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Segunda, 24 de Maio de 2021 - 11:10

Kiki Bispo

por Ailma Teixeira

Kiki Bispo
Fotos: Vitor Santos

Com a crise sanitária e o agravamento da crise econômica, cresceu o número de pessoas na extrema pobreza. Em janeiro, uma reportagem da Folha de S. Paulo, com análise da FGV Social a partir de dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (Pnads) Contínua e Covid-19, mostrou que 12,8% dos brasileiros passaram a viver com menos de R$ 264 por mês.

 

A nível de Bahia, a situação pode ser ainda pior: no início deste mês, o secretário de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS) do Estado, Carlos Martins, disse que havia 1,9 milhão de pessoas vivendo com cerca de R$ 89 a R$150 por mês. No que se refere a Salvador, números da Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre) estimam que há cerca de 25 mil famílias em situação semelhante.

 

“Nós temos aqui em Salvador 320 mil pessoas inscritas no Cadastro Único, dentre eles 180 mil recebem o benefício do Bolsa Família, e temos uma média mensurada de 25 mil famílias que estão em estado de extrema pobreza. Estes são os dados que nós temos. Evidentemente, por conta da pandemia, e de medidas restritivas, essas inscrições - ou essas renovações - ficaram prejudicadas”, disse o secretário da pasta, Kiki Bispo, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Ele reconhece que esses números devem estar subdimensionados. Para chegar à população carente, mas “invisível” às ações sociais, a pasta pretende fazer uma “busca itinerante”, a fim de realizar o maior número de inscrições possíveis que possibilite uma “real análise deste grupo de pessoas que estão em estado de vulnerabilidade”.

 

De modo geral, houve aumento na procura de serviços de assistência da Sempre ao longo destes cinco meses que o senhor está à frente da pasta?

Sim, houve um aumento. Por dois fatores primordiais. Primeiro, pelos auxílios que a Sempre disponibiliza. Houve um acréscimo muito grande do ponto de vista financeiro, como do ponto de vista da qualidade. Portanto, as pessoas, sobretudo aquelas em estado de vulnerabilidade, têm procurado a Sempre por entender que lá existe uma série de auxílios e serviços que são importantes para que elas possam ter seu sofrimento amenizado. Outro aspecto importante do aumento se dá por conta da pandemia. Na segunda onda, desde abril do ano passado, a Sempre tem feito um esforço fora do comum sobretudo do ponto de vista do orçamento para promover e priorizar as ações sociais, implementar políticas sociais em nossa cidade, por entender que nesse momento de crise, depois da Saúde, a área social acaba tendo um papel especial nesse momento de crise que estamos passando no país e que nossa cidade também está passando desde 2020.

 

O senhor consegue mensurar quantos atendimentos a Sempre tem feito nos últimos meses?

São atendimentos diversos. Temos aí 28 Cras [Centros de Referência em Assistência Social], sete Creas [Centro de Referência Especializado de Assistência Social], quatro Centros POPs, 17 unidades de acolhimento. Tem todos os nossos equipamentos sociais. Temos percebido uma procura bem maior. Em nossos restaurantes populares fica bem evidenciado que este público além de ter aumentado, tem se tornado mais eclético. Tem a categoria dos desempregados, dos trabalhadores autônomos, de pessoas originárias do interior, ou até de outros estados, que têm vindo a cidade procurar emprego e, por frustração óbvia por conta das medidas restritivas que acabam atingindo em cheio a economia, acabam sendo também penalizadas. Então, nós precisamos diariamente estar olhando estes índices sociais para que possamos enxergar de que forma podemos melhorar nossa cidade.

 

A que diversidade o senhor se refere? De idade, de público?

São idades variadas e eu tenho percebido que tem crescido o número de famílias que têm procurado. São casais com filhos. Eles têm procurado nossa unidade relatando a dificuldade pela qual tem passado durante a pandemia. Tem sido frequente famílias inteiras virem à nossa unidade em busca de atendimento.

 

No início do mês, o secretário de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social aqui do Estado, Carlos Martins, declarou em entrevista ao G1 que havia 1,9 milhão de pessoas cadastradas no CadÚnico vivendo com cerca de R$ 89 a R$ 150 por mês. Qual a situação em Salvador?

Nós temos aqui em Salvador 320 mil pessoas inscritas no Cadastro Único, dentre eles 180 mil recebem o benefício do Bolsa Família, e temos uma média mensurada de 25 mil famílias que estão em estado de extrema pobreza. Estes são os dados que nós temos. Evidentemente, por conta da pandemia, e de medidas restritivas, essas inscrições - ou essas renovações - ficaram prejudicadas. Pensando nisso, mobilizamos nossas unidades. A ideia é que já na próxima semana possamos fazer uma série de ações itinerantes para levar nossos cadastradores, sobretudo nos lugares mais longínquos de Salvador, afastados do centro da cidade e das prefeituras-bairros. Esta é a grande ideia, pois, do ponto de vista social, pelos índices que temos acompanhado, fica evidente que estes números possam estar subdimensionados. Precisamos fazer uma busca itinerante para fazer o maior número de inscrições possíveis, para fazer uma real análise deste grupo de pessoas que estão aí em um estado de vulnerabilidade.

 

Como é a articulação da secretaria municipal com as pastas do governo do estado? Por exemplo, em relação a pandemia, a gente vê uma articulação entre Sesab e SMS. Como é o contato entre Sempre e Sepromi [Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Governo do Estado] ou Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, por exemplo? Há uma articulação nas ações?

Eu diria que precisamos avançar mais. Do ponto de vista social, precisamos fazer uma interlocução melhor. Tivemos já duas reuniões. Estive com o secretário [de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia] Carlos Martins por videoconferência. Em relação a Sempre, fica aqui todo o propósito de estreitar essa relação e fomentar as políticas sociais a exemplo do que acontece na área da Saúde e tem dado certo. Sabemos que, depois da Saúde, a área social é a que tem demandado mais recursos, de mais importância do ponto de vista de contribuir com esse momento de pandemia. Esperamos que possamos estreitar relações e interagir entre as demais áreas técnicas das nossas secretarias e possamos aí, de fato, avançar nas políticas sociais para que possamos beneficiar efetivamente quem precisa, que é o povo da cidade de Salvador.

 

Quando foi essa reunião com Carlos Martins?

Tem 30 dias que eu tive uma reunião com ele, me colocando à disposição. A Sempre tem uma expertise que é conhecida do ponto de vista nacional. Temos diversos programas e serviços. Nós esperamos estreita relação e possamos fazer uma interface direta com o órgão social do governo do Estado, e possamos avançar. Temos muito ainda a caminhar. Acho que precisamos melhorar a interlocução.

 

Quais são as regiões, ou mesmo bairros de Salvador, que mais demandam ações da Sempre?

Temos um público variado, identificado em Salvador, de 100 pequenas localidades. Aquelas localidades ribeirinhas que a gente percebe que existe um fator realmente preponderante para extrema pobreza. Temos esses números listados. Fazemos ações permanentes nesses locais. Temos aí 28 Cras espalhados por toda a cidade, e por conta deles acabamos identificando qual a natureza de cada um. Evidentemente que o Cras de Cajazeiras tem um público e demanda diferenciada de um Cras localizado, por exemplo, em Brotas. A gente tem aí uma dinâmica com esses dados e números. Com os atendimentos, a gente acaba entendendo qual a necessidade de cada região e assim pautamos nossas ações.

 

Em relação a situação da Covid-19, como é feito o acolhimento das pessoas?

As pessoas que são geralmente originárias das ruas da cidade, pessoas em situação de rua. Eles indo às nossas unidades é feita uma triagem social e eles são colocados em isolamento, afastados dos outros, até que dê os 15 dias. Em muitos destes casos também são realizados testes rápidos que disponibilizamos em boa parte de nossas unidades. 

 

Há alguma condição de monitoramento desta população, algum meio de acompanhar essa população que está mais vulnerável nas ruas? Nas situações de casos identificados, há como monitorar os casos próximos?

Conseguimos sim. Às vezes o público se repete. Há casos de pessoas que conseguimos colocar em nossa unidade de acolhimento, consegue conceder o benefício tipo auxílio aluguel, e eles acabam retornando para as ruas. Neste momento de pandemia é muito comum vermos grupos que se juntam, de parentes, de amigos, para fazer doações. Começamos a fazer uma campanha que eu destaco ser importante para que possamos ter consciência de qual a melhor forma de nos doarmos. Temos diversas instituições parceiras da Sempre, que são cadastradas no Conselho Municipal da Assistência Social, que estão passando por sérias dificuldades por conta da baixa doação, que tem ocorrido de mês a mês. A gente orienta as pessoas que querem realmente fazer o bem, que querem fazer suas doações, que procurem por uma instituição de caridade - de idosos, de crianças e adolescentes, com várias finalidades sociais - que com certeza estará fazendo de forma assertiva a doação. 

 

O grupo prioritário da vacinação inclui a população em situação de rua. A Sempre já sabe como vai ser esse processo?

Vamos nos colocar à disposição. Estamos em uma luta muito grande. Os trabalhadores do Suas [Sistema Único de Assistência Social] são trabalhadores essenciais. Temos nesta pandemia nos  desdobrado, trabalhado muito porque sabemos da importância de estarmos nas ruas auxiliando as pessoas que estão precisando muito desse momento. A gente não entende até hoje porque a CIB [Comissão Intergestores Bipartite] e o governo federal não conseguiram incluir o Suas no hall das categorias prioritárias para vacinação. Em relação à população em situação de rua, toda a assistência será prestada. Estamos à disposição da Saúde. Claro que eles tem a expertise, a logística, mas para o que for necessário - até para que se possam ser identificados os pontos, identificar o público e auxiliar no que for necessário -, estaremos à disposição. 

 

Houve um protesto do Suas, inclusive. A gestão defende que eles sejam incluídos no grupo prioritário?

Eu particularmente participei em duas oportunidades [de reuniões da CIB]. A gente acaba não tendo a possibilidade de se manifestar do ponto de vista oral. Fiz do ponto de vista escrito. Mandei ofício. Está ocorrendo agora uma reunião da CIB e eu espero contar com a acessibilidade dos gestores que realmente têm direito a voto e que possam incluir a categoria.

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