Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
Você está em:
/
Entrevistas

Entrevista

Naira Gomes crítica ausência de propostas e discussões de pautas raciais na política - 19/10/2022

Por Leonardo Almeida

Naira Gomes crítica ausência de propostas e discussões de pautas raciais na política - 19/10/2022
Foto: Reprodução

Naira Gomes é cofundadora da Marcha do Empoderamento Crespo, um coletivo comprometido com a expansão da discussão de pautas raciais que, inclusive, já reuniu milhares de pessoas nas ruas de Salvador. Além de ativista, Naira é pesquisadora, antropóloga e também tem passagens pela política, sendo candidata a vereadora em 2020 e como assessora parlamentar na Câmara Municipal de Salvador (CMS) e na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA).

 

Apesar de reconhecer um progresso, Naira Gomes criticou as a ausência de propostas de pautas raciais dos candidatos, levando em consideração que a maior parte da Bahia são categorizados como negros. Segundo a pesquisadora, a questão racial deveria ser um dos centros do debate político, porém não é algo que vem acontecendo.

 

“Em relação a propostas eu vejo pouco. basicamente, não temos falado sobre violência contra a mulher, a gente não tem falado da precariedade do trabalho da mulher negra, que empreende por necessidade. Por exemplo, estamos acompanhando agora as mulheres marisqueiras na Bahia inteira que passam por diversos problemas, inclusive, um problema que é literalmente lama dentro do útero”, afirmou Naira.

 

A antropóloga também defendeu a implementação de uma banca etnoclassificação para evitar o acontecimento de fraudes, por conta do uso da cota de fundo eleitoral para pessoas negras.

 

“As cotas, principalmente os concursos públicos para altos salários, tinha muita fraude. As pessoas mandavam fotos adulteradas. Tem que ter uma banca de etnoclassificação para que não haja fraude. Atualmente, a cada 10 concursos em São Paulo, quatro têm fraude quando não tem banca”, disse Naira Gomes. Confira a entrevista completa:

 

Foto: Arquivo Pessoal

 

Você como ativista política, mas também como pesquisadora, como enxerga as propostas com pautas raciais nas eleições deste ano?

Olha, sinceramente, em relação a propostas eu vejo pouco, para o tamanho que a questão é. Para falar de Salvador, somos mais de 80%, para falar de Brasil nós somos mais de 52%. Sendo que essa cor marca classe, no Brasil são pretos e partos portanto são os negros. Então o tema deveria ser a pauta central dentro da plataforma de propostas, no entanto, não é. Parece que há um mito muito grande de falar branco e ,egro dentro da campanha eleitoral. Há uma um medo de falar negro e perder o voto dos brancos, de falar negro e perder o voto de quem acha que aqui basta também basta batalhar, merecer, acordar cedo e estudar. Eu não tô falando só de brancos, infelizmente alguma parcela de negros ainda pensa assim, porque nós somos ensinados assim. A gente que é militante, nós lemos o plano de governo, mas a televisão, o debate, que é o que chega ao grande público, a gente não vê essa pauta chegar com força, muito menos inclusive, cruzando com a pauta de g?nero. Basicamente, não temos falado sobre violência contra a mulher, a gente não tem falado da precariedade do trabalho da mulher negra, que empreende por necessidade. Por exemplo, estamos acompanhando agora as mulheres marisqueiras na Bahia inteira que passam por diversos problemas, inclusive, um problema que é literalmente lama dentro do útero. Então, a gente não tem percebido esses problemas reais refletidos nas propostas, nós estamos caminhando, mas ainda de forma insuficiente para o tamanho do problema. 

 

O que pode ser feito para o acréscimo e/ou aprimoramento das propostas atual apresentadas pelos candidatos?

O problema é tanto no quantitativo, quanto para o qualitativo. Por exemplo, concretizar a lei, que já está vencida, de universalizar as bibliotecas das escolas do Brasil. Também temos que colocar uma assistente social e uma psicóloga em todas as escolas do país, já são lei homologadas e uma delas tinha um prazo, a das bibliotecas. Olha a revolução que teria essas duas ações, eu ainda vou linkar elas com uma coisa que eu acho fundamental nesse momento pós-pandêmico, que sempre foi um problema de saúde pública, que é a depressão e a ansiedade. O sistema de saúde pública da população negra já tem a identidade, jovem negro, e a perspectiva de permanência na escola como um dos principais fatores de proteção ou não dos jovens contra a depressão. Então um psicólogo em uma unidade escolar periférica faz muita diferença, um psicólogo anti-racista, não precisa ser necessariamente um negro. Estamos vivendo uma outra pandemia, que é a da depressão, a gente da Marcha acompanha muitos estudantes e a gente percebe a depressão como um grande momento. Estive em uma Instituição Federal, onde teve uma palestra sobre saúde mental e empoderamento, seis dias depois a professora contabilizou na própria instituição, três tentativas de suicídio. No Brasil, são os negros jovens que mais adoecem, porque depressão tem a ver com desesperança, falta de emprego, falta de segurança alimentar e falta de segurança para os filhos.

 

O Brasil é um país com uma mestiçagem muito forte, o que causa confusão em relação às autodeclarações raciais. O Bahia Notícias fez um levantamento no qual constatou que 26 candidatos mudaram sua autoafirmação de brancos para negros, no que se deve essas mudanças? Busca por cota eleitoral?

Houve pessoas indubitavelmente brancas, dando ênfase no indubitavelmente, que realizaram a mudança. O Brasil é um país que tem de fato uma colorimetria muito grande e muito cheio de nuances. A teoria racial brasileira se define na cor da pele, o traço fenotípico, é o fator mais importante para determinar a cor e raça. Porém, observações de outros autores e também minha, fala que você pode ser claro o quanto for, mas se seu cabelo for crespo, você não é branco. Existe no Brasil um limite muito deliciado de pessoas claras, mas com traços negróides, como o cabelo crespo, o nariz, a boca, que também são negros. Porém, existem figuras políticas que são indubitavelmente brancas, acho, inclusive, que foi uma conta de marketing mal feita, as pessoas da periferia estão revoltadas. As cotas, principalmente os concursos públicos para altos salários, tinha muita fraude. As pessoas mandavam fotos adulteradas. Tem que ter uma banca de etnoclassificação para que não haja fraude. Atualmente, a cada 10 concursos em São Paulo, quatro têm fraude quando não tem banca. A gente não conhece o básico da teoria racial do Brasil, as pessoas não sabem que pardos são negros, quando participei das bancas, foi o que mais me impressionou. A gente fala de negros as pessoas remetem aos retintos, mas os retintos no Brasil são 6%. Os outros tons de marrom, do marrom escuro, marrom claro são de fato os pardos do Brasil. Existem vários fatores para essas mudanças nas autodeclarações raciais: desinformação, mau-caratismo político, usurpação da história e descompromisso com a justiça.

 

Sobre o conceito de pardo. Ele antigamente foi utilizado para a classificação de pessoas indígenas e, depois, foi usado para determinar mestiços. Essa confusão com a nomenclatura não acabou colaborando para a questão da desinformação também?

Com certeza colaborou também. Mas sabe o que é? Antigamente não se tinha nenhuma disputa de vantagem em torno da autoclassificação racial. Se colocava no RG para qualquer pessoa que o não servidor via como um branco clássico ou um negro clássico, aí era colocado como pardo. Mas hoje que a gente tem políticas, que o cerne é justamente a diferença entre brancos e negros, aí agora todo mundo que, por algum momento, porque alguém pensou ou porque não definiu sua raça e sua cor quer estar nesse lugar. Estive em um debate sobre colorismo, e discutimos que ter a categoria pardo no IBGE é uma afronta ao movimento negro, porque a gente já discutiu o quanto o conceito de pardo esvazia o conteúdo político do quanto que a gente lutou para constituir o negro. Mas a gente também sabe que muitas pessoas têm dificuldade de se dizer preto ou negro e se tem que criar essa categoria para essas outras pessoas. O conceito de negro claro ou negro escuro, não nos fere enquanto negros, mas retira o pardo do meio da polêmica. O pardo foi colocado de uma forma de fugir do preto e uma forma de ser objeto, de ser uma coisa não humana e é muito do que faz o racismo, que é desumanizar as pessoas negras. Então uma outra alternativa que seria muito interessante, mais correspondente a intenção do movimento negro, seria de dar nomenclaturas a essa diversidade gigante, que no Brasil realmente é um país que tem um espectro de cores negras muito grande. É difícil, é muita coisa, mas a gente precisa de políticas refinadas e não colocar todo mundo em um único pacote, porque o Brasil tem de tudo e nós estamos criando uma consciência racial muito insípida, muito iniciante, muito frágil.