Segunda, 23 de Março de 2020 - 11:10

Ricardo Alban

por Lucas Arraz / Matheus Caldas

Ricardo Alban
Foto: Fernando Duarte / Bahia Notícias

Presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Ricardo Alban não crê que as indústrias em geral irão promover demissões em massa durante a crise do coronavírus. "É um período que nem todas as indústrias vão poder administrar de uma forma confortável, porque vem de um histórico de crise. Mas, de modo geral, não vejo nas indústrias um movimento de efeito manada de demissões por conta de uma crise que nós sabemos que é temporária", avaliou em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Alban ainda falou sobre os aumentos abusivos de insumos médicos durante a crise do coronavírus. “A valorização é inevitável, qualquer que seja o ramo, mesmo que seja o serviço púbico oferecendo. Quando a demanda é maior do que a oferta, ou a qualidade cai, ou o preço sobe. Não tem outra equação que feche. Que vai acontecer pontualmente vai, mas não se esqueça que é uma crise de curtíssimo prazo. 

 

Foto: Fernando Duarte / Bahia Notícias

 

Qual o impacto da crise do coronavírus esperado para a indústria? Vocês trabalham com alguma possibilidade de demissões em massa, como faz por exemplo, o setor de serviços?

Primeiro, que a característica do colaborador da indústria é bastante diferente da do colaborador do serviço e do comércio. O da indústria, normalmente, é um funcionário mais especializado. A gente sabe que, nesse momento, a crise poderá ser num intervalo de três e cinco meses. É um período que nem todas as indústrias vão poder administrar de uma forma confortável, porque vem de um histórico de crise há muito tempo. Mas, de modo geral, não vejo nas indústrias um movimento de efeito manada de demissões por conta de uma crise nós sabemos que é temporária. Ela vai ser mais ou menos longa em função de quanto a gente for capaz de ser previdente e, cada um por si só, ser um autofiscalizador de seus atos e costumes. Então, acho que isso não tem. Nós podemos ter, em alguns momentos, e nós estamos nos preocupando, estamos propondo ao governo do estado, inclusive, junto com a Federação do Comércio, um grupo de trabalho para monitorar tipos de apoio que precisam ser dados setorialmente, se for o caso, e, até mesmo, para a questão de abastecimento. Temos que ter atenção para essa parte do abastecimento de combustíveis, obviamente, e do fluxo da cadeia de alimentos e produtos básicos. É óbvio que deverá ter no setor da indústria, como um todo, como no resto do mundo está acontecendo, alguns hiatos de abastecimento, como no caso das máscaras, do álcool gel. Nisso, é o mercado mesmo que vai ter que se autorregular, porque senão vamos viver naquele caça às bruxas que não vai dar o resultado esperado e só vai criar mais angústias ainda. Estamos preocupados, apenas, porque há uma série de indústrias que já vêm de crise. Mais esse agravamento, será que não seria a gota d'água para essas empresas que já estão enfrentando sérias dificuldades? O que pode ser feito para elas? 

 

O senador Angelo Coronel apresentou um projeto para impedir a exportação de produtos hospitalares como máscaras e luvas. Como o senhor, estando do lado do produtor, enxerga esses indicativos de interferência do Estado?

O Estado precisa acompanhar para mitigar essas distorções. Ele precisa fazer o papel do Estado: ser um regulador. A valorização é inevitável, qualquer que seja o ramo, mesmo que seja o serviço púbico oferecendo. Quando a demanda é maior do que a oferta, ou a qualidade cai, ou o preço sobe. Não tem outra equação que feche. Que vai acontecer pontualmente, vai, mas não se esqueça que é uma crise de curtíssimo prazo. Logo quando veio a inovação do álcool gel por questões de não ser inflamável, houve um excesso de demanda, mas, logo depois, muitas fábricas fecharam ao longo desse últimos cinco ou seis anos. Agora, vai ter esse movimento. Mas é um momento que vai acontecer de três a cinco meses mais ou menos. Os estoques não estão preparados. E não é só às vezes da fábrica. Para comprar matéria-prima, provavelmente o preço subiu. Você tem uma situação que é emergencial e várias cadeias do processo produtivo não estão na mesma sintonia para isso funcionar. O papel do Estado é monitorar e procurar minimizar essa situação, porque é uma questão de saúde pública e, eventualmente suprir, como em algumas ações o Estado está suprindo. O dia-a-dia de cada um de nós é que vai fazer a diferença. 

 

Com quase 1 ano e 4 meses do governo do presidente Jair Bolsonaro, qual sua avaliação até agora para o setor industrial da Bahia?

A indústria na Bahia não é muito diferente do resto do Brasil. A diferença é que nós crescemos muito menos porque ainda temos uma indústria baiana, quer seja na refinaria, no setor petroquímico, na celulose, e apenas uma montadora. Então, nós temos uma concentração. Quando há uma concentração, você tem problemas. No ano passado, o que aconteceu que vai ter impacto para este ano, independente do coronavírus? Tivemos três anos consecutivos com redução da capacidade produtiva da refinaria. Chegou a significar 30% do produto de transformação da indústria. Isso pesa, não só na arrecadação, mas no nosso PIB industrial. Tivemos a Fafen parada, praticamente, o ano inteiro. Isso também tem um peso, e ela foi arrendada agora para o álcool gel, mas só deverá operar no segundo semestre. Então, ainda vai impactar esse ano. 

 

A gente vive uma alta do dólar num Brasil que se desindustrializou, ou seja importa mais, e a gente também tem redução desse valor de venda. Como equilibrar esse problema em que precisa-se importar com a alta do dólar, mas não consegue-se vender tanto quanto se vendia antes? 

É a lei da oferta e da procura mais uma vez. O que acontece agora? Serviço quando você não realiza, acabou. Um dos setores que mais vai sofrer é o turismo e toda a parte de mobilidade, quer seja avião, a parte de ônibus ou metrô. Esses vão sofrer. Alguma parte de consumo se perde, mas vai ser reposto. Só que você vai criar um backlog e todo um represamento de consumo a ser feito. 

 

Levando em consideração o que a indústria baiana produz e o que os baianos consomem, onde essa alta do dólar vai ser sentida pelo consumidor do estado?

Ela ainda não foi sentida porque a demanda está reprimida. Por exemplo, se tem uma queda muito grande dos insumos por base do petróleo, e uma subida do dólar. Isso permitiu uma certa compensação, digamos assim. E algumas outras commodities também aconteceu. Mas é por isso que ainda não temos uma grande pressão. A inflação, inclusive, está sendo revisada para baixo. Por que? Porque houve, não só uma queda relativa de outros insumos, como uma demanda reprimida. O que está acontecendo agora é um fluxo anormal para abastecimento e por ansiedade natural da população de ser precavida. Pontualmente, se tem um álcool gel, uma toalha de papel, uma máscara, que tenha consumos efetivamente limitadas e de uma hora para outra a população passa a consumir. Não tem como esse suprimento ser fluido e equilibrado. Isso não existe. Mas eu não vejo com maiores preocupações o fato de ser uma pressão inflacionária sobre custo por conta desses movimentos. Eu acho mais delicado quando a gente sair desse movimento de crise a gente ter uma pressão de custos do que nesse momento. 

 

Quanto ao Sistema S, o ministro da Economia fez algumas diligências ao sistema. Já foi sentido algum tipo de repressão fatiada?

O Paulo Guedes anunciou. O setor industrial tinha negociado desde meados do ano passado com o secretário Carlos da Costa, que já fazia parte dessa negociação, de que o corte seria de 20% no Sistema S quando da implantação da reforma tributária. Enquanto isso, nós fizemos vários acordos. O próprio ministro Paulo Guedes reconheceu isso. Tivemos vários acordos de cooperação e treinamento com o governo federal. Fomos surpreendidos com o 50%. Eu até entendo que todos nós devemos dar nossa cota, mas o sistema tem que dar conta do seu seguimento. 

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