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Entrevistas

Entrevista

Alfredo Mangueira revela detalhes da articulação para assumir Câmara de Salvador antes de renunciar - 05/01/2009

Por Daniel Pinto

Fotos: Max Haack/Bahia Notícias
"O resultado das urnas não quer dizer que a Câmara não tenha sido bem avaliada. O povo não repugnou a Câmara"

Por Daniel Pinto

Bahia Notícias - Mangueira, o sr. trabalhou bastante nos bastidores para que fosse o único candidato à presidência da Câmara Municipal, mas não obteve sucesso. Faltou habilidade do negociador ou a oposição foi intransigente?

Alfredo Mangueira - Em primeiro lugar, eu não trabalhei nos bastidores para nada. Minha candidatura veio de cima, dos colegas. Apesar de ter experiência e de ter ajudado bastante os meus antecessores, não era minha intenção presidir essa Casa. Meu nome foi lançado.

BN - Lembro que desde o início do ano passado se falava nisso. “Mangueira é o homem!”, diziam.

AM - Verdade! Foi justamente o que aconteceu. A partir de então comecei a pensar na idéia. Não podia dizer não. Diferente da forma que você colocou, não foi nos bastidores, mas, sim, na amizade que dei início ao trabalho. Olha, sobre o caso do PT, o presidente do meu partido, Lúcio Vieira Lima, me ligou antes do Natal e disse “o PT que fazer um acordo, eles vão te procurar”. Então, eu aguardei até o dia 30 quando eles me procuraram e disseram que iriam discutir com o PCdoB. Depois, eles chegaram e pleitearam algumas partes na Mesa, mas a chapa já estava fechada. Mesmo assim, reuni todo mundo e conversei na intenção de chegar a um consenso. Entretanto, já sabia que estava em cima da hora.

BN - Mas, há muito o PT falava em candidatura própria.

AM - Justamente! Eles trabalharam com nomes de dois colegas nossos, mas não conseguiram nada. Em seguida, eles tentaram um acordo já em cima da hora. Depois, partiram para o bate-chapa.

BN - O sr. fazia questão do PT e PCdoB na Mesa?

AM - Sem dúvida! Só para você ter uma idéia, na eleição passada mesmo tendo nomes na Mesa eles votaram contra Valdenor. Tentei o consenso, mas foi até bom assim.

BN - Fazia tempo que não havia um confronto de duas candidaturas aqui na Câmara.

AM - Acho que 20 anos. Mesmo assim, ninguém foi eleito por unanimidade. Mesmo no consenso, você vê que houve votos em branco.


"Tentei o consenso, mas foi até bom assim"

BN - Verdade que o PT lhe pediu a 1º vice-presidência, a 1º secretaria e a corregedoria da Casa?

AM - Eles queriam os dois principais cargos que você listou. 

BN - Presidente, o sr. temeu perder a eleição depois da inscrição da chapa da oposição? O risco ficava por conta da inexperiência de alguns parlamentares que estavam “debutando” na Câmara.

AM - Daniel, se a candidatura fosse apenas minha eu podia dizer até que sim. Mas, foi o sentimento da Casa que me fez candidato. Portanto, eu sabia que estava firme.

BN - Seus primeiros atos como chefe do Legislativo municipal foram acabar com a verba indenizatória e rever o Regimento Interno da Casa (ver nota). Mas, o antigo presidente deixou uma dívida de quase R$ 3 milhões, incluindo o pagamento irregular de verba de gabinete, multas aplicadas pela Justiça e o ressarcimento de encargos por pagamento em atraso de contas de energia e telefone. O sr. vai assumir esses compromissos? Como pretende equacionar essa conta se o orçamento para 2009 já foi aprovado?

AM - Deixa eu te dizer uma coisa: eu não posso acabar de uma vez por todas com a verba indenizatória. Essa foi uma lei aprovada pela Casa, eu apenas suspendi para aguardar uma posição da Justiça. Sobre as dívidas, esse compromisso recai sobre o antigo gestor. Hoje, a Câmara não é responsável por nada disso.

BN - Quais itens do Regimento Interno precisam ser revistos com urgência?

AM - Logo depois do recesso, vamos formar uma comissão para se debruçar sobre essa questão. A intenção é que todos os partidos destaquem um representante para rediscutir o Regimento Interno da Câmara. Olha Daniel, na verdade todo o Regimento precisa ser revisto. Há brechas e imperfeições em praticamente todos os artigos. O objetivo é torná-lo bem claro, de fácil entendimento e adequá-lo a nova conjuntura política do Parlamento.

BN - Nesses termos, então a reforma vai acabar sendo um legado para a próxima Legislatura.


"Foi o sentimento da Casa que me fez candidato. Portanto, eu sabia que estava firme"

AM - Certamente. Vamos levar de seis a oito meses só estudando, para depois montar um formato, aperfeiçoar e finalmente levá-lo ao plenário para ser votado. 

BN - Quando foi empossado o sr. citou o empenho do prefeito João Henrique (PMDB) e do ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) para ajudar no desenvolvimento da capital baiana. Mas, apesar do sr. pertencer a mesma corrente política dos dois, a sociedade soteropolitana pode esperar autonomia e isenção da Câmara em relação ao Thomé de Souza?

AM - A autonomia deve e vai ser mantida. Tanto que no encontro que tivemos com o prefeito (ver nota), discutimos sobre a importância da independência entre os poderes. Mas, ele sempre respeitou isso, tanto no primeiro como agora no início do segundo mandato. Prova disso foi o fato do Thomé de Souza não interferir na eleição para Mesa Diretora da Câmara.

BN - Mas, você levou alguma reivindicação da Casa?

AM - Pedimos a ele que encaminhe os projetos do Executivo com uma antecedência maior para que eles possam ser apreciados com mais rigor e zelo. Ele nos atendeu e de imediato consultou o chefe da Casa Civil, que garantiu proceder de tal maneira. O prefeito é tão sensível a esse aspecto que a Câmara recusou o artigo 18, aquele que tratava do reajuste do IPTU, e ele retirou o artigo do texto do projeto. Ele entendeu que era preciso discutir mais com a cidade e com os próprios vereadores e técnicos da Prefeitura.

BN - Mas, o prefeito fala que pode reeditar esse artigo agora em 2009.

AM - Sei disso e até sugeri que ele faça o recadastramento dos prédios e casa que pagam o IPTU. Sem dúvida, a arrecadação será maior. Existem domicílios em nossa cidade que devem ter isenção total. Mas, mesmo em áreas afastadas do centro, existem prédios e casa que estão passíveis de tributação. A cidade inteira precisa ser recadastrada. Eu tiro pelo seguinte, você vai na Santa Mônica, IAPI e Cajazeira, nesse locais existem pontos que devem ter isenção mesmo, mas nas vias principais desses bairros você encontra casas com três e quatro andares, com piscina portão eletrônico e tudo o mais. Só para ilustrar, estive no Conjunto Sr. do Bonfim e vi uma casa que se fosse no centro valeria R$ 1,5 milhão. Mas, nessa mesma rua existem casas de porte humilde. Por isso, é preciso fazer o recadastramento de todos os imóveis. Salvador precisa arrecadar muito mais.


"Sobre as dívidas, esse compromisso recai sobre o antigo gestor. Hoje, a Câmara não é responsável por nada disso"

BN - Mesmo após eleição, há alguma possibilidade da oposição conseguir representação na Mesa Diretora da Câmara Municipal ou eles vão ter que amargar a condição de minoria sem poder de barganha?

AM - Daniel, me desculpe mas você está equivocado. O que você me diz de Paulo Câmara, do PSDB, e Palhinha, do PSB. Você acha que a oposição não foi representada?

BN - Olha Mangueira, concordo por conta do PSB, mas ninguém pode dizer ao certo a posição dos tucanos.

AM - Olha, eles estavam na oposição até 31 de dezembro e inclusive tiveram candidato próprio à Prefeitura e não apoiaram o prefeito no 2º turno. Então Daniel, pelo amor de Deus não diga que o PSDB não é da oposição (risos). Mas, pode ser que a situação mude da mesma forma que aconteceu com o PT e PCdoB, que eram da base aliada, mas mudaram de posição. Ninguém pode dizer que “dessa água não beberei”.

BN - Por falar nisso, por que o sr. trocou o DEM pelo PMDB? Afinal, o sr. era tido como um nome forte daquele grupo político.

AM - A mudança se deu pela própria evolução no quadro político da cidade. Eu via a necessidade de mudar porque não via o DEM como uma legenda completa. Além do mais, eu sabia que essa seria uma eleição muito difícil, só passaria que tivesse gordura pra queimar. Então, vim para o PMDB e fui bem aceito e estou bastante satisfeito. Tenho que ressaltar a relação de confiança que tenho com o presidente Lúcio, o ministro Geddel e com o próprio prefeito.

BN - Antes da eleição você dizia que iria levar o prefeito para sentir o calor do povo.

AM - Foi o que aconteceu! Diziam que o prefeito tinha rejeição de mais de 40%, mas não era isso que eu sentia quando levava o prefeito para conversar com o povo. As pessoas gostam do prefeito, mas havia um distanciamento, que foi corrigido há tempo. Se ele tivesse uma rejeição como essa ele não podia nem sair de casa. Mais uma vez os institutos de pesquisa saíram derrotados.

BN - Presidente, o sr. acha que a renovação na Câmara foi uma demonstração de insatisfação da cidade com o Legislativo?

AM - Olha, encaro a renovação com naturalidade. Confesso que não me surpreendi. Na última eleição, praticamente todos os líderes comunitários da cidade foram candidatos. Alemão, por exemplo, conseguiu se eleger. Além disso, outras lideranças tiveram quatro, cinco mil votos.

BN - Foram mais votados do que muita gente que tinha mandato.

AM - Verdade! (risos) Nós que acompanhamos a política bairro a bairro já sabíamos disso. Então, não penso que seja um clamor por mudança. O resultado das urnas não quer dizer que a Câmara não tenha sido bem avaliada. O povo não repugnou a Câmara.


"O que você me diz de Paulo Câmara, do PSDB, e Palhinha, do PSB. Você acha que a oposição não foi representada?"

BN - Qual vai ser a cara do Legislativo na gestão Mangueira?

AM - Olha, já mostrei isso no primeiro momento. Acho que a suspensão da verba indenizatória foi uma boa iniciativa, até porque vivemos tempos de crise financeira internacional. Daniel, posso te assegurar que vamos trabalhar para reduzir os custos desta Casa e transformá-la em exemplo de parlamento e gestão pública.

BN - Para finalizar, este ano vai ser decisivo para formatação da campanha majoritária de 2010. Já existe uma orientação partidária quanto a isso. O ministro Geddel vai ser candidato ao governo do Estado?

AM - Posso te dizer que por enquanto não há nenhuma orientação do partido quanto a isso e, pessoalmente, ainda não tratei disso com as lideranças do PMDB. Mas, acho que tudo se desenha a partir do cenário nacional. Vamos aguardar.