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Entrevista

Nova secretária da Sepromi aposta em "transversalidade" da pasta para combate efetivo de questões históricas - 16/01/2023

Por Mauricio Leiro

Nova secretária da Sepromi aposta em "transversalidade" da pasta para combate efetivo de questões históricas - 16/01/2023
Foto: Igor Barreto / Bahia Notícias

Recém chegada à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Bahia (Sepromi), a militante da causa Ângela Guimarães tem como foco intensificar as ações no estado. Em entrevista ao Bahia Notícias, a nova secretária indicou que aposta na "transversalidade" da pasta para combate efetivo de questões históricas. 

 

"A Bahia tem ocupado um lugar de protagonismo nos últimos quatro anos. O nosso estado já avançou bastante e com a parceria do governo federal em avançar ainda mais. Cumprir uma demanda da sociedade, de um resgate de uma dívida histórica mas lançar um exercício de futuro. Acredito que os grupos organizados estão nesse sentido. Uma ação produtiva, os concursos públicos, aqui temos os marcos institucionais, único estado que tem política de financiamento. É uma expectativa grande e uma confiança grande dos coletivos que recebi", disse.

 

Ângela apontou ainda que a parceria com o governo federal pode facilitar a Bahia avançar em questões ainda pendentes no estado. "Estamos fazendo um balanço interno, estou lendo os relatórios de gestão e queremos alcançar o máximo de metas. De forma alinhada com o governo federal e os municípios, a gente vai conseguir ter esse alinhamento para ter resultados mais consistentes. Dos dez anos, os últimos seis foram de desmontes", explicou.

 

Veja a entrevista completa: 

 

Foto: Igor Barreto / Bahia Notícias

 

Como foi a chegada da senhora na secretaria? Como foram os debates para a nomeação e quais expectativas neste primeiro momento?

Foi cercada de uma boa receptividade do público que é demandante das políticas da secretaria. Venho desta luta antirracista, me dedico há 23 anos. Inclusive tendo participado dos debates, discussões, inclusive no plano nacional. Da lei de cotas, inclusive no STF. A conquista da lei de cotas no serviço público. Tenho estada em relação ao tema. Foi uma discussão partidária, do PCdoB. O partido conversou sobre a ampliação dos espaços e por consenso acabou chegando a esse lugar. Um lugar que é muito valorizado e reconhecido por nós. A única Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, nós temos 15 anos de uma trajetória de avanços. A Bahia tem legislação que não tem em lugar nenhum do Brasil. A Bahia tem ocupado um lugar de protagonismo nos últimos quatro anos. O nosso estado já avançou bastante e com a parceria do governo federal em avançar ainda mais. Cumprir uma demanda da sociedade, de um resgate de uma dívida histórica mas lançar um exercício de futuro. Acredito que os grupos organizados estão nesse sentido. Uma ação produtiva, os concursos públicos, aqui temos os marcos institucionais, único estado que tem política de financiamento. É uma expectativa grande e uma confiança grande dos coletivos que recebi. 

 

A Sepromi tem temas de intercessão com outras secretarias. Como está o debate com outras pastas da gestão?

A história da Sepromi é de atuação na transversalidade com outras políticas. Na educação temos editais para apoiar projetos educacionais para a implementação de leis de ensino de cultura afro-brasileira e indigena. Na saúde, está em discussão um centro de atendimento de doenças prevalentes na população negra e dois editais de pesquisas dessas doenças com a Sesab e a Secti. Com os direitos humanos, compreendendo as sistemáticas violações da população. O governador Jerônimo já apontou a redução de vulnerabilidade da juventude negra, eu considero que a transversalidade, embora tenhamos muitas ações de ponta, essa articulação com outras áreas se faz necessária. O enfrentamento do racismo e desigualdade precisam ser encarados com tarefa de governo. Temos uma legislação que é perene. Consideramos como um compromisso do estado e com o governador Jerônimo. 

 

E falando da segurança pública, como tem sido com esta pasta em específico? A Sepromi vai focar nisso também?

Tem uma orientação inicial do governador em entrevista após a posse. Que a compreensão do serviço público precisa atuar com transparência, ele é um apoiador e acompanha a finalização da licitação para a instalação de câmeras no fardamento das polícias. Isso é muito bom, pois em outros estados vimos uma redução brusca em casos de violência envolvendo pessoas negras e vulneráveis. A Sepromi já desenvolve um programa de enfrentamento ao racismo institucional, ele não se manifesta apenas no âmbito da segurança e isso torna a população negra mais vulnerável. Não é só policial, mas do crime, como organização, facções e grupos de extermínio. Iniciamos as tratativas e vamos atuar por esse comitê de gestão integrada. 

 

A senhora comenta sobre avanços no estado da Bahia, ainda vemos índices preocupantes de letalidade policial, como a senhora analisa os últimos oito anos de governo Rui Costa?

Considero que temos uma tradição de políticas de segurança pública bem complexas. Jerônimo já apontou esse elemento das câmeras no fardamento, mas uma mudança na construção de uma mentalidade precisa do envolvimento do conjunto da sociedade. A sensação de segurança pública, que uma parcela expressiva da população baiana coaduna com essas práticas. É uma mudança de cultura institucional, mas uma disputa de ideias na sociedade. Que não seja uma pauta da Sepromi ou Jerônimo. Que exista uma compreensão que o racismo seja o orientador e ele seja tolerado. É uma mudança de médio e longo prazo. 

 

Foto: Igor Barreto / Bahia Notícias

 

Estamos findando a "década do afrodescente" em 2024, gostaria que a senhora fizesse um balanço sobre os avanços e o que ainda pode ser feito. O que teremos para a próxima década?

A Bahia tem ocupado um lugar de destaque. Único estado brasileiro a aderir a proposição da ONU. Realizar esforços para combater o racismo na população. Temos um plano e aqui no nosso estado temos avanço. Não duvido que enfrentar o racismo que durou 400 anos, demanda da gente um prazo maior. Estamos fazendo um balanço interno, estou lendo os relatórios de gestão e queremos alcançar o máximo de metas. De forma alinhada com o governo federal e os municípios, a gente vai conseguir ter esse alinhamento para ter resultados mais consistentes. Dos dez anos, os últimos seis foram de desmontes. Faltam quase dois anos e nos comprometemos mas achamos que é necessário renovar para mais dez. Pensamos em renovar algumas questões, ampliar, por exemplo, a questão de cotas, estendendo por mais 10 anos, já que não é possível aferir. Queremos aperfeiçoar também, como exemplo as bancas de heteroidentificação. Nosso papel é não só defender a legislação, mas averiguar a validade. 

 

A senhora também é presidente da Unegro, mas como o país como um todo para avançar nas questões que a Sepromi se debruça?

O trabalho nacional é de reconstrução. Não só o ministério foi desmontado, mas colocado em órgão estratégicos verdadeiros inimigos na gestão Bolsonaro. O programa de governo de Lula para combater a fome, terá nessa população o público prioritário. Quando fazemos um raio-x vemos que esse é o alvo. Tanto quanto essas ações, como ações de permanência na universidade e pesquisa científica para pessoas negras, precisam ser recriados. Isso é condição para a juventude negra. Essas e questões da saúde, o Minha Casa, Minha vida, políticas de estratégia de desenvolvimento nacional, o salário mínimo, de populações negras em grandes obras, vai ajudar a tirar a população desta condição.

 

A senhora é uma das mulheres à frente de uma secretaria do governo de Jerônimo Rodrigues. De fato existe uma mudança na ideia de inclusão?

Tenho. A cada novo ciclo de governo, por já termos dado conta, é que a gente busca avançar. Essa sensibilidade e vontade de construir a política pública de forma conjunta, com ausculta aos movimentos é uma característica de nosso governador. 

 

Foto: Igor Barreto / Bahia Notícias

 

A senhora já teve a experiência de disputar uma eleição, disputou uma cadeira na Câmara Municipal de Salvador sem sucesso. Ainda pensa em disputar?

Ainda é prematuro. Estou muito empolgada nas ações que queremos realizar. Acabo sonhando com ações. Temos estratégias e estamos mergulhadas. Mas sou uma mulher de partido, estou há mais de 20 anos e faço parte da discussão de uma estratégia coletiva. Mas agora estou mergulhada à frente das ações da Promoção da Igualdade Racial da Bahia. 

 

A senhora é muito ligada a moviemntos negros, como a política pode ajudar no debate sobre essas questões?

A política é instrumento de fazer transformação social. Fui de diversos grupos, teatro popular, leitura, dança. Na faculdade fui para o movimeto negro. Conseguir expressar as demandas de movimento que são maioria, é algo que marca minha vida. Inclusive agora na gestão da secretaria. Preparar quadros para a disputa de poder, eleitorais, é uma forma dessas demandas ecoarem. Terem mais visibilidade.