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Entrevistas

Entrevista

Geddel Vieira Lima reivindica presidência da Câmara de Salvador: "Maior bancada" - 13/01/2009

Por Alexandre Costa

Fotos: Max Haack/Bahia Notícias

"O PMDB tem a maior bancada e tem mais que qualquer outro legitimidade política para reivindicar a presidência"

Por Alexandre Costa

Bahia Notícias – Ministro, o vereador Alfredo Mangueira (PMDB) já explicou ao senhor as razões que o levaram a renunciar ao mandato na Câmara de Vereadores de Salvador? Ele conversou com o senhor antes de tomar essa decisão?

Geddel Vieira Lima – Ele não conversou comigo antes do episódio senão para me comunicar da decisão, em nome da preservação da estrutura da sua família. Portanto, reafirmo que reagi como todos: com absoluta surpresa.

BN – Não houve tempo do senhor ou de alguém do partido tentar convencê-lo do contrário?

Geddel – Não. Quando o vereador Alfredo Mangueira falou comigo já era decisão de caráter imutável.

BN – Os jornais publicaram reportagens apontando como real motivo da renúncia o envolvimento de Mangueira com o jogo do bicho. Esse envolvimento chegou a ser discutido dentro do PMDB ou pelo senhor antes da eleição para a presidência da Câmara?

Geddel – Eu tive uma única conversa prévia com o vereador Alfredo Mangueira, quando diretamente, como é do meu estilo, perguntei a ele sobre essas histórias que permeavam o noticiário de que ele poderia ter vinculação com a contravenção. Ele deixou claro que não tinha nenhum vínculo a essa estrutura e que, portanto, se sentia livre para exercitar na sua plenitude o mandato que a população de Salvador lhe deu, e disputar presidência Câmara. Com isso, ele ficou livre de qualquer constrangimento partidário para entrar na disputa. Daí a minha surpresa ainda maior de ver que a decisão dele de se afastar possa ter algum vínculo com essa estrutura. Prefiro acreditar no que ele me disse, que renunciou em função de algum grave problema familiar.

BN – Como fica a situação dele agora dentro do PMDB? Agora há constrangimento?

Geddel – Em absoluto. O vereador Alfredo Mangueira é bemquisto entre os pares e por importante parcela da população de Salvador. Na minha avaliação, do ponto de vista político, quem tem questionamentos a ser feitos pela opinião pública deixa de ter resposta para dar quando por ela é aprovada por meio de eleições. No partido, não há nenhum tipo de constrangimento, desde que ele respeite as decisões majoritárias da bancada e do PMDB.

BN – Mas a renúncia enfraquece o PMDB na Câmara?

Geddel – Em absoluto. A bancada tem seis vereadores e vai pleitear a manutenção da presidência com um nome do PMDB. Apesar de reconhecer a legitimidade do pleito do vereador Paulo Magalhães, que é da base aliada do prefeito João Henrique (PMDB) e o ajudou a eleger no segundo turno das eleições do ano passado. Um vereador que certamente no futuro terá direito a reivindicar qualquer outro espaço e poderá contar com o apoio do PMDB, inclusive. Nesse momento, a circunstância, no entanto, nos obriga a ter candidato com o PMDB.

BN – Então o senhor não tem dúvidas de que tem de haver uma nova eleição, apesar do regimento da Câmara ser omisso sobre o assunto?

Geddel - A eleição tem de haver tanto do ponto de vista político quanto jurídico, não tenho dúvidas. Do ponto de vista jurídico, é importante reafirmar que, por conta dos caminhos e descaminhos do Legislativo, você termina votando individualmente em cada membro da Mesa Diretora. Ou seja, a gente não pode dizer que o vice seja votado com perspectiva de poder futuro.

BN – O senhor acredita que uma nova eleição na Câmara pode colocar em xeque a novíssima aliança entre o PMDB e o DEM em Salvador?

Geddel – Não acredito. É legítimo que, num primeiro momento, todos coloquem suas posições para o debate. Mas no momento oportuno afunila para o consenso. O PMDB tem a maior bancada e tem mais que qualquer outro legitimidade política para reivindicar a presidência, sobretudo numa circunstância como essa, quando uma posição individual de um vereador termina deixando um espaço que o PMDB conquistou. Espero, desse modo, que o consenso prevaleça e que possa envolver até a oposição. Mas friso que esse é um assunto da competência dos vereadores. Estou apenas aqui emitindo uma opinião como homem público.

BN – Na Assembléia Legislativa, já circulam informações de que o PMDB, ao lado da oposição, vai apoiar a candidatura do deputado Elmar Nascimento (PR), abrindo mão de lançar um nome.

Geddel – O deputado Elmar Nascimento faz parte de um partido que integra a base de sustentação do governo Lula, tendo até ministério. Já disse ao governador pessoalmente das nossas dificuldades políticas, e não pessoais, de apoiar o deputado Marcelo Nilo (PSDB). Primeiro por ele ser de partido da oposição a Lula. E, segundo, por ser alguém que firmou com a bancada do PMDB um compromisso de não postular a reeleição, o que abriu legitimas pretensões dentro da nossa bancada e que não não podem ser frustradas por revisão uma revisão unilateral. De modo que o PMDB pode sim apoiar outro candidato da base.

BN – Mas o PR não faz parte da base de Wagner?

Geddel – Mas não faz oposição. O deputado Elmar, inclusive, segundo as notícias não desmentidas, foi alguém que o próprio governo quis como secretário. Ou seja, não é e não será uma figura hostil ao governador.


"Caetano até seria um grande candidato se não fosse governante de uma prefeitura riquíssima"

BN – Dentro desse raciocínio, o PMDB não apoiaria a candidatura de Gildásio Penedo, nome lançado pelo DEM?

Geddel -  É, eu acho que não seria o natural. Aí seria algo para ser trabalhado com muito cuidado. Tenho o maior respeito pela atividade parlamentar do deputado Gildásio, mas ele tem feito, numa postura muito honesta, o papel de oposição muito dura, o que acho que, nesse momento, cria dificuldades para um apoio.

BN – Na União dos Municípios da Bahia (UPB), onde ocorrerá outra eleição, deverá haver bate-chapa entre PMDB e PT....

Geddel - É natural. Eu preferia que não houvesse, que o PT reconhecesse que elegemos 117 prefeitos e que saímos das urnas com como o partido que tem a maior legitimidade para presidir a entidade. O próprio governador disse a mim que Roberto Maia (prefeito de Bom Jesus da Lapa e candidato do PMDB à presidência da UPB) era um grande nome e que não tinha nada a se opor, o que até serviu de estímulo para a candidatura dele.

BN – O senhor vai atuar para garantir a vitória de Roberto Maia?

Geddel – Não. Torço por uma vitória de Roberto Maia porque ele é um quadro que, além de qualificado, representa princípios importantes para que a política não se transforme em uma selva, que é o fato de que saímos das urnas com o maior número de prefeitos. Acredito que o entendimento deve ser buscado até o fim. Se não houver o entendimento, vamos para a disputa democrática, onde quem ganhar leva e quem perde faz oposição. Como nessa associação de prefeitos não cabe oposição, quem perde espera por uma nova oportunidade.

BN – Como o senhor viu a atitude do prefeito de Camaçari, Luiz Caetano, candidato do PT, de dizer que retiraria a candidatura em nome do consenso somente se o PMDB não tivesse candidato, isso apenas alguns dias após sinalizar pelo apoio ao PMDB?

Geddel – Prefiro não comentar. O veto é algo odioso. A política deve ser feita com base em alguma lógica. Se é apenas uma colocação, ficam como palavras soltas ao vento. Caetano até seria um grande candidato se não fosse governante de uma prefeitura riquíssima, e a associação tem de olhar pelos pequenos prefeitos, que são aqueles que mais sofrem. Por isso, e por outros motivos também, creio no favoritismo da candidatura de Roberto Maia, que governa uma cidade com profundas dificuldades administrativas.

BN – Passado o calor do momento, como o senhor avalia hoje as declarações do governador Jaques Wagner, feitas através da sua assessoria, sobre o rompimento político com o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB)?

Geddel - Acho própria do calor do momento. Às vezes isso só é ruim porque termina permitindo especulações de que o governador fica querendo escolher adversário quando o PMDB deseja tanto marchar com ele. Acho que aí tem um fato que se sobrepõe a isso, que seria preocupante. A democracia evoluiu, os políticos estão mais maduros e os meios de comunicação estão mais vigilantes, o que significa dizer que eventuais divergências entre homens públicos não podem prejudicar a cidade. O que interessa é que tanto o governador quanto o prefeito se respeitem e, para isso, não precisam ser amigos e se encontrarem.

BN – Um rompimento colocaria o PMDB na oposição em todo o estado?

Geddel - Não consigo entender como um governador pode romper politicamente com um prefeito sem que isso envolva partidos.

BN – Se o senhor pudesse usar uma palavra ou expressão para definir hoje a relação entre o PMDB e o governo Wagner, em função dos atritos com o PT, qual seria ela?

Geddel – Eu diria: não tão próximas como eu gostaria.

BN – Com que freqüência o senhor conversa atualmente com o governador?

Geddel – A necessária. Sempre que preciso converso com ele. Não há nenhum tipo e mal-estar pessoal entre mim e o governador Wagner. Afinal ele é governador e eu sou um ministro. Ainda que houvesse, e não há, problemas de ordem pessoal, tínhamos de preservar a relação.

BN – E com o ex-governador Paulo Souto, com que freqüência o senhor conversa?

Geddel - Eu não tenho nenhuma frenquência de conversa com o governador Paulo Souto. Encontro com ele em circunstâncias sociais e discuto um ou outro tema político, mas sem nenhuma freqüência que possa merecer registro.

BN – O senhor se coloca sempre como grande aliado do presidente Lula. Se o presidente lhe pedisse para ser vice numa chapa presidencial encabeçada pelo PT em 2010, o que o senhor diria?

Geddel - Aí você tem de compreender que eu teria que aguardar o presidente tomar essa iniciativa. Só tomei conhecimento disso por especulações de jornal, o que, por si só, me honra e enobrece. Mas não significa que faça parte de minhas ambições.

BN – Que avaliação o senhor faz dessa metade de governo Wagner?

Geddel – Tem coisas positivas e negativas. Muitas coisas eu faria diferente.

BN – O que por exemplo?

Geddel – O tratamento dado à segurança pública e à saúde, por exemplo. Mas o governador é Wagner, e não Geddel. Portanto, quem tem de fazer uma avaliação concreta é ele.


"Se Lula pudesse disputar novamente a reeleição, teria de ter 100% do apoio do PMDB"

BN – Em 2010, os senhor tem preferência pela candidatura ao Senado ou ao governo?

Geddel – Veja bem. Qualquer um dos cargos enobrece qualquer homem público. Mas por mais que eu diga, menos as pessoas entendem. Eu faço vida pública e me realizo ao beneficiar as pessoas. Eu me gratifico quando vejo obras que ajudei a construir, como a Avenida Centenário, beneficiar principalmente os mais pobres. Obras no interior que possam significar mais bem-estar social para as pessoas. Sou um homem da política, gosto da vida pública. E quem gosta da vida pública dizer que não gostaria de ter a oportunidade de governar seu estado estaria mentido. Se você me devolver a pergunta questionando se tenho ambição ou obsessão em ser governador, eu diria que não, pois isso é destino. Se tiver escrito nas estrelas que eu serei governador, eu tratarei de fazer o melhor governo que essa terra já viu. Se isso não tiver escrito nas estrelas, não carregarei na alma nenhuma frustração ou tristeza, pois encontrarei outra forma de servir ao meu estado e aos baianos, como tenho feito até hoje. Não sou homem de ambições imensuráveis. Tenho sim propostas e projetos e não tem medo de realizá-los, não tenho medo da critica, do erro, da decisão. De modo que as especulações não me intimidam.

BN – Em se mantendo a aliança estadual com o PT em 2010, o senhor seria candidato natural ao Senado?

Geddel – Considero que, na vida pública, temos de matar um leão a cada dia. Temos de demonstrar capacidade e competência para, a partir daí, sermos retribuídos pela população, galgando outros postos. Por isso durmo pouco, afinal terei a eternidade para dormir. De modo que não existe isso de candidatura natural.

BN – Que realizações o senhor destaca como marcas do seu ministério em 2008 e quais as prioridades para 2009 para a Bahia?

Geddel – Vou lhe citar dois grandes projetos de irrigação que tirei do papel realizados na Bahia: o Salitre e o Baixio. Já no primeiro semestre deste ano, queremos lançar a primeira etapa do Baixio, com a vinda do presidente Lula. Além disso, em parceria com diversas prefeituras, fizemos investimentos em obras de contenção de encostas, de drenagem e pavimentação. E vamos fazer mais. Quero já nos próximos 15 dias assinar convênios e obras com o prefeito João Henrique, e essa informação lhe dou em primeira mão. Portanto, a prioridade do ministério é continuar investindo em irrigação, geração de emprego através do estímulo às vocações regionais.

BN – A maior obra do seu ministério é a transposição. A Casa Civil já tem notícias de que o Tribunal de Contas da União (TCU) pode atrasar a obra alegando irregularidades...

Geddel – Em absoluto. A obra está em pleno processo de andamento com seu cronograma normal, claro que com dificuldades como enchentes, o que atrasa um pouco.

BN – O presidente já disse que quer visitar as obras. Quando isso vai acontecer?

Geddel – Estamos agendando. Tenho conversado com ele sobre isso e já entreguei para a área da segurança e do cerimonial da Presidência uma relação de obras passíveis de visitas, tanto na área do esgotamento sanitário para despoluir o rio, que estão adiantadíssimas, com mais de 40 licitações já iniciadas, quando de recomposição de margens, isso dentro da revitalização, que está bem adiantada. Essa visita deve ocorrer em março.

BN – Como o senhor ver a disposição do PMDB de ocupar tanto a presidência da Câmara Federal quanto do Senado?

Geddel – Acho que o PMDB poderia criar um clima de composição para a eleição de Tião Viana (PT-AC) no Senado. Apesar de ser majoritário nas duas Casas, o PMDB poderia abrir espaço para a composição para que não queiram imputar ao PMDB uma característica de defesa da hegemonia, tese que não concordo. Posturas hegemônicas nunca são boas na vida pública. Mas eu respeito a autonomia do Congresso.

BN – É por isso que o PMDB não deve ter candidato na Assembléia Legislativa da Bahia? Ou não terá candidato temendo pagar o ônus de uma derrota?

Geddel - Primeiro deixo claro que não temo derrotas nem disputas. Se ganha e se perde e a vida continua. Se o PMDB não lançar candidato é porque não encontrou no governador apoio para ter candidato. O deputado Leur Lomanto Júnior, por exemplo, tem dado sucessivas demonstrações de lealdade ao governador e preenche os requisitos para ser candidato, pois é da base de sustentação. Mas se o PT legitimamente prefere abrir mão do que para nós seria o caminho natural, que era lançar o candidato de consenso, evidentemente que ninguém pode nos impedir de apoiar qualquer nome. Ao abrir mão de lançar candidato, mostramos exatamente que não queremos adotar posições hegemônicas.

BN – O governador José Serra (PSDB) pode ter o apoio do PMDB nas eleições presidenciais de 2010?

Geddel – Tudo é possível. Se Lula pudesse disputar novamente a reeleição, teria de ter 100% do apoio do PMDB. O fato de que isso não vai ocorrer faz com que segmentos do partido defendam outra postura na convenção. Vou defender a tese de preservação da aliança (com o PT). Se eu for derrotado na convenção, estarei sempre com o meu partido.

BN – Petistas costumam dizer que o senhor tem uma dívida muito grande de gratidão com o presidente, com Wagner com o próprio PT, afinal foi a partir da indicação do senhor para o ministério, feita por Lula com o apoio de Wagner, é que o PMDB deu um salto na Bahia. O senhor tem mesmo essa dívida de gratidão?

Geddel  - Sou um homem grato a tudo e a todos. O que não tenho é subserviência. Como tenho certeza que o PT e sobretudo Wagner tem muita gratidão a mim. A eleição do governador antecedeu antes da minha chegada ao ministério e teve em mim um apoiador que eles mesmo proclamam que foi de muito peso. Acho que todos devem ser gratos a todos.

BN – O senhor é a favor da fidelidade partidária?

Geddel – Defendo que a fidelidade partidária seja uma regra preservada de forma intransigente e radical. É sempre bom lembrar que os jovens são muito arredios aos conselhos, mas são muito sensíveis aos exemplos. O exemplo que posso oferecer nessa entrevista é lembrar que nunca tive, apesar de todas as oportunidades, outro partido que não o PMDB. Nunca empunhei outra bandeira e cantei outro hino. Para mim isso é uma doutrina, ou seja, é inegociável.

BN – Geddel é mesmo o cara?

Geddel – É, tão dizendo isso por aí. Mas eu repito: sou um homem comprometido com os interesses da Bahia e, enquanto força eu tiver, vou lutar pelos interesses do estado onde nascecam meus bisavós, meus avós, meus pais, onde eu nasci e nasceram as minhas filhas e onde um dia quero morrer.