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Segunda, 05 de Abril de 2021 - 11:10

Tenente Coronel Honorato

por Mauricio Leiro

Tenente Coronel Honorato
Ten Cel Honorato e Cel PM Lemos e psicólogos / Foto: Divulgação

A saúde psicológica dos policiais militares voltou ao debate após o incidente com o soldado Wesley Soares, que teve sinais de um surto psicótico e acabou morto em frente ao Farol da Barra. De acordo com o tenente coronel Honorato, coordenador de Assistência Psicológica da Polícia Militar no Departamento de Promoção Social, a situação foi de muita angústia. 

 

Psicólogo e coordenador do setor há 20 anos, Honorato explicou que o atendimento aos policiais na pandemia foi atípico durante o período. Além disso, o coronel comentou que ainda existe resistência entre os policiais para procurar ajuda psicológica. 

 

“É a busca de pessoas que têm capacidade de enfrentar a fadiga. Temos essa vertente de lidar com isso diariamente. Alguns recorrem na justiça contra o psicoteste. Outro momento é durante o curso. Eles têm matérias que falam de saúde mental. Às vezes tem uma resistência do militar em pedir ajuda. Tentamos desmistificar isso. Tentamos explicar qualquer situação de mal humor, irritação, para procurar. Isso gera um estresse pós-traumático”, disse.

 

Honorato explicou que a PM não submete os policiais a avaliação compulsória. A análise é feita apenas no início do processo de entrada na corporação. “O que estamos tentando fazer é orientar os comandantes é que o oficial que participe de ações com óbito, de alto risco. É orientar em decorrência da situação de estresse. Sinalizar que algum comportamento tem que ser tratado. É muito comum que policiais após a ocorrência querem espairecer e aí entra o uso do álcool. É o flashback, que é rememorar a ocorrência. Isso é incômodo”, disse.

 

Foto: PM/BA

 

Coronel, queria saber como a corporação vem enfrentando esse caso do último domingo com o soldado Wesley?

Logicamente o fato em si não foi o esperado pelos policiais que estavam na força tática. [Eu] Estava presente nas quatro horas. Foram situações de muita angústia. O desfecho não foi o esperado. Acompanhamos, uma equipe do serviço foi até o HGE, demos suporte a família. Chegaram duas irmãs. Fizemos o trabalho durante e pós. Demos suporte à polícia e à família. 

 

Como a polícia encara questões psicológicas dos integrantes? Existe algum centro de atenção a eles?

A minha coordenação já tem cerca de 20 anos. Cheguei como tenente. Fundei a sessão. Sou psicólogo. Desde novembro temos psicólogos em todas as regiões do estado. Psicólogos da Sesab. Prefeitos que cedem. Tem oficiais e praças. Eles atuam em todo o estado. No dia 2 de março o governador do estado fez a contratação de 20 psicólogos através do Reda. Com experiência. Oito ficaram na capital e dois estão em cada comando regional do Estado. Cada comando de grande monta tem dois psicólogos na Bahia. Além dos que já atuavam. 

 

Falando um pouco sobre a procura, é comum os oficiais procurarem? Qual o perfil das queixas?

Nos últimos anos foram anos atípicos. Por conta do isolamento. Fazíamos o atendimento virtual e on-line. Só os casos mais emergenciais aqui ou em visita. O trabalho é feito desde o ingresso. Eles fazem a avaliação psicológica. É a busca de pessoas que têm capacidade de enfrentar a fadiga. Temos essa vertente de lidar com isso diariamente. Alguns recorrem na justiça contra o psicoteste. Outro momento é durante o curso. Eles têm matérias que falam de saúde mental. Às vezes tem uma resistência do militar em pedir ajuda. Tentamos desmistificar isso. Tentamos explicar qualquer situação de mal humor, irritação, para procurar. Isso gera um estresse pós-traumático. Quando ocorre um auto de resistência eles passam por um atendimento. Eles por serem guerreiros resistem de serem atendidos. Fizemos palestras para mostrar para os psicólogos. Ainda a procura não é na dimensão que gostaríamos. 

 

A PM consegue registrar e monitorar os casos? Em 2020 tem dados consolidados?

É difícil trabalhar com dados por dois motivos: a paralisação do presencial. Estamos tentando fazer um levantamento desde 2018 para conseguir uma consistência. Estamos atendendo os casos mais graves, de depressão. Independente da pandemia, mas com todos os cuidados. Não temos os dados ainda. 

 

Queria saber como é feito o acompanhamento com a corporação, se todos são beneficiados. Caso não, por quê? 

Todos. Nossa angústia é esse contato. Eles podem vir via ofício do comandante que percebe. Ele fica meio confuso e é encaminhado para uma avaliação. Tem situações que vem sozinho. Muitas vezes até a família, às vezes acontece em casa, eles acionam. Tem um policial que é conhecido e avisa. É muito mais frequente essa condição de receber policiais voluntários. Fazemos palestras para tentar atrair. Falamos sobre temas que mobilizam o cidadão para trazer o familiar. Um filho e uma mãe. Vamos avançar nesse atendimento de maneira concatenada. Temos na capital e no interior o departamento de saúde. Também trabalha com psicólogo. Temos unidades básicas de saúde para policiais no interior. Tem psicólogos. É feito um trabalho de escuta. 

 

Foto: PM/BA

 

O que determina que esse acompanhamento seja feito? Com que frequência faz avaliação psicoemocional da tropa? 

Não temos hoje submetido os policiais a avaliação compulsória. Ela é feita no início do processo, mas o que estamos tentando fazer é orientar os comandantes é que o oficial que participe de ações com óbito, de alto risco. É orientar em decorrência da situação de estresse. Sinalizar que algum comportamento tem que ser tratado. É muito comum que policiais após a ocorrência querem espairecer e aí entra o uso do álcool. É o flashback, que é rememorar a ocorrência. Isso é incômodo. A pessoa estar relembrando a imagem. É um dos sinais. É o estresse pós-traumático. A compulsão pela comida. A impaciência que estoura em casa com algo que aconteceu. O policial às vezes também age com muita força por estar sendo mobilizado pelo estresse anterior. O policial às vezes não sente nada e algum tempo depois ele estoura. É tentar orientar para evitar que isso aconteça. Temos uma dimensão preocupante no uso de álcool. Isso está vinculado a fugir do estresse. 

 

Durante a pandemia esses quadros se acentuaram? Quais as principais queixas?

O departamento da área social tem equipes 24h que rondam os quartéis, os hospitais que atende quem pegou o Covid, os que estão internados. Uma das inquietações é a questão da vacina. Eles tem trabalhado com muita boa vontade e perseverança. Todo cuidado de higienização nos quartéis tem sido seguido. O serviço social da polícia tem dado esse suporte. Acho que a vacina vai trazer para a tropa um pouco maior alento. Trabalha com abordagens e alento. Os policiais vacinados, começamos a pensar que irá resolver um pouco mais a inquietação e mal estar.

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