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Entrevistas

Entrevista

Marcelo Britto avalia que a crise traz diversos impactos para o setor de Saúde - 05/05/2009

Por Lucas Esteves

Fotos: Tiago Melo/Bahia Notícias

Por Lucas Esteves

Bahia Notícias - Como está o setor de saúde privado com o problema da crise, que afeta todas as atividades econômicas, mas esta de maneira particular?

Marcelo Britto – A situação que a gente passa é uma situação até meio curiosa. Uma das áreas que mais sofre com a crise, primeiro sofre com a crise, são os trabalhadores da área de saúde, os trabalhadores da indústria. No momento em que eles, ou os trabalhadores de comércio, perdem o emprego, a primeira cosia que eles perdem é o plano de saúde. Isto agrava a situação do estado em relação ao SUS. Você tem uma massa de pessoas, normalmente pessoas com uma qualificação boa, que termina migrando para o Sistema único de Saúde, e que são acostumados ao atendimento da área suplementar, eles sofrem muito com o atendimento do SUS, que gera ainda mais transtorno, porque não está acostumado com o atendimento da unidade pública, onde se leva quatro horas para ser atendido, e eventualmente não ser atendido. E isto termina gerando todos os conflitos dentro das unidades públicas que a gente vê todo dia na imprensa, com brigas e ameaças do Ministério Público, denúncias. É uma verdadeira confusão. Eu acho que pra gente é uma situação muito ruim. Ao mesmo tempo em que eu tenho uma perda de usuários, eu também enfrento a crise em relação aos planos de saúde. Os planos de saúde têm se queixado que muitos dos clientes têm atrasado o pagamento das faturas, o que faz com que eles tenham dificuldade de caixa e atrasem o pagamento da rede. Alem desta situação que a gente vive, o plano atrasando o nosso pagamento, decorre pagamento do fornecedor, atrasono pagamento do médico, atraso no pagamento de impostos. E aí vem a cascata: atraso no pagamento de algum empréstimo e aí vem juros, multa, correção monetária. E mais, o plano de saúde não nos paga por atraso. Não existe essa previsão contratual, o que faz com que a rede sofra duplamente com esta situação.

B.N - E a questão da portabilidade dos planos de saúde. Em que isto está impactando na vida prática dos planos de saúde e, especialmente, na dos hospitais?

Marcelo Britto – Eu diria que neste primeiro momento o impacto é quase nulo. Porque existe uma série de regras pra que você faça a portabilidade. Além do mais, a questão da portabilidade é você sair de um plano para outro, pois existe a necessidade do plano receptados do paciente queira este paciente ou não. É um problema do interesse do plano: você quer vir, mas eu não tenho interesse que você venha. Quem ta tentando fazer a portabilidade esta partindo de planos muito baratos e tão querendo planos de alcance nacional. E que, evidente, não conseguirá fazer com os preços que ele pagava nos planos locais. E aqui decorre toda uma questão de discussão, de briga, de confusão por causa do valor de pagamento dos planos.

B.N - Isto não tem gerado um nível de ações judiciais contra planos e até mesmo de planos contra usuários?


Marcelo Britto – Sem sombra de dúvida. Os planos de saúde ocupam o segundo lugar nos índices de reclamação junto ao Procon e junto às varas de Defesa do Consumidor. Me parece que a última estatística que eu li (os planos de saúde) só estavam perdendo para as operadoras de telefonia celular. Fora isso, nós da área de saúde somos os maiores demandantes de ações judiciais.

B.N - No caso de atendimentos a usuários de plano de saúde? Há alguma conseqüência para estes pacientes devido à crise?

Marcelo Britto – Não, não é a crise aí que atrapalha. O que atrapalha é a gripe suína,a dengue, aquelas patologias que a gente chama de sazonais, que a gente observa no inverno, no verão. São doenças que acontecem no trato respiratório, nas crianças. Hoje o que a gente tem é uma super-demanda nas emergências dos hospitais. Hoje a gente tem uma capacidade de atendimento de 100 e está aparecendo para atendimento de emergência 150, 200. E isto tem levado alguns hospitais até avisos na porta de suas emergências dizendo que “nossa capacidade de atendimento está esgotada e qualquer atendimento resultará em várias horas de espera”. E isto tem nos preocupado muito, porque nós não temos a capacidade, por exemplo, de enfrentar essa ameaça de pandemia que está se anunciando aí com a Organização Mundial de Saúde elevando o nível de risco para 5, um nível antes do nível máximo que geraria, inclusive, uma quarentena. O nível 6 significa que nós vamos isolar uma determinada grupo populacional e ninguém pode entrar ou sair daquela região. É uma situação absolutamente nova até mesmo para a nossa realidade.

B.N - Já que o senhor tocou neste assunto, é uma curiosidade que certamente toda a população tem: se a gripe suína, em uma hipótese péssima, chegasse à Bahia, nós estaríamos preparados pra enfrentá-la?

Marcelo Britto – Eu diria que seria um caos. Nós passaríamos a viver uma situação extremamente ruim, extremamente difícil. Todas as nossas estruturas comportam um nível normal de atendimento. Qualquer coisa que fuja a esta normalidade a rede privada não tem a menor capacidade de absorver esta demanda. Fico imaginando a rede pública. Ela que já trabalha normalmente acima de sua capacidade. Se isto acontecer, nós realmente vamos viver uma situação de caos na saúde.

B.N - Sobre a dengue, como anda a estrutura de atendimento da rede pública para a doença atualmente? No último mês, as contaminações diminuíram e as notícias da gripe suína desviaram o foco do mosquito. Portanto, a quantas anda a preparação da rede privada para atender os doentes?

Marcelo Britto – Vamos facilitar: todos os hospitais que tem emergência estão passando hoje por uma situação muito difícil. Apesar de hoje a imprensa estar falando muito sobre a gripe suína, a nossa situação de dengue é muito mais grave. O Brasil, neste exato momento em que eu falo com você, não tem nenhum caso confirmado de gripe suína, mas nós temos milhares de casos de dengue. E não estou falando do Brasil, não, estou falando do nosso estado. E a rede não tem capacidade para suportar esta quantidade de atendimento, nem está preparada nem dimensionada para esta capacidade de atendimento. Houve um problema histórico onde os níveis de pagamento, por exemplo, do SUS, e dos planos de saúde, foram muito baixos, o que afetou drasticamente a capacidade de investimento dos hospitais. E como os hospitais não fizeram grandes investimentos porque não tinham recursos para ampliar seus atendimentos – por exemplo de emergência -, nós não temos hoje capacidade de atendimento dessa possível crise na saúde, que é esta questão da dengue, por exemplo.

B.N - E o senhor acha que, para resolver esta situação, seria necessário um PAC da Saúde?

Marcelo Britto – Olhe, nós encontramos hoje no mercado o PAC de investimento de estrada, de moradia popular, de saneamento básico. Nós estamos vendo na área privada investimentos na área automobilística,  redução de IPI para carro, eletrodoméstico, para linha branca. Eu acho todas estas iniciativas extremamente positivas e louváveis. Eu só não consigo entender por que é que não fazem isso para a saúde. Nós vivemos hoje uma situação, sobre o PAC da Saúde, onde não vejo nenhuma discussão a respeito. Será que é mais importante você ter um liquidificador do que você ter u m bom atendimento de saúde. Será que é mais importante você ter um carro básico ou de luxo do que ter um bom serviço de saúde? Será que é mais importante você ter uma geladeira, um fogão, do que ter um bom serviço de saúde? Eu não entendo. O governo não nos olha. Ou acha que nós estamos numa situação muito favorável, e aí eu trago dados estatísticos para lhe dizer que isto não é verdade... Nós temos um dado levantado pela Confederação Nacional de Saúde que demonstra que os 200 maiores hospitais brasileiros – e aí não estou falando mais da Bahia, estou falando do Brasil – no balanço de 2007, apenas cinco unidades tiveram resultado positivo nos seus balanços. Cento e noventa e cinco unidades deram prejuízo. E as cinco unidades que tiveram resultado positivo são todas filantrópicas. Se você aplicasse o índice os índices de impostos que a rede privada lucrativa paga, este cinco positivos passariam a negativos. Então nós temos alguma distorção neste mercado, tem algo errado. O que é que está havendo? Ou nós não estamos sendo competentes para demonstrar à sociedade ou ao governo, principalmente, a necessidade que nós temos de investimentos, de redução de carga tributária, de recursos específicos para a área de saúde, ou realmente eu não sei mais o que justificar em termos de necessidade para a nossa área. Área que atende todos os cidadãos brasileiros. Aqui no estado nós atendemos ao governador, nós atendemos à primeira-dama, nós atendemos os deputados, nos atendemos os secretários, nos atendemos os médicos, atendemos aos donos de hospitais, atendemos a vocês, jornalistas, e mesmo aos leitores que neste momento estão nos lendo. E, na realidade, nós não temos qualquer tipo de incentivo. Eu não quero benefício, eu não falo de benefício, eu desejo benefício, mas eu acredito que esta é uma área que deve ser vista com outros olhos, especialmente pelo estado brasileiro.

B.N - E existe algum movimento ou entidade reivindicatória constante, como há em tantas outras áreas?

Marcelo Britto – Sempre teve. Na verdade, nós estamos há muito tempo mostrando à sociedade, mostrando ao Estado, que nós não podemos continuar convivendo com essa penúria. Com tabelas do SUS pagando R$ 2,55 por uma consulta médica. Por diárias hospitalares pagando R$ 20 e poucos. Quarenta e poucos reais por uma diária de enfermaria agora num setor de saúde suplementar. Não estou falando mais só do setor público não, estou falando da área privada. Na área privada existem planos de saúde pagando R$ 40 por uma diária de enfermaria com direito a cinco refeições. Com R$ 40, você mal come dois ou três sanduíches em um fast food de grife na nossa cidade. Quem dirá num restaurante. Se for num restaurante, sai mais caro. E, no entanto, nós recebemos 40 para fornecer cinco refeições balanceadas, realizadas por nutricionistas, de uma qualidade excepcional para recuperar alguém que está naquele momento enfermo.

B.N – É este o caso do Hospital Salvador, na Avenida Magalhães Neto?

Marcelo Britto – Na verdade, o que houve (no Hospital Salvador) foi uma mistura entre o plano IHSaúde e o Hospital Salvador. O IHSaúde há três anos foi vendido para o próprio Hospital Salvador, que há mais ou menos três meses revendeu este plano para u m suposto grupo de empresários de fora da Bahia. Este grupo de empresários sucateou o IH, retirou todos os bens móveis da sede do IH e não pagou à rede. Nem a médicos, nem às clínicas, nem aos laboratórios e hospitais. Então nós temos hoje hospitais nossos associados com créditos que ultrapassam R$ 2,5 milhões individualmente. Num primeiro levantamento feito pela associação, o IH esta deixando um rombo na praça da Bahia de mais de R$ 20 milhões. E neste momento os donos do IH sumiram. Nós denunciamos isto ao Ministério Público do Estado da Bahia, denunciamos isso à Agência Nacional de Saúde Suplementar, e agora, semana passada, eu recebi uma carta dizendo que a agência acaba de intervir no plano. Mas a estas alturas a intervenção tem muito pouco resultado, porque o interventor não tem nem onde sentar para despachar em relação ao IHSaúde. Do prédio foram retirados os móveis, os computadores. Roubaram as lâmpadas. Então, o sujeito que for para lá não pode nem entrar, porque não tem chave na porta. Teria de contratar um chaveiro e eu não sei se o IH tem recurso para contratar um chaveiro para abrir a porta de entrada de lá.

B.N - Mas o atendimento aos outros planos está prejudicado ou isto é apenas restrito aos que assinaram o IH?

Marcelo Britto – Está prejudicado o atendimento médico apenas aos associados do plano IH. Eu participei de vários debates, inclusive em rádios, mostrando que o usuário deveria neste momento procurar outro plano, porque eu não via como a rede, que tem R$ 20 milhões no débito, continuar atendendo usuário que, eu sei, não tem responsabilidade nenhuma nesta história. E se nós atendermos os usuários do IH sem que o IH nos pague nos vamos começar a comprometer o atendimento dos outros usuários dos planos que estão em dia. E nós não podemos arriscar esta situação. Especificamente este hospital citado passa por um momento de dificuldades em que eles estão tentando uma solução em relação a este aspecto.

B.N - Como presidente da associação, como avalia a gestão da saúde pública em geral e qual a relação dela com a rede privada?

Marcelo Britto – A questão da relação do Sistema Único de Saúde, que hoje é de gestão plena, e mesmo do município de Salvador mais especificamente, que era uma relação extremamente difícil, eu diria que nos últimos tempos houve uma melhora significativa. Não é ainda no nível que nós desejamos. Falta (veemente) muito. Mas posso lhe dizer que com relação ao que vivíamos, sem dúvida nenhuma que houve uma melhora nessa relação. O secretário, Dr. José Carlos Brito, é um secretário que nos atende, ouve a nossa demanda. Sempre que a gente pede alguma coisa ele está pronto a nos atender, mas ele também tem uma questão de restrição de orçamento, e isto não é fácil de encontrar solução. Em relação ao governo do estado, nós temos uma relação relativamente distante porque, com os municípios todos municipalizados, as relações dos hospitais, das clínicas, dos laboratórios e mesmo com os médicos, se dá com o município. Como você tem hoje Salvador, que iniciou uma boa relação com sua rede, nós temos Feira de Santana, que já tinha uma boa relação com a prefeitura. Então hoje eu diria que nós temos um equilíbrio. Com relação ao governo do estado, ainda há algumas situações, digamos assim, complicadas de se administrar. Mas é o nosso papel fazer isso. Tenho certeza que o secretário (Jorge) Solla está se empenhando em tentar resolver essa situação, mas não é uma situação simples.

B.N - Qual a principal solicitação? É relativo aos pagamentos e repasses do SUS?

Marcelo Britto – Duas coisas ao muito graves. Primeiro, a questão que diz respeito às datas de pagamento. O SUS já paga muito ouço. Se você atrasa este pagamento, nós estamos aqui, por exemplo, com uma demanda neste momento em relação à terapia renal substitutiva, a hemodiálise, onde o pagamento destas unidades tem atrasado em torno de dois meses e meio. Não é aceitável isso. E segundo diz respeito aos valores das consultas. Dois reais e cinqüenta e cinco centavos por uma consulta? Procedimentos cirúrgicos de grande complexidade, como por exemplo procedimentos ortopédicos, você hoje vai pagar por uma fratura de fêmur R$ 600, R$ 800? Isto não é suficiente para pagar a rede, você está sucateando a rede. A rede está mantendo este atendimento basicamente por uma questão social. Só que se mantiver isso por muito tempo você vai começar a perder a qualidade do serviço que é prestado. E é isto que tem que ficar claro para a população. A população é uma aliada dos hospitais. Os hospitais são um patrimônio desta cidade. As clínicas, os médicos, os laboratórios, eles são um patrimônio do estado e eles existem para atender você, que lê agora esta entrevista. Então preserve estas unidades. Vamos reivindicar juntos ao governo do estado. Se você ta fazendo grandes investimentos, está dando renúncia fiscal a grandes indústrias, pra indústria automobilística, para o comércio, por que é que nós não podemos fazer isso também para a área de saúde?

B.N - Ouve-se sempre falar muito dos hospitais, das gestões e dos planos de saúde, mas pouco se sabe da situação dos médicos no meio deste tiroteio. Está havendo corte de médicos na Bahia por conta destes problemas combinados?

Marcelo Britto – Não, ao contrário. Os hospitais, a cada dia que passa, estão tentando contratar mais novos médicos. O que tem acontecido é que os planos têm abandonado a idéia – aliás, o SUS também fez isso – de contratar os médicos pessoa física, o que era conhecido antigamente como o Tipo 7, onde se pagava o médico diretamente. O SUS não aceita mais essa situação. Os planos, por sua vez, não aceitam mais contratar os médicos e a relação se dá via hospital. E aí você tem que pagar ao hospital, que paga ai médico. Se atrasa o pagamento do hospital, atrasa também o que é repassado ao médico. Se você não paga o hospital, como é o caso do IH, não se paga também ao médico. E aí isto é uma cadeia completamente amarrada e totalmente interdependente. Um depende do outro. Não existe hospital sem médico, não existe médico sem hospital.