Carlos Martins: "Não tenho como adiar agora o pagamento do funcionalismo e da dívida" - 16/12/2008
Fotos: Max Haack/ Bahia Notícias
"Eu teria muita dificuldade, por exemplo, de atender a todos. Eu não tenho como adiar agora o pagamento do funcionalismo e da dívida, por exemplo."
Por Evilásio Júnior
BN – Qual o balanço que o senhor faz do ano de 2008 e como estão as finanças do Estado?
CM – Eu acho que é um balanço positivo. No sentido de que o ano de 2007 foi difícil porque nós herdamos algumas dívidas não contabilizadas, principalmente em restos a pagar e despesas anteriores que comprometeram a execução orçamentária e o nosso planejamento. Mas nós conseguimos, apesar de algumas dificuldades, sanar esses problemas, mas ao mesmo tempo tivemos algumas outras despesas não muito fáceis de administrar como precatórios e dívida de ICMS acumulado. Ao longo de 2007 nós conseguimos discutir claramente isso e nesse ano de 2008 nós praticamente conseguimos resolver vários desses problemas. Nós começamos 2008 com restos a pagar e despesas anteriores muito pequenos e já com uma regulamentação muito definida para evitar que aconteça isso de novo. Iniciamos um processo de discussão dos precatórios, tanto com o Tribunal de Justiça quanto com o Tribunal Regional do Trabalho e eu posso dizer hoje que o Estado zerou em 2008 todos os precatórios alimentícios dos dois poderes e estamos agora iniciando um processo de discussão dos patrimoniais que é mais complicado. E também do ICMS acumulado, de quase R$ 2,1 bilhões, que nós já iniciamos um processo de negociação com as empresas, o que está em um ritmo bem avançado. A gente pode dizer que essas questões dificultaram muito o funcionamento, mas ao mesmo tempo nós continuamos ao longo de 2007 e 2008 a atingir todas as nossas metas pactuadas com o Tesouro Nacional, em função da Lei de Responsabilidade Fiscal. Reduzimos o endividamento do Estado e a relação dívida versus receita corrente líquida baixou para um patamar jamais visto. Hoje está em 0,62. Ou seja, o estado recuperou a sua capacidade de crédito, quando há muito tempo não tínhamos essa capacidade. E ao mesmo tempo as nossas receitas também acompanharam um ritmo de evolução, quer seja pelo crescimento econômico, quer seja também por uma ação mais eficaz, principalmente no combate à sonegação. Tivemos percentual mínimo em saúde e educação, isto é, um conjunto positivo em relação às nossas finanças.
BN – Algumas empresas pediram prorrogação no pagamento do ICMS. Como está a negociação? Há um estudo sendo feito pelo governo?
CM – Essa é uma medida que ainda está em análise porque o pedido foi feito conjuntamente por quatro setores e engloba, portanto, um conjunto de toda a nossa arrecadação e nós temos um fluxo de caixa dividido basicamente em três períodos. Dias 10, 20 e 30. Ora, um pedido de postergação coletiva me obriga a discutir qual é o impacto disso nos pagamentos dos fornecedores, salários, dívida etc. Então isso é uma questão que leva um certo tempo para analisar, para ver se é possível isso. Eu teria muita dificuldade, por exemplo, de atender a todos. Eu não tenho como adiar agora o pagamento do funcionalismo e da dívida, por exemplo.
BN – Isso tem relação com a crise financeira internacional?
CM - A crise é internacional, mas tem um reflexo muito forte no Brasil e na Bahia não poderia ser diferente. Mas ela não atinge todos os setores e sim alguns. E por isso eu não acho que o tratamento de postergação do ICMS ou quaisquer outras medidas atinja a todos indiscriminadamente. Nós vamos analisar e se acharmos que é possível atender nós vamos atender os setores mais atingidos.
BN – Há previsão de resposta?
CM – Não tenho como dizer isso, pois nossas equipes técnicas estão se debruçando e analisando caso a caso, setor a setor e eu não tenho como adiantar isso não.
BN – Sobre a crise financeira, o governo federal adotou algumas saídas como a medida provisória 443, que está em tramitação, para dar mais poderes ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal, e a 442 que já foi aprovada e dá mais permissões ao Banco Central. Aqui no Estado, quais são os segmentos mais atingidos e de que forma o governo se prepara para evitar que haja reflexos desse colapso na economia baiana?
CM – Na semana passada, nós já adotamos um conjunto de medidas justamente dentro desse contexto, o que mostra a preocupação do governo com relação a esses setores. O primeiro setor que nós identificamos, não é que esteja com problemas, mas é preciso que continue com atividade econômica, é o comércio varejista, porque ele é a ponta e quando está funcionando, há demanda para indústria e isso significa que a economia está funcionando. Então, para esse setor, geralmente no final do ano, nós postergamos ou parcelamos o ICMS do mês de dezembro e da Liquida Salvador em duas vezes. Inicialmente eram quatro vezes até 2006, quando nós assumimos, e esse ano nós voltamos a aplicar as quatro parcelas para justamente estimular o comércio varejista. O outro que nós identificamos é o Pólo de Informática de Ilhéus, que basicamente possui dois problemas: a alta do dólar fez com que os insumos adquiridos por esse setor tivesse uma sobrecarga no fluxo de caixa muito forte. Ou seja, as empresas têm problema de capital de giro.
BN – Inclusive no início do ano algumas empresas do Pólo de Informática de Ilhéus como a Bitway enfrentaram algumas dificuldades, fizeram demissões...
CM – Isso. Então, em relação ao capital de giro nós no início do ano tomamos algumas medidas. Nós ampliamos o benefício de 2014 para 2019, ampliamos o corredor de importação e aumentamos o crédito presumido. Adotamos uma série de medidas que aumentaram a competitividade do Pólo de Informática. Agora o problema é capital de giro. Então nós disponibilizamos uma linha especial, através da Desenbahia, inicialmente no valor de até R$ 30 milhões, com juros de 1,8% ao mês, com prazo de carência de até 90 dias, para facilitar a vida das empresas. Acontece que eu acho que o problema do Pólo é outro. Não é só capital de giro. É preciso agora uma outra linha para investimentos, porque as empresas precisam fazer reconversão, ampliação e etc. Então nós estamos analisando, mas isso daí ultrapassa os limites do Estado. Ou seja, nós vamos então buscar os nossos parceiros: Caixa Econômica, Banco do Brasil e BNDES. E aí, nós estamos discutindo com eles a possibilidade de oferecer uma linha de crédito especial de investimentos para o Pólo de Informática, que contemple um maior período de carência, juros mais atrativos e um período de pagamento mais extenso.
BN – Assim como em todo o Brasil, a construção civil por aqui também sofre perdas com a crise?
CM – Nós já estamos discutimos uma forma de não parar os investimentos que estão sendo feitos na Bahia. Você vê, a Paralela hoje é um canteiro de obras. Mas aí tem aquela discussão de que em alguns setores, tipo construção civil, automóveis etc., a necessidade de recursos ultrapassa a capacidade do Estado. Então voltamos novamente aos nossos parceiros. Para a construção civil, a Caixa Econômica Federal, através da nossa intervenção, está disposta a aportar até R$ 1 bilhão para facilitar o crédito para as empresas, não só para manter os investimentos iniciados, como para novos investimentos. E há também setores que demandam capital, principalmente o agronegócio que também pode ser afetado, principalmente a cultura do algodão, e outros setores que precisam de máquinas e de renovação. Neste caso nós buscamos uma outra saída que foi o Banco do Brasil, que disponibilizou uma linha especial de R$ 2 bilhões para que a gente possa também atender a essas necessidades.
BN – Mas eu me lembro que, no meio do ano, a questão de São Desidério (extremo oeste baiano), estava solucionada...
CM – Estava. É porque, na realidade, o algodão é para ser plantado em agosto, setembro, justamente quando começou a crise e eles estavam com dificuldades de obter insumos e inseticidas, mas eu acho que agora está melhor. Apesar de que houve uma redução da área plantada em torno de 10, 12 %. Então, em termos de medidas, em relação ao pacote, são essas. Além do que, nós identificamos um outro setor que é o de calçados. Para ele nós tomamos algumas medidas para aumentar o crédito tributário, o crédito presumido para as empresas, e liberar até 5% de ICMS, do total das exportações que elas fazem, para estimular também o funcionamento dessas empresas de calçados que são fortes geradoras de emprego no interior do Estado. Então esse são os setores que nós identificamos que necessitam de intervenção do Estado. Evidentemente, que há setores como automóveis e petroquímica que o volume de recursos necessários e o volume de recursos que as empresas precisam estão mais na esfera federal. O governo federal já tinha liberado R$ 4 bilhões, o governo de São Paulo, para este setor de automóveis, quase R$ 8 bilhões, e nós nos comprometemos a continuar ajudando na discussão com o governo federal para ajudar estes setores, mas não temos como disponibilizar ajuda nem da Desenbahia, nem do Tesouro para esse setor, porque ele demanda capital muito além da capacidade do Estado.
"Eu vou me permitir discordar dessa decisão do Copom. Eu acho que é um momento para baixar em 0,25%. Ouvi até uma expressão que eu achei interessante. Esta é uma crise de gestão das expectativas. Se você estimula uma expectativa negativa, você acaba dando um tiro no próprio pé."
BN – O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), na última semana decidiu manter a taxa selic em 13,75%. Qual é o impacto que isto causará no estado?
CM – Em primeiro lugar eu acredito, diferentemente de muitos que são críticos da política do Banco Central, que as medidas adotadas até hoje são corretíssimas. Reduziu o nível de endividamento em dólar do país, hoje nós somos credores líquidos em dólar... Evidentemente, os juros do Brasil são os mais altos do mundo, mas é reflexo da nossa estrutura econômica. Agora eu vou me permitir discordar dessa decisão do Copom. Eu acho que é um momento para baixar em 0,25%. Porque essa crise, evidentemente ela tem efeito real hoje, isso está claro, mas ela é essencialmente de confiança no capitalismo. Ouvi até uma expressão que eu achei interessante. Esta é uma crise de gestão das expectativas. Se você estimula uma expectativa negativa, você acaba dando um tiro no próprio pé. A empresa de automóveis que, no primeiro momento, dá férias coletivas e reduz a produção, está dizendo ao consumidor lá na ponta que é para não comprar o carro. Eu acho que neste momento ela tinha que fazer promoção, marketing, publicidade e etc. Isso para dizer: “continue comprando”. Essa é a lógica. Então era esse momento, quando todo mundo diz que o Brasil vai ser atingido, mas não vai ser como nos outros países, principalmente europeus, que o Banco Central devia avisar que ia baixar em 0,25% para continuar o consumo...
BN – E Lula pediu esse estímulo inclusive...
CM – Os dados demonstram que, por exemplo, a inflação que vinha crescendo em junho, começou a cair, chegou a 0,26, 0,30%. Então eu acho que não foi uma medida das mais corretas. Eu acho que deveria reduzir os juros. Qual é o impacto disso? É o impacto de que há uma expectativa que não foi atendida, ou seja, no caso nosso eu tenho uma grande preocupação. Nós trabalhamos com a crise econômica com três cenários: pessimista, intermediário e otimista. No cenário pessimista, nós traçamos o crescimento do PIB em torno de 1%, o dólar a R$ 3,00, uma inflação a 10% e os juros reais a mais dois, além dos 13,75%. No intermediário, nós trabalhamos com o crescimento do PIB em torno de 2,5%, a inflação em torno de 8%, o câmbio em torno de R$ 2,50 e os juros reais em cima de um. E o otimista, nós trabalhamos com o PIB de 3%, com o câmbio entre R$ 2,10 e 2,20, a inflação de 6% e os juros estáveis. Nestes três cenários, nós achamos que a possibilidade do pessimista é muito remota. Porque os dados divulgados pelo IBGE, sobre o PIB, já demonstram que nós estávamos em um ritmo de crescimento chinês e que há um PIB inicial, como os americanos chamam de care over, em torno de 1,6 ou 1,8 para 2009. Então, vamos trabalhar com a pior hipótese, de 1,6. Está acima do meu cenário pessimista. Assim, eu vou trabalhar com dois cenários, o intermediário e o otimista. E eu acho que pode acontecer alguma coisa meio híbrida.
BN – Como seria essa situação?
CM – Eu posso ter um crescimento econômico em torno de 1,8 ou 2,7, que alguns já indicam isso. Eu posso trabalhar com o dólar a R$ 2,20 ou R$ 2,30, portanto, nem 2,50 nem 2,10. A inflação eu acho que entre 5,5% e 6% e os juros também estáveis, que é a própria decisão do Copom. Nesse particular, qual é a conseqüência para a Bahia? Primeiro, aumenta os nosso dispêndios, com relação ao pagamento da dívida. Então essa é a nossa maior preocupação, porque pode aumentar em torno de R$ 150 milhões o pagamento da nossa dívida.
BN – Que é de quanto hoje?
CM – R$ 10 bilhões e qualquer coisa...10 e cento e pouco...a dívida total do Estado...
BN – Já há algum planejamento para poder saná-la?
CM – Então, essa é uma dívida de longo prazo, ela tem uma parcela que a gente paga mensalmente. Uma parte dela é em dólar, por isso que aumenta, em torno de 12 a 15%. E aí então, essa parte que é em dólar, ela tem um componente alto com o câmbio a R$ 2,20, já que eu estava trabalhando com R$ 1,60. Então, essa é a primeira preocupação. A outra são os próprios repasses do governo federal. Com uma desaceleração da economia, pode haver queda de repasse do IPI, no imposto de renda, que impacta no fundo de participação do estados. Evidentemente que em relação ao ICMS, a nossa arrecadação é muito concentrada em combustíveis, energia e telecomunicações. Não há indícios de grandes perdas em relação a isso.
BN – E em relação ao Orçamento, que a Assembléia Legislativa ainda não votou, quais são as principais novidades que ele traz e o que o senhor acha que tem causado o entrave entre os deputados?
CM – Bem, a peça orçamentária é produzida pelo Planejamento, não pela Fazenda. A gente acompanha...eu creio que haja grandes discussões. Eu acho que vai ter uma preocupação com esses dados que eu estou falando para você, porque é mais ou menos a análise que o Planejamento também faz. Por isso que não há a necessidade de mudar a peça orçamentária, porque se houver esse nível de preocupação que eu tenho, a própria Lei de Responsabilidade Fiscal me garante que bimestralmente se eu não atingir as metas, eu não posso fazer contingenciamento. Agora, a não aprovação, isso aí tem toda uma discussão na Assembléia.
BN – Mas não está prevista também uma reformulação tributária na proposta de reforma administrativa avaliada pelo governo?
CM – Não. Internamente não. As medidas tributárias que nós tomamos foi o Acelera Bahia, com relação às indústrias naval, do álcool, Pólo Petroquímico, energia e biodiesel, que inclusive tem tido sucesso na atração de novos investimentos, mas em termos de tributos não. A não ser a reforma tributária nacional, mas aí é outra discussão.
"Depois que terminou o grupo não se chegou a um consenso e eu arbitrei justamente pelo meio: nem uma coisa nem outra, vamos buscar um meio termo, um caminho que é melhor para todo mundo."
BN – Agora da Secretaria da Fazenda o que partiu mesmo foi o projeto de reorganização do Fisco, não é isso?
CM – Aí já é uma outra discussão. Nós estamos encaminhando à Assembléia um projeto de reestruturação do Fisco baseado em três pilares. Eficiência e eficácia dos nossos processos, combate à sonegação e valorização do servidor público. Nós temos hoje 980 auditores e quase a mesma quantidade de agentes de tributos. Eu diria que 70% dos agentes de tributos estão localizados nos postos fiscais e nas micro-empresas e esse pessoal faz todas as etapas do processo de fiscalização. Apenas a última etapa é que ele não faz, que é a assinatura do auto de infração, que tecnicamente é chamado de lançamento do crédito. Mas, por exemplo, o agente de tributos analisa a nota fiscal de um caminhão que chega no porto, vê a carga, vê se está de acordo, se não estiver, qual é a infração, qual é a capitulação, onde é que está a Lei, qual é a multa a ser aplicada e depois disso ele dá para o auditor fiscal assinar. E nós detectamos que isso causa perda de eficiência. Acontece caso de um carreteiro ficar às vezes um dia no posto esperando apenas a assinatura de um auditor-fiscal ou às vezes levar seis meses para lavrar um auto de infração, que podia ser lavrado no mesmo dia. Então isso é perda de eficiência na arrecadação e perda de eficácia no atendimento ao contribuinte. Assim, nós estamos modificando a Lei do Fisco, já que a Lei que foi modificada em 2002. Tanto agente de tributos quanto auditores-fiscais são carreiras concursadas, todos com nível superior, e nós vamos dar poderes para que esse agente de tributos possa lavrar o auto de infração. Essa medida ajuda a combater a sonegação porque agiliza os processos, faz com que o próprio agente de tributos não fique esperando ou tenha que buscar outras alternativas. Essa questão corre há mais ou menos 20 anos e há um sentimento do agente de tributos de desvalorização do seu trabalho, porque ele faz tudo e alguém vai lá e assina. Então quando você faz isso, você valoriza as pessoas, que é uma marca da nossa administração também. De buscar uma gestão voltada para o ser humano. Paralelamente a isso, nós estamos dando reajuste salarial, aumentando o prêmio de desempenho fiscal, resolvendo uma outra questão que era crucial, isto é, uma melhoria dos aposentados, com incorporação de uma parte dos prêmios. Essa é uma reestruturação para uma nova Sefaz.
BN – Agora, por que então que uma proposta que reestrutura o órgão de uma forma positiva, que traz benefícios práticos, tanto para desburocratização da atividade, quanto para a segurança do intermediário, levanta tanta polêmica quanto a que o IAF (Instituto dos Auditores Fiscais) tem feito? A crítica reside onde?
CM – Veja bem, na realidade, o IAF foi criado no final de 2006 e não tinha uma função sindical, era uma função técnica. A partir de um determinado momento eles buscaram uma alternativa sindical e a primeira avaliação que faço é que eles não estão muito adaptados a essa nova realidade. Esse é um governo de diálogo. Agora, para dialogar, você precisa também saber dos espaços. Então eu criei um grupo de trabalho no início do ano para discutir essa questão. Lá havia duas posições, o Sindisefaz queria uma carreira única, ou seja, transformar todo mundo em auditor e o Instituto dos Auditores que defende que não haja mudança e continue a mesma coisa. Depois que terminou o grupo não se chegou a um consenso e eu arbitrei justamente pelo meio: nem uma coisa nem outra, vamos buscar um meio termo, um caminho que é melhor para todo mundo. Melhor para a Fazenda, melhor para o contribuinte, melhor para os agentes de tributos e melhor para os auditores. Infelizmente, qual é a reação do IAF? Eu diria que não é da maioria dos auditores. É de uma parte deles. É um corporativismo natural das entidades sindicais. Aquele medo do novo. A própria peça de publicidade deles diz que serão criados mil novos fiscais. Não é verdade. Dos 980 agentes de tributos, setecentos e poucos já estão na fiscalização. E quando eu tomo essa medida, eu coloco no Código Tributário Estadual uma coisa que não existia. As atribuições específicas dos auditores e dos agentes de tributos. Isso inclusive vai blindar para evitar o que acontece hoje. Muitas vezes um técnico administrativo da Fazenda solicita uma transposição da carreira na Justiça para virar auditor. Por que? Porque não há nada definido claramente. Acho que não tem muito sentido essa reação. É uma reação até desproporcional ao fato.
BN – Não seria uma mobilização com motivações políticas?
CM – Eu não queria dizer que tem componente político nisso. Mas eu acho que tem. Mas acho que a situação vai melhorar depois que a proposta for enviada à Assembléia e que os auditores começarem a tomar mais conhecimento dela, já que a nossa comunicação também não foi forte. Ainda estamos em análise da proposta, mandamos para a Procuradoria Geral do Estado, para não haver nenhum deslize jurídico e para que esteja dentro da economicidade e da legalidade. Nós não enfrentamos essa discussão como o IAF enfrentou, com outdoor e tudo mais. Já apresentei a proposta aos parlamentares da base e vou levar aos deputados da oposição. Já liguei para o deputado Penedo (Gildásio [DEM] – líder da oposição) para marcar essa discussão. Aí eu acho que os auditores vão ver que é uma proposta que além de defender os três pilares que citei, blinda a carreira do auditor-fiscal para que não haja, em nenhum momento, qualquer tipo de transposição, quer seja de auditor, quer seja de qualquer uma outra.
BN – Já há previsão para a reunião com o pessoal da oposição?
CM – Não está marcada ainda não. Apenas liguei para o líder e conversei com ele e me coloquei à disposição para apresentar essa proposta, antes mesmo do debate no plenário.
BN – E a previsão para apresentar o projeto à Assembléia?
CM – Creio que na próxima semana estaremos enviando, já estamos com tudo quase pronto.
BN – E essa relação tripartite entre a Sefaz, o Sindisefaz e o IAF hoje está mais amena?
CM – (risos e silêncio) Eu sou cidadão da atividade sindical, foram 20 anos de atividade sindical, meu último cargo também foi delegado regional do trabalho, então já estou afeito a este tipo de crises, de debates (risos), de discussões. Não me surpreende. Eu acho que em algum momento, a mesa de negociações é o melhor lugar para resolver os problemas. Eu acho que tanto o Sindisefaz quanto o IAF vão perceber isso e vão perceber, fundamentalmente, que essa gestão é uma gestão do diálogo. E quando a gente dialogar e discutir vai ser melhor pra todo mundo. Todo mundo ganha.
BN – Há uma suspeita que foi levantada de que parte das críticas é porque haveria uma institucionalização da propina nessas atividades. Será que parte dos protestos desses profissionais não reside justamente em não ter como tirar um dinheiro extra de uma forma ilegal?
CM – Não acredito. Eu quero rechaçar essa possibilidade. Eu acho que a Secretaria da Fazenda da Bahia tem um histórico de competência, de seriedade, de ética e eu não conheço nenhum indício, nunca ouvi falar e nesses dois anos que estou aqui, não tem nenhuma prova em relação a isso.
BN – Mas isso foi levantado em um debate na Assembléia...
CM – Eu assisti a audiência e acabei não vendo esse enfoque...
BN – Mas foi levantada a hipótese de que haveria gente que queria ganhar no suborno...
CM – Não, não. Essa possibilidade eu descarto veementemente. Mesmo daqueles que porventura podem estar contra, eu acho que é muito mais corporativismo e medo do novo. Eu prefiro crer nisso do que em uma coisa mais subterrânea, vamos dizer assim.
BN – E quando a proposta for apresentada, o senhor acredita que o debate vai evoluir?
CM – Eu diria que hoje, por exemplo, depois da apresentação da proposta global, as resistências diminuíram e eu acho que nós vamos ter a maioria da fazenda na defesa dessa proposta.
"Esse Estado aqui vivia no mundo da fantasia. Ora, ao chegar em 2007 nós detectamos que não era bem assim. Primeiro, havia um esquema muito forte de desvios de recursos públicos instalado na máquina do Estado."
BN – Já que estamos no plano político, o senhor é vinculado a algum partido?
CM – Sou fundador do Partido dos Trabalhadores.
BN – Como o senhor avalia as atuais críticas ao governo Wagner, como integrante da equipe. O senhor acredita que há equívocos ou que a reforma administrativa é apenas um avanço e não uma forma de reparar um erro?
CM –Deixe-me só te falar uma coisa. Esse Estado aqui vivia no mundo da fantasia. Na realidade nós vivíamos há 16 anos, no mínimo, com um bombardeio midiático, que dizia que tudo funcionava bem, que tudo era uma maravilha, que a Bahia não tinha problemas. Isso ancorado em uma forte pressão na Assembléia Legislativa, um forte controle da mídia e um controle do Judiciário e etc, etc e etc. Ora, ao chegar em 2007 nós detectamos que não era bem assim. Primeiro, havia um esquema muito forte de desvios de recursos públicos instalado na máquina do Estado.
BN – A máquina era viciada?
CM – Eu acho. Isso eu posso dizer sem medo de errar. Nossa auditoria geral do Estado detectou problemas graves e encaminhamos todos para o Ministério Público para o TCE (Tribunal de Contas do Estado), alguns até hoje eu não vi resultados do Ministério Público, como a CPI da Ebal, em que apresentamos provas concretas de notas fiscais frias, de desvios de recursos, de licitação superfaturada, de livraria que vendia latas para Nossa Sopa, com volumes consideráveis. O Liceu de Artes e de Ofícios, a OAF (organização de Auxílio Fraternal) com superfaturamento de cadeiras. Algumas anistias fiscais que foram dadas a empresas com valores superiores ao Estado de São Paulo. Ou seja, um conjunto de ações que nada diziam que a Bahia era essa maravilha. E aí, evidentemente, que alguns órgãos refletem essa necessidade, essa realidade. Ou seja tinha um órgão que era para fazer determinada função mas não tinha estrutura embaixo para realizar aquilo. A relação entre o público e o privado aqui era muito grande. Eu não precisava de uma Conder forte porque uma empresa privada fazia o que a Conder tinha que fazer.
BN – E O governo atual não tem falhas?
CM – Nós temos problemas de execução graves em algumas secretarias, de lentidão nos processos, de foco nos nossos objetivos. Temos sim. Mas eu também acho que nesses dois anos nós avançamos muito e fizemos muitas coisas positivas. Na área da Fazenda queria ressaltar o Transparência Bahia, que hoje quase 50 mil pessoas acessam as contas públicas do Estado, uma média de 2.500 pessoas por mês. Toda uma série de vantagens na Internet para o consumidor. Tem aí o Água Para Todos, que é um programa belíssimo, o Topa (Todos pela Alfabetização), a ação da saúde. Você vai visitar, por exemplo, o Hospital Ana Nery, as pessoas dizem “isso aqui é de primeiro mundo”. Você vai observar o que foi feito no Roberto Santos nesses últimos dois anos, é outra realidade. O programa prioritário de internamento domiciliar, estamos agora construindo novos presídios e mini-presídios, ou seja, em todas as áreas nossas e aqui eu poderia falar várias delas. A Secretaria da Administração com o Compromisso Bahia, com uma série de medidas que reduziu os custos, com a denúncia daquele grupo do G-8 que atuava no Estado (e desviava recursos públicos). Então eu poderia passar várias horas falando apenas de ações concretas do nosso governo. Mas isso não quer dizer que seja uma maravilha.
BN – E quais são as secretarias mais problemáticas em sua opinião?
CM – Eu não acho que exista (risos) secretarias problemáticas. Eu acho que temos problemas, mas que aí não cabe a um secretário da Fazenda fazer essa avaliação (risos).