Paulo Manso Cabral: "Empresário inovador é aquele que puxa para si a responsabilidade do seu destino" - 01/06/2009
BN – Nós temos um cenário atualmente em que o Sebrae atua bastante no segmento de micro, pequenas e médias empresas. Hoje, quais são os principais projetos que o Sebrae desenvolve?
PM – O Sebrae hoje está mergulhado na temática da inovação. Recentemente nós fizemos uma pesquisa em todo o país e constatamos uma percepção muito negativa que o pequeno e o micro-empresário tinham sobre o tema inovação. Eles imaginavam que era algo muito distante da sua realidade, muito caro e que precisaria de muitos investimentos. Muitos achavam até que inovar era desnecessário, pois teriam simplesmente que aplicar modelos que aprenderam com seus pais e avós e achavam que o tema inovação estava muito ligado à tecnologia, a laboratórios e a robótica. Conseqüentemente, seria uma coisa de alcance exclusivo das grandes empresas. Diante disso nós tomamos uma decisão de que no ano de 2009 todo o sistema Sebrae, os 27 estaduais e o nacional, teriam que participar de uma cruzada, de uma campanha que foi batizada “Faça Diferente”, que visa levar a cultura da inovação aos pequenos negócios.
BN – Essa cultura da inovação, já que ela não está atrelada exclusivamente às novas tecnologias, consiste basicamente em que? O que significa fazer diferente?
PM – Muitas vezes você pode ter uma pequena indústria de confecção, mas em vez de fazer uma camiseta básica, que está concorrendo com a China, por exemplo, o que é praticamente impossível concorrer com esses grandes conglomerados internacionais, o empresário pode investir em colocar traços da cultura ou mesclar confecção com outros produtos: usar a moda praia com pedras semipreciosas, criando produtos diferenciados, ou você pode inovar no relacionamento com o cliente. A grande empresa tem uma relação muito impessoal, descomprometido e simplesmente padronizado, por estar atender o cliente de forma massificada. Todos nós percebemos isso quando temos um problema com a nossa operadora de celular, de televisão a cabo ou de cartão de crédito. Ali somos meramente um número. Nós falamos com alguém em um call center que não sabemos se está em uma cidade do interior do Rio de Janeiro ou em Bangalore, na Índia. A pequena empresa não. Se quiser, ela tem como conhecer profundamente o seu cliente, suas necessidades, e consequentemente pode levar vantagem em um processo de competição em determinados segmentos. Você pode inovar em métodos de trabalho, ser mais criativo, ter uma empresa mais leve e não burocratizada, com respostas rápidas. Enfim, inovação é antes de tudo uma negação ao processo de acomodação, ao processo simplesmente de queixa, de sempre transferir as nossas responsabilidades para o governo ou para a sociedade. O empresário inovador é aquele que puxa para si a responsabilidade do seu destino.
BN – Sobre a campanha, especificamente, como ela funciona?
PM – O programa como um todo é composto de diversos workshops. Aqui na Bahia, por exemplo, quase dois mil empresários da capital e do interior já passaram pelos nossos eventos. Nós procuramos desmistificar a questão da inovação, para que eles entendam que não se trata de tecnologia pesada, mas muitas vezes da inovação de um produto, de um processo de trabalho, no relacionamento com o cliente ou na entrega de produtos. Inovação muitas vezes sequer custa dinheiro, requer criatividade. Para esses eventos nós sempre levamos pelo menos dois empresários de setores normalmente de pequenas empresas. Pode ser o dono de uma pequena academia de ginástica, de uma pequena loja de comércio ou de uma pizzaria. Eles levam os seus exemplos de como a inovação fez com que eles alcançassem resultados muito superiores à média dos seus segmentos.
BN – O projeto conta com mais alguma ação?
PM – Além desses workshops nós já iniciamos um programa de rádio em todo o país. Serão 120 programas, todos diferentes. Cada um tem três minutos, de segunda a sexta-feira, em emissoras de todo o Brasil. Nós vamos sempre apresentar episódios que mostram como o empresário pode sair da mesmice, melhorar os resultados do seu negócio, criar uma nova base de competitividade e de sustentabilidade para o seu empreendimento.
BN – E como as empresas podem procurar o Sebrae para relatar essa inovação ou essa experiência que ela teve?
PM – Podem procurar de diversas maneiras. Nós estamos presentes em todo o país, em mais de 500 pontos de atendimento. Aqui na Bahia, além de Salvador temos mais 33 pontos espalhados em todo o estado. Eles podem procurar também através do nosso site, que é um portal extremamente didático, assim como através do nosso call center gratuito: 0800 570 0800. Assim ele poderá acessar todo o nosso leque de cursos, seminários e pacotes de conhecimento, para que eles possam fazer diferente, que é o mote dessa campanha.
BN – Nesse momento de crise financeira mundial, o senhor acredita que a inovação é uma das saídas fundamentais para o micro e pequeno empresário?
PM – Sem dúvida. As pequenas e micro empresas são as que mais sofrem em momentos como esse porque não há políticas públicas voltadas para o segmento como, por exemplo, há para os setores automotivo e de eletrodomésticos linha branca, com reduções e isenções de IPI (Imposto sobre Produto Industrializado). Essas cadeias produtivas são muito empregadoras e muito poderosas, do ponto de vista do seu lobby institucional, pois têm uma representatividade muito grande na economia do país. Essas operações de socorro ou de proteção que elas se beneficiam não chegam às pequenas e micro-empresas. Nós temos um dado recente, feito pelo Sebrae de São Paulo, de que apenas no primeiro trimestre de 2009, a produtividade da micro e da pequena indústria daquele estado sofreu uma redução de 28%. Estamos falando de uma redução de quase 30% de faturamento bruto. Ou seja, isso gera como conseqüência redução no índice de emprego e muitas vezes até o desaparecimento do empreendimento. Então nós imaginamos também que a questão da inovação é, não digo um antídoto, mas uma certa proteção da empresa à crise, porque como se diz, nós não podemos esperar resultados diferentes, se nós sempre fazemos a mesma coisa. Para termos resultados diferentes nós temos que fazer diferente, operar diferente.
BN – Quais são as principais dificuldades para o setor atualmente?
PM – Obviamente nós não temos ainda um ambiente favorável ao empreendedorismo no Brasil. O acesso ao crédito é muito restrito. A pequena empresa tem muita dificuldade de acessar o sistema financeiro tradicional, muitas vezes por não possuir garantias reais para alavancar financiamentos. Além disso, o acesso à tecnologia é muito complexo. O problema da tributação está mais ou menos equacionado, pelo menos para as pequenas empresas, graças à questão da lei geral e a possibilidade de enquadramento no Supersimples, o que reduz drasticamente a carga de impostos. Mas a verdade é que nós ainda temos um grande dever de casa a cumprir que é a inovação. Ela é a espinha dorsal para criarmos pequenas empresas mais inovadoras e mais longevas.
BN – Fala-se muito também que na crise surgem muitas oportunidades. O senhor consegue identificar quais seriam as áreas de maior destaque?
PM – Olha, é muito complexo se definir onde estão essas oportunidades. Nós temos a convicção de que os empreendedores têm que passar primeiramente por um processo de autoconhecimento, ver quais são as suas inclinações, seus pontos fortes, a sua disposição para riscos e, principalmente, saber que os empresários triunfadores são aqueles que amam profundamente o que fazem. Nós sempre dividimos os empreendedores em duas categorias diferentes. Os empreendedores por oportunidade, que são aqueles que farejam, estão com as antenas ligadas, desenvolvem alguma tecnologia ou conhecimento novo. A outra categoria são os empreendedores por necessidade. São pessoas que abrem empresas como uma forma de subsistência. Me refiro aos mais de um milhão de jovens que ingressam no mercado de trabalho todos os anos, se formam em universidades do Brasil inteiro e não encontram o emprego formal, tradicional, com a carteira assinada. Também os da meia idade ou que caminham para a terceira idade, que se desligaram de uma grande empresa, foram demitidos, aderiram a um programa de demissão incentivada, ou perderam alguma função na área pública. Então esse conjunto de pessoas vê na pequena empresa a única alternativa de sobrevivência pessoal.
BN – E o que pode ser feito nessas situações?
PM – Para esses empreendedores, nós sempre vamos orientar no sentido de cruzar as informações e os dados. Por exemplo, se ele quer abrir uma ótica, uma padaria, um minimercado ou uma locadora de vídeo em determinado bairro, nós vamos checar e orientar o número de concorrentes que já existem naquela área, a população versus o consumo daquele produto e às vezes até desaconselhá-lo a montar aquele tipo de empreendimento naquele local, pois o sonho daquele dia pode se transformar no pesadelo do dia seguinte. Podemos apresentar um leque de oportunidades, por exemplo, um franchising que procure franqueados aqui na Bahia. Agora no mês de outubro vamos realizar um megaevento que é a Feira do Empreendedor, no Centro de Convenções. Mais de 10 mil m² de área e ali você tem um celeiro de oportunidades, desde franquias a pequenas máquinas, de pipoca, cachorro quente, silk screen, ou seja, alguma coisa que você possa adquirir e imediatamente começar a exercer uma atividade produtiva. Nessa mesma feira nós teremos empresas que procuram representantes comerciais ou que trabalham no sistema porta a porta. Vamos ter também um salão de inovação. Sem dúvida alguma é um espaço extraordinário justamente para aqueles que estão à procura de boas oportunidades de negócios.
BN – Em relação a Salvador percebe-se um crescimento muito grande do comércio informal. Há uma queixa geral dos empresários e até da própria sociedade em relação à ocupação desses espaços. Qual o tipo de orientação que o senhor dá para que essas pessoas se motivem a legalizar o negócio?
PM – Nós temos uma excelente notícia para essas pessoas. O Congresso nacional promulgou uma lei que cria a figura do microempreendedor individual. Ou seja, essa lei é voltada a todos os microempreendedores que faturam até R$ 36 mil por ano. Uma coisa bem típica de um caldo de cana ou de um carro de cachorro quente. Todas essas microatividades que viviam na informalidade poderão a partir de agora ser totalmente legalizadas com o pagamento de uma taxa mensal, sem que haja cobrança de um percentual de impostos pelas suas vendas. Os empresários vão pagar algo em torno de R$ 50 por mês, mas deste valor cerca de R$ 49 serão voltados à previdência deles. Essas pessoas que estavam descobertas de uma previdência pública do INSS, que na velhice enfrentariam problemas dramáticos se não tivessem mais a capacidade laboral, agora se incluem no sistema previdenciário do nosso país e deixam de ser empresários informais e passam a ser totalmente legalizados. Com isso, passam a acessar linhas de crédito, a não viver amedrontados com fiscalizações, nem execrados pela sociedade. Então é um processo de cidadania empresarial extraordinário.
BN – Realmente essa é uma excelente iniciativa. Como esses microempreendedores podem acessar esse benefício?
PM – Todos os empreendedores que se encontram nessa situação devem procurar o Sebrae para que sejam orientados a como iniciarem esse processo de legalização. Realmente esse é um fato muito importante, porque a informalidade não é boa para ninguém. Não é boa para o empresário. Não conheço um empresário informal que tivesse sucesso na vida. Quando você é informal não tem acesso a bons clientes, que podem exigir uma nota fiscal. Não tem acesso a crédito, a tecnologia, nem a absolutamente nada.
BN – Nem dá credibilidade ao próprio produto...
PM – Exatamente. Você vive à margem. É o que se chamava há algum tempo de economia marginal. Essa informalidade é ruim para o país, pois não contribui com absolutamente nada para o processo de desenvolvimento. Ela é péssima para o concorrente do informal. Você imagina, você tem um negócio informal, eu tenho o meu todo legalizado, pago todas as minhas obrigações, você não paga absolutamente nada e consequentemente o meu preço vai acabar sendo mais caro, mais oneroso. Esse é um processo de absoluta injustiça. A informalidade é uma chaga que precisa ser combatida e eliminada do nosso país.