Tarcízio Pimenta: "Não posso governar a cidade para o meu grupo" - 27/04/2009
Filmagem e fotos: Tiago Melo/Bahia NotíciasEu não sou prefeito apenas no meu eleitorado, eu sou prefeito de toda a cidade e isso inclui os eleitores de outros partidos. Não posso governar a cidade para o meu grupo"
Por Daniel Pinto
Bahia Notícias - Quais foram os argumentos usados pela administração municipal para convencer o Ministério Público de que a realização da micareta não colocaria em risco as ações de combate à dengue?
Tarcízio Pimenta - Quando chegamos à Prefeitura percebemos que as notificações da dengue estavam aumentando. Os dados eram atualizados diariamente pela Vigilância Epidemiológica e comprovavam que o pior estava por vir. Então, tive que tomar algumas decisões em caráter de urgência. Quais foram as principais? Primeiro exigimos que os agentes de endemia não poderiam ser desviados de suas funções, o que era comum.
BN - Todo o efetivo foi destinado ao combate à dengue?
Pimenta - Todo mundo teve que abraçar essa missão. A decisão foi tomada através de decreto e também foi divulgado que quem não respeitasse a decisão estaria sujeito às penalidades do regime da administração. Além disso, nós intensificamos a limpeza urbana e fizemos investimentos acima do que estava previsto para eliminar os possíveis focos do mosquito. Também tomamos a iniciativa de limpar os terrenos baldios e até mesmo aéreas privadas. Sem contar o trabalho nas policlínicas que têm a obrigação de fazer os exames e se for constatado a dengue dar início ao tratamento e orientar o paciente. As policlínicas trabalham em parceria com a central de reidratarão municipal. Todo esse trabalho fez com que os números fossem diminuindo. Tudo isso que foi feito estava sendo informado ao Ministério Público Estadual. Então, o MPE entendeu que não havia necessidade de impedir a realização da micareta porque verificou que a Prefeitura fez de tudo para conter o avanço da dengue e que não desviaria recursos de outras aéreas para promoção da festa.

"Mas, isso não vai ficar assim. Já acionamos a Procuradoria-Geral do município com o objetivo de processar esse médico"
BN - Então o Sr. acha que foi uma atitude política do médico que pediu a intervenção do MPE?
Pimenta - Acredito que sim. O médico Eduardo Leite havia sido diretor do Hospital Clériston Andrade. A verdade é que ele não aceitou ser demitido e, numa explosão de rancor, decidiu tomar essa decisão. Não sei se ele tinha problemas com o secretário Jorge Solla (Saúde) ou com mais alguém, o certo é que ele prejudicou e muito a cidade de Feira de Santana. Agora, a festa aconteceu e graças a Deus não descuidamos da dengue, o trabalho continua. Mas, isso não vai ficar assim. Já acionamos a Procuradoria-Geral do município com o objetivo de processar esse médico.
BN - Que tipo de prejuízos essa campanha contra a micareta trouxe para Feira?
Pimenta - Sobretudo na economia da cidade. O comércio foi muito afetado. Muitos deixaram de vir por conta daquele alarde. O que atingiu também os blocos. Alguns não conseguiram vender todos os abadás. A rede hoteleira reclamou que a ocupação ficou abaixo do que era esperado. Até mesmo a OCP, empresa que ganhou a licitação para explorar a publicidade da festa, foi prejudicada e teve dificuldades para encontrar patrocinadores. Houve transtornos de toda natureza. Certamente, foi uma medida impensada do Dr. Eduardo Leite. Ele conseguiu até arranhar a imagem da nossa cidade.
BN - Como a micareta interfere na vida da cidade?
Pimenta - Interfere em vários aspectos, inclusive na questão do mercado informal e na geração de receita. Para você ter uma idéia, só a Prefeitura tem quase dois mil funcionários envolvidos com a realização da micareta. Além do lado festivo, a economia da cidade se aquece.
BN - Por que a Prefeitura decidiu eliminar os agenciadores para contratação dos artistas? Havia indícios de superfaturamento em gestões anteriores?
Pimenta - Olha Daniel, acho que foi a crise financeira que me fez tomar essa decisão. Não se trata de eliminar agenciadores e também não posso dizer que o modelo antigo não era correto. Cada um tem uma maneira de trabalhar. Alguns artistas, por exemplo, só negociam com as produtoras. Outros são mais abertos e fazem a negociação diretamente. Num momento tão delicado quanto esse que nós estamos passando havia apenas duas opções: não fazer a festa ou negociar os melhores preços. Nós optamos pela última.

"Essa consideração do governador é equivocada. Se nós temos uma arrecadação própria que é razoavelmente boa em relação a outros municípios, os nossos problemas são bem maiores"
BN - Prefeito, o vídeo em que o Sr. puxa um bloco com Carlinhos Brown já é um dos mais vistos do nosso site. Não sabia que o Sr. era um folião.
Pimenta - Não tem nenhum cidadão que não se empolgue com uma festa tão bonita (risos). Aquele colar foi o Carlinhos que me deu. Ele me presenteou e disse que era um gesto de carinho e amor. É bom estar perto daqueles que fazem a festa para a população. Se me convidarem eu vou novamente!
BN - Outro fato que teve grande repercussão foi a imagem do Sr. ao lado do deputado Zé Neto. Até pouco tempo isso era impensável. Feira vive realmente um novo momento político?
Pimenta - Veja bem, não podemos desconhecer as autoridades que representam a nossa cidade. O deputado Zé Neto não é um representante de Feira? Uma parcela da população votou nele e o escolheu para representá-la. Ninguém pode contrariar isso. Apesar de termos divergências no campo ideológico e político, ninguém pode deixar de reconhecer que o deputado Zé Neto faz um trabalho importante. Eu não sou prefeito apenas no meu eleitorado, eu sou prefeito de toda a cidade e isso inclui os eleitores de outros partidos. Não posso governar a cidade para o meu grupo.
BN - Os municípios baianos reclamam do Estado e do governo federal uma melhor distribuição do bolo fiscal. Mas, da última vez que esteve aqui na cidade, o governador disse que Feira não sofria com a redução, por exemplo, do FPM porque era uma cidade auto-suficiente. Até que ponto isso é verdade?
Pimenta - Não é bem assim! Essa consideração do governador é equivocada. Se nós temos uma arrecadação própria que é razoavelmente boa em relação a outros municípios, os nossos problemas são bem maiores. Nós temos mais postos de saúde, temos um quadro de limpeza urbana que é complexo, são quase 300 escolas municipais para tomar conta, além de tantas outras obrigações. Portanto, Feira depende sim dos repasses do Estado e da União. Quando um município perde arrecadação alguma coisa vai deixar de ser feita, investimentos serão cancelados. Os municípios não podem perder mais nada. Como é que o governo nos dá tantas atribuições e ainda quer diminuir nossa receita? Não podemos aceitar isso! Temos que protestar e exigir o que nos é de direito!

"Houve transtornos de toda natureza. Certamente, foi uma medida impensada do Dr. Eduardo Leite. Ele conseguiu até arranhar a imagem da nossa cidade"
BN - A sua vitória talvez tenha sido a maior conquista do seu grupo político na última eleição. Além disso, o Sr. sucedeu José Ronaldo que sempre foi bem avaliado e se tornou uma grande liderança do DEM. O Sr. teme comparações?
Pimenta - De forma alguma. Todo o governo de continuidade precisa aprimorar suas ferramentas e fazer novas investidas. Imagine se eu não tivesse realizado a micareta, o que iria dizer? As comparações são naturais. Por isso mesmo temos que aprimorar todos os serviços municipais. Agora, em muitos casos, quando um governo é contrário ele acaba desconstruindo tudo para prejudicar o sucessor.
BN - Qual a influência de Zé Ronaldo na administração municipal?
Pimenta - O ex-prefeito é uma liderança de nosso partido, ele é o coordenador político de nosso grupo. Feira de Santana se sente contemplada em ter uma liderança como Zé Ronaldo. Com certeza ele terá um voo maior em 2010.
BN - A falta dele foi sentida durante o micareta.
Pimenta - Ele marcou antecipadamente uma viagem e foi descansar com a família. Depois de oitos anos de governo era o mínimo que ele merecia. Em quatro meses de trabalho eu já estou até com mais cabelos brancos (risos). É bom que ele descanse porque quando voltar vai ter bastante trabalho já para a eleição de 2010.

"Como é que o governo nos dá tantas atribuições e ainda quer diminuir nossa receita? Não podemos aceitar isso! Temos que protestar e exigir o que nos é de direito"
BN - Especula-se que o ex-governador Paulo Souto pode ir para no PSDB. O que o Sr. acha dessa possibilidade? Caso isso aconteça, existe outro nome que possa disputar o governo do Estado pelo DEM?
Pimenta - O nosso grupo precisa fazer uma análise detalhada de todo esse processo. Nós temos que sentar, discutir e fazer uma grande reflexão sobre essa questão. O PSDB é um grande partido, mas na Bahia ainda não sabemos se ele é governo ou oposição. O partido está rachado e ainda não tem uma identidade própria. O PSDB tem grandes expressões políticas, mas precisa crescer ainda mais na Bahia. Já o Democratas todos sabem que está na oposição. Mas, pelo o que eu vejo desenhado aí, os dois partidos vão caminhar juntos na disputa pelo governo do Estado e pela presidência da República na próxima eleição.