, é um setor que tem impacto importante na economia. Um setor que Sofreu especialmente porque o mercado da petroquímica e dos bens intermediários é mais voltado para o comércio internacional. Foi por conta disso que houve o choque no pólo com a crise, que atingiu mais o mercado interno do que o externo, que se segurou bem. Houve uma redução das dificuldades, mas creio que as demissões podem acontecer num nível mais baixo até que o comércio internacional se recupere.


"Em comparação com governos anteriores, basta olhar os indicadores para ver que estamos muito acima da média" 

BN – Que nota o senhor dá ao governo Wagner, como eleitor?

NV –
Como professor sempre tive dificuldades em dar nota. A gente acaba dando nota muito em função da média dos alunos. Em comparação com governos anteriores, basta olhar os indicadores para ver que estamos muito acima da média em muitos aspectos. Nesse sentido, acho que vamos bem. Há dificuldades objetivas em áreas específicas. No caso da educação, por exemplo, não é fácil resolver um problema histórico de 2,3 milhões de analfabetos que estamos na Bahia. Além disso, temos 53% da população vinculada ao Bolsa Família, mesmo sendo o estado a sexta economia do país. E não há como avaliar o governo sem levar em conta as medidas que estamos tomando para enfrentar os problemas, com programas como o Água para Todos. Acho que temos obtido avanços significativos.

BN – Mas e a nota?

NV –
A nota é sempre difícil de dar (risos).

BN – O senhor está satisfeito com o tamanho do orçamento da secretaria?

NV –
É um orçamento pequeno para a nossa demanda. Este ano, está previsto R$ 130 milhões, e, com os cortes e a crise, deverá ficar na faixa dos R$ 100 milhões pelo menos. Isso é muito pouco porque, por exemplo, na área esportiva a demanda é grande por infraestrutura. Claro que nosso orçamento não incluiu a reforma de Pituaçu, a cargo da Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Temos demanda por quadras esportivas e a Sudesb tem um orçamento ínfimo para atender a demanda. Mas temos feito muita coisa. Nesse governo já devemos ter concluído 80 quadras. Estamos terminado sete piscinas semi-olímpicas e o Instituto Mauá funciona mesmo com um orçamento pequeno. A secretaria depende muito de convênios com o governo federal, seja junto ao Ministério do Trabalho ou ao Fundo de Combate à Pobreza, como é o caso dos nossos programas de economia solidária.