Segunda, 02 de Março de 2020 - 11:10

Isaac Edington

por Ailma Teixeira / Mari Leal

Isaac Edington
Foto: Paulo Victor Nadal/Bahia Notícias

O presidente da Empresa Salvador de Turismo (Saltur), Isaac Edington, avaliou, em entrevista ao BN, o processo de “valorização do Carnaval” implementado pela gestão ACM Neto ao longo dos últimos oito anos e foi taxativo ao afirmar que a retomada do vigor do circuito Osmar – Campo Grande – depende muito da “sensibilidade” dos blocos e empresários envolvidos no Carnaval.

 

O esvaziamento do mais antigo circuito da maior festa de rua do mundo é, sem dúvida, um debate importante e complexo, que perpassou a festa e, bem provável, mantenha-se vivo até 2021.

 

Para o presidente da Saltur, órgão central na organização do Carnaval, é preciso “mais sensibilidade e equilíbrio para a gente começar a, proativamente, criar soluções que venham ocorrer em resultado prático, porque só ficar falando isso é uma retórica”.

 

“É muito fácil, com todo contexto que ocorreu no passado, crise econômica, a cidade destruída, destroçada, os blocos todos migraram para o outro circuito. Mas tem vários anos que isso vem melhorando. Por que não fazer um movimento de retorno? Por que não cada bloco se estruturar melhor? Por que não os blocos se unirem e colocar duas ou três atrações?”, questiona o gestor.

 

“A gente está fazendo nossa parte. Está fazendo até demais. Justiça seja feita, se é uma pessoa que investe no carnaval chama-se ACM Neto”, completa.

 

Último Carnaval da gestão Neto. Quais foram as principais mudanças implementadas neste período?

O Carnaval tem uma estrutura muito complexa. O que a gente vem trabalhando ao longo dos últimos anos é a valorização da festa. Esse ano, dentro desta proposta de valorizar o Carnaval no Centro Histórico nós fizemos quatro iniciativas, que foram a Arena do Samba, o palco multicultural, que ficou dentro da Praça das Artes, o desfile de fantasias de luxo na segunda-feira na Praça Municipal, e o Espaço Origens, naquela região do Centro Cultural da Barroquinha. Fala-se pouco nisso. Fala-se abandonou o Campo Grande e o Centro Histórico. Da parte do poder público isso não é verdade. Afirmo categoricamente. Ainda sobre as novidades, pegamos um espaço no Rio Vermelho, que também tem toda uma tendência musical diferenciada, levamos o Espaço Mix. Todo dia abria com uma orquestra, valorizando um outro movimento importante na cidade. Nesse mesmo espaço, pela manhã, levamos Lore Improta e várias atrações infantis. Falando em adaptações e melhorias, colocamos grandes atrações nos bairros. Só nos bairros tivemos mais de 1,1 milhão de pessoas. Foram 350 atrações nos bairros. Imagine se essas pessoas tivessem ainda pressionando o circuito. Tudo isso quando a gente junta faz um grande Carnaval. Dez palcos nesses bairros. Tudo isso faz parte dessa dinâmica do Carnaval que é gigantesca. Vi a Segurança Pública divulgar dados bastante expressivos quanto a público, a quantidade de faces que o sistema capturou. É algo gigantesco o Carnaval de Salvador. É gigantesco também o esforço para oferecer uma cidade organizada. Acho que superou todas as expectativas de ter o Carnaval, mesmo com toda polêmica do sistema de funcionamento da PM e se adaptou ao longo dos dias. Um grande Carnaval, de paz, com a participação enorme, a cidade com 95% de ocupação hoteleira, pessoas de todo o Brasil. Tudo isso é importante para fortalecer nosso Carnaval e foi extremamente satisfatório.

 

Quais os pontos que merecem mais atenção para a organização da festa no ano que vem? 

Está essa polêmica de tem muito ambulante e não tem muito ambulante, de o sistema funcionou ou não funcionou. Quando a gente fala nessa questão de organização, a cidade a cada ano vem melhorando isso. A gente não pode fazer uma festa sem ambulante. É Impossível. O que aconteceu nos últimos anos foi uma extrema organização nesse processo. A Semop [Secretaria de ordem Pública] mantém um extremo trabalho de organizar aquilo e a cada ano está mais organizado. Mas a gente começa a discutir coisas que não são essenciais. O essencial é discutir antes do Carnaval como melhorar coisas que já estão em funcionamento. Essa é a questão. Como as ações no Centro Histórico. As pessoas falam ‘vamos fazer, por exemplo, ações na Barroquinha, na Castro Alves’. Já estamos fazendo. Então essa é a questão. Quando a gente fala em melhorar o carnaval a gente precisa que os artistas, os blocos e os empresários tenham mais sensibilidade para com a cidade. É muito fácil, com todo contexto que ocorreu no passado, crise econômica, a cidades destruída, destroçada, os blocos todos migraram para o outro circuito. Mas e aí, tem vários anos que isso vem melhorando, por que não fazer um movimento de retorno? Por que não cada bloco se estruturar melhor? Por que não os blocos se unirem e colocar duas ou três atrações? Acho que precisa ter mais sensibilidade e equilíbrio para a gente começar a, proativamente, buscar soluções que venham ocorrer em resultado prático porque só ficar falando isso é uma retórica. A gente está fazendo nossa parte. Está fazendo até demais. Justiça seja feita. Se é uma pessoa que investe no carnaval chama-se ACM Neto. Mobiliza recurso público, recurso privado de monte para poder montar uma festa complexa como esta. E aí depois vem os especialistas de Carnaval. Um monte de gente que não passa Carnaval aqui, mal conhece o circuito do Carnaval. Chega antes da festa e fala uns impropérios e volta depois, lê algumas matérias que saem no jornal, e acha que sabe o que está acontecendo no Carnaval de Salvador. Aí me desculpe, me bata uma garapa. Isso precisa ser uma discussão pragmática e passa pela sensibilidade e espírito de cooperação dos blocos, dos empresários, dos artistas para começar o movimento de retomada ao Campo Grande. Se for a história, ninguém fez um decreto municipal para descer para a Barra. Os artistas e os empresários desceram naturalmente. 

 

A prefeitura cogita dialogar com esses empresários e tentar reverter a situação?

Claro. Lembro que ano passado nós gastamos dinheiro em pesquisa e entregamos para os blocos, dizendo para que eles entendessem o que estava acontecendo. A prefeitura pagou a pesquisa. Sabe quem apresentou essa pesquisa para os blocos? ACM Neto, numa reunião com todos eles, mostrando que foi uma pesquisa séria. Não é tendenciosa não. É mostrando o que era que o folião pensava dos blocos. Entregamos isso para os blocos. Esse ano negociamos horário com os blocos. ACM Neto à frente disso. Não falta diálogo. O que precisamos fazer é sair da retórica e meter a mão na massa. Quem precisa dar uma contribuição maior são os empresários, os artistas, que precisam ter uma sensibilidade maior e começar a fazer esse movimento. Uma coisa digo e repito, bloco de carnaval é uma coisa extremamente democrática também porque cinco mil pessoas que estão pagando por aquele abadá proporcionam entretenimento, atrações e músicas para em torno de 40 mil pessoas por hora que estão ali trafegando ao redor. Tem um benefício importante. Então, se nesse momento, acha que ainda é importante, e todos nós achamos que o Carnaval do Centro da cidade merece uma atenção especial, essa atenção já é dada bastante nos últimos oito anos por ACM Neto. A gente precisa agora que outros setores se preocupem com isso de fato e meta a mão na massa. 

 

Há quem sugira que ocupar o Campo Grande com camarotes poderia ajudar a trazer de volta a grande massa àquele espaço. Você concorda? Acha que é economicamente viável? 

A questão comercial é muito importante e anda ao lado da questão pública. As pessoas gostam de separar. Eu não separo porque uma depende da outra. Eu tenho 30 anos de história na área de comunicação, sobretudo de Carnaval. Eu entrei no setor público agora. E via o outro lado do Carnaval, por trás das câmeras de televisão, onde eu passei grande parte da minha carreira como executivo. No Campo Grande já teve camarotes em cima do camarote oficial. Eu lembro que tinha algumas marcas que patrocinavam o Carnaval e faziam lá, claro que longe da sofisticação que os camarotes têm hoje, mas todo mundo queria ter um camarote no Campo Grande. Isso vem se modificando. Eu não sei se a solução é ter um camarote no circuito. Pode ser que a solução também seja ter alguma infraestrutura. Por exemplo, ter palco maior em determinado ponto do circuito. Na verdade, essas soluções são muito diversas, mas o que eu acho que quando a gente fala em desfile, ou seja, pessoas, trio elétrico, corda, passa por ter sensibilidade dos artistas e dos blocos para poder voltar. Daniela passou com grande sucesso, Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Saulo, Àttooxxá, Mudei de Nome, todos com grande sucesso. Várias atrações passaram pelo grande e as pessoas vão. Então, por que não os blocos começarem a pensar em alguns produtos. Por que não cada entidade fazer um dia? 

 

Outra questão recorrente é o período do Carnaval. Para muita gente pré-carnaval já é Carnaval e acaba sendo muitos dias de festa. Como a prefeitura está avaliando a dinâmica e o impacto na cidade? 

Tem pessoas que de fato dizem isso. Se você perguntar à população, por ela, tinha até mais dias de Carnaval. O prefeito ACM Neto tomou uma atitude muito importante. Outros estados também já começaram a fazer pré-carnaval. O pré-carnaval tem três questões estratégicas e de extrema relevância para a cidade. Primeiro, fazer com que a gente possa estar atraindo turistas e fazer que eles antecipem a vinda. Muitas vezes esse turista gostaria de vir para o Carnaval de Salvador, mas não para aquele hard e aí ele vem e sente esse gostinho. Muitas vezes a gente reverte. O sujeito vem para passar esse fim de semana antes e reverte em até duas diárias para ficar mais dias aqui. Ele aproveita e conhece nossas praias, gastronomia. Isso no fator econômico é extremamente importante. Segundo, o próprio soteropolitano. Eu, se não estivesse trabalhando, certamente estaria aproveitando a festa. É praticamente uma via de mão dupla. Que também tem um fator econômico embutido porque essa pessoa gasta quando está na rua. Ela consome e é importante para a economia da cidade. De um ponto você antecipa a vida de turistas e da outra você retém o soteropolitano aqui para aproveitar uns dois dias antes de viaje. O terceiro, e é o que eu venho repetindo ao longo do Carnaval, é a formação do folião do Carnaval, do jovem e da criança. Esse ano, uma coisa que chamo atenção é a quantidade gigante de adolescentes que tinha nas ruas de Salvador e não foi só no Furdunço e no Fuzuê. Jovens na rua de uma forma muito contundente. Então, o Fuzuê, sobretudo, tem esse papel de formar o folião de amanhã. É o pai e a mãe que sempre gostaram de Carnaval, que se sentem muito à vontade de ir para a rua, levar seus filhos, levar o bebê de colo, de carrinho de bebê, seus filhos fantasiados para as ruas, curtir a rua no chão, no asfalto. Então, começa a não abrir espaço para ter medo da rua, já achar Carnaval uma coisa natural. Tenho certeza que daqui a 15 anos a gente vai ver o resultado dessa iniciativa. Se as próximas administrações mantiverem isso, como isso é interessante para retroalimentar todo o sistema do Carnaval.  

 

Nesse pré-carnaval, a prefeitura estuda repensar a presença de atrações que arrastam grande massa, como a BaianaSystem, por exemplo, ou investir em atrações menores?

Acho que é prematuro a gente determinar. A gente faz um edital justamente para estimular que tenha atrações com processos diferenciados, surgem revelações nesse processo. Aí mantemos alguns contatos prévios de artistas que podem ter sua agenda. Não é uma coisa tão simples. Eu não digo que vai ter nem que não vai ter. Nós não contratamos nenhuma atração. Eu não tenho essa resposta ainda. A gente vai avaliar. Terminamos agora o Carnaval. Eu acho que o Furdunço é bem interessante ter essa mescla. A gente coloca no máximo 10, são 46 trações no total, de projetos especiais justamente para dar essa pitada. Essa pergunta especificamente sobre a BaianaSystem vai me perseguir até o Carnaval (risos). O público de BaianaSystem é muito mobilizador. Ainda vamos fazer avaliação das apresentações. Esses relatórios estão sendo montados. Aí a gente vai ver se permanece ou não. Se o formato muda ou não. Uma coisa é certa, a intenção é sempre fazer o melhor para o Carnaval.

 

O que fica de legado da gestão ACM Neto, nesse quesito Carnaval, para o próximo gestor da capital? 

O que fica é que nenhum gestor público pode deixar de lado a estratégia de fazer um Carnaval de grande diversidade cultural, musical e operacional. Acho que essa é a essência do carnaval. O nosso papel como gestor público durante o Carnaval é administrar interesses e tensões. É uma coisa muito tensa você acomodar tudo isso. Muitas pessoas que trabalham muito tempo no Carnaval não conhecem tudo. Tem pessoas que estão muito concentradas e não sabe verdadeiramente o que acontece por toda a cidade. Para a gente falar com propriedade precisa conhecer melhor o que de fato acontece nessa festa aqui em Salvador como um todo e que é gigantesco. O gestor que suceder o prefeito precisará estar atento a esse equilíbrio. No primeiro ano, quando o prefeito na comunicação dele tinha um vídeo que falava do carnaval sem cordas. O pessoal dos blocos reclamou como se ele tivesse fazendo apologia, que bloco era coisa ruim. Não! Pelo contrário, o papel do setor público é promover um Carnaval democrático. Nenhum de nós do poder podemos dizer que o Carnaval não precisa ter camarote. Claro que precisa! Gera emprego, gera renda, faz parte da economia da cidade. Nós não podemos ser contra nada. Nós temos de ser contra aqueles que querem, por seu interesse próprio, ‘esculhambar’ com o Carnaval. A gente precisa ter um Carnaval sem corda, precisa ter blocos fortes, que dê resultado, que gera emprego, gera renda. Tem que ter camarote forte também. Tem que ter os blocos afros fortes, as entidades precisam de profissionalizar. Tudo isso faz parte do Carnaval e o nosso papel e administrar essas tensões. 

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