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Entrevista

Rafael Amoedo Amoedo: "Acelera Bahia foi a primeira resposta em 30 anos aos anseios do pólo" - 27/08/2008

Por Darlene Pereira

Foto: Darlene Pereira/Bahia Notícias

"Nós trabalhamos aqui na Bahia no limite da nossa capacidade portuária. Eu acho que se faz mágica para que a coisa aconteça"

Por Darlene Pereira

Bahia Notícias - Como surgiu o convite para assumir a secretaria da Indústria, Comércio e Mineração?
Rafael Amoedo - O convite, na verdade, foi feito à época pelo ministro Geddel Vieira Lima, líder do nosso partido, o PMDB; e, por acreditar na proposta do governador, num trabalho voltado para a inclusão, geração de emprego e renda, educação e saúde, pilares que eu sempre administrei. E nesse momento em que vivemos a transparência, o diálogo, o respeito ao cidadão, valores que sempre defendi, sempre quis, achei que eu estava num quadrante da vida em que poderia aceitar, já que essa proposta pensa no coletivo.

BN - Qual o maior desafio ao assumir a pasta?
RA - O desafio na verdade é você ter que aprender a andar em outro ritmo. Na iniciativa privada a deliberação é mais rápida, você tem um poder decisório, e não precisa interagir com um ciclo tão amplo de pessoas. As ferramentas que você disponibiliza são outras. Venho de um mundo informatizado onde você trabalha com um nível mais avançado, tem os upgrades o tempo todo, seu instrumental, seu arcabouço de ferramentas empresariais. Logicamente que no Estado a coisa não se renova com essa velocidade. Então, a gente chega e eu lhe confesso que quando eu cheguei frustrou. Eu quase tive uma depressão profunda.

BN - O que foi mais frustrante?
RA - Exatamente essa falta de ferramentas, disponibilização de informações, banco de dados precisos em que pudesse fazer um diagnóstico, e a partir daí poder traçar todo um plano de trabalho. Felizmente, nós criamos uma estrutura forte, conseguimos colocar pessoas competentes, aproveitamos também a competência de quem já estava aqui. Logicamente que existem funcionários públicos de carreira que têm o seu valor, que temos que aproveitá-los e motivá-los. Então, num primeiro momento, o grande desafio foi motivar a todos e criarmos mecanismos que permitissem fazer a radiografia das coisas e implementar ações.

BN - O Sr. acredita que essa falta de ferramentas esteja, de alguma forma, ligada à administração passada?
RA - Veja bem, não podemos precisar do que vem, o importante é que o estado precisa oxigenar, se renovar. Eu sou partidário de um estado que tenha o tamanho da necessidade. O estado necessário, e que você consiga com isso uma redução até de pessoas na máquina, mas com uma melhor qualificação e com melhor nível de salário. O grande desafio é você conseguir trazer as pessoas de qualidade e pagar por isso. Principalmente no momento atual, com nossa economia superaquecida, demandando de profissionais gabaritados. Então é um apelo muito grande. Hoje, na Companhia Baiana de Pesquisa Mineral, por exemplo, nós aquecemos demais o mundo mineral e com isso a demanda por geólogos é muito grande. Nós precisamos ter os nossos geólogos na CBPM, costumo dizer que a Companhia é a guardiã da riqueza do subsolo da nossa terra. Então, precisamos de gente qualificada, de gente boa. E tendo salários condizentes com suas responsabilidades e com suas necessidades. Portanto, o maior desafio é equacionar essa demanda de bons profissionais.

BN - Qual a situação do setor industrial no Estado?
RA - Eu acho que vai bem. Muito se fala, mas precisamos analisar com propriedade as coisas. Acho que a Bahia ficou muito voltada para a Costa e em torno da Região Metropolitana de Salvador e Feira de Santana, e, com o advento da celulose ao sul, o processo agrícola que vinha normalmente pelo Oeste. O grande desafio hoje não é só consolidar o que já tem feito, mas interiorizar as ações de industrialização. E é isso que temos feito. As pessoas, às vezes, se pegam num grande projeto ou choram um determinado projeto, mas nós não choramos por nada, porque nós temos um grande volume de inserções, novas empresas chegando, essa interiorização, o mundo mineral se abriu de vez, e a partir daí vem toda a cadeia como o todo, pois são grandes projetos minerais que acarretam projetos industriais em virtude desses insumos.

BN - E em relação à infra-estrutura?
RA - O maior dos desafios de todos os tempos é a infra-estrutura, porque a Bahia nunca pensou a infra-estrutura de longo prazo, nem em curto prazo, pois só tinha ações mitigadoras, mas não se faz uma grande obra estruturante há muito tempo. Então um dos primeiros pontos de discussão nesse governo e, que graças a Deus prosperou, é que deixamos de pensar a Bahia só em curto prazo, fazemos as ações em curto prazo, mas pensamos a longo e médio prazo. O víeis político tende a concentrar ações de curto prazo, mas nós conseguimos mudar essa lógica. Então, a Bahia hoje tem um macro projeto, um projeto estruturante como essa ferrovia Oeste-Leste que vai entrar para a história, um divisor de águas para a Bahia, com o Porto Sul. Pois, como toda essa província mineral e o desenvolvimento que vai se fazendo em torno disso, e que está se fazendo no interior, cria um novo quadro de demanda de cargas.

BN - Mas, não há carência também de transportes?
RA - Nós temos transportes que operam 10 milhões de toneladas, isso é muito pouco para essa nova realidade da Bahia que começa a se descortinar já agora, em curto prazo, em médio prazo. Esse escoamento mineral e suas conseqüências da industrialização, da verticalização, já são demandas superiores, num primeiro momento, a 25, 30 milhões de toneladas; três vezes a nossa capacidade de hoje. Então, são soluções que urgem. Ainda temos também toda a parte de modelagem, essas concessões da BR 324, 116 e 101 que entram agora, tem também o complexo da via parafuso com o escoamento do pólo industrial, isso dá outra dimensão da realidade. E, logicamente, que vem também a parte dos aeroportos, como o aeroporto de Ilhéus, com vocação industrial. Isso tudo vai ser um alavancador de um processo industrial.

BN - Secretário, a ida da Toyota para São Paulo acabou provocando reações amargas entre os políticos baianos. De que forma o Estado reagiu a essas críticas?
RA - Na concepção política, lógico que a oposição tem que criticar alguma coisa. Mas eu acho que tem que ter o critério de Justiça e, em verdade, muito tem se feito. Quando nós analisamos, desde 1996 para cá, o estado celebrou 984 protocolos de intenções com empresas. Nós temos uma média de captação nos últimos 11 anos na ordem de R$ 3 bilhões, incluindo aí a Ford, Monsanta, Nestlé, as grandes empresas, esses eventos significaram a média anual de R$ 3,3 bilhões. Só no ano passado conseguimos captar mais de R$ 8,5 bilhões. Então é muita coisa. Isso significa que em um ano e meio está feito 33% do que foi feito nos últimos 11 anos antes da gente chegar. Então houve um desenvolvimento muito grande nessa área. Muito se falou em investimentos para o pólo industrial, onde foi aplicado mais de 4,5 bilhões, e se formos a valores históricos de implantação do pólo, o pólo custou R$ 11 bilhões.

BN – E qual o papel do Programa Acelera Bahia nesse processo?
RA - O Acelera Bahia foi a primeira resposta em 30 anos aos anseios do pólo. Essa redução de impostos foi estudada e feita a quatro mãos e hoje ela é um alento muito forte para essas empresas. Então, vemos o processo de desenvolvimento como um todo muito bom. Estamos estudando agora o pólo naval, que é tão importante quanto a cadeia automotiva. Nós temos um potencial muito grande na Bahia, seja pelas condições geográficas, condições de porto e até pela própria mão de obra que temos a oportunidade de qualificar. Então, não perdemos a Toyota, pelo contrário, nós concorremos, fizemos uma proposta excelente e foi essa proposta que fez com que a Toyota pensasse bastante tempo para tomar uma decisão. Nós temos cartas da Toyota agradecendo exatamente a qualidade de nossa proposta. E isto nos motiva a dizer que temos um projeto para qualquer outra indústria automobilística vir. Embora não possa citar nomes, estamos discutindo com duas outras empresas. Além disso, hoje o mercado da construção elevou a Bahia para o segundo mercado imobiliário do país, um mercado superaquecido. E isso, além de gerar milhares de postos de trabalhos, gera também uma grande quantidade de insumos e, com isso, podemos cada vez mais verticalizar essa cadeia de insumos da construção civil. Tem o biodiesel e o etanol, que estão indo com uma velocidade muito grande também. Nós estamos em via de assinar um grande contrato com uma empresa coreana agora no município de Barra. Ao todo, nesse ano e meio, nós assinamos 157 protocolos que vão beneficiar mais de 70 municípios, com a geração de 45 mil novos postos de trabalho.

BN - Mesmo com o investimento do governo, ao que o Sr. atribui o esvaziamento contínuo do Pólo Petroquímico de Camaçari?
RA - Eu não vejo o esvaziamento do Pólo. Pelo contrário, vejo empresas vindo, temos conversado com empresas que vão aumentar suas produções e abrir novas linhas. Tenho números que atestam o contrário. Por exemplo, a Bahia Tur praticamente duplicou sua produção, a Braskem, a Ford e a Continental fazendo investimentos, a Unigel, entre tantas outras. Até 2011, essas grandes empresas devem investir cerca de R$ 4 milhões no Pólo. E, desse total, R$ 2,3 bilhões, ou seja, mais da metade desse investimento será no setor de química e petroquímica. Então, esse pólo continua e vai crescer cada vez mais. Então, eu não vejo esse esvaziamento, estão querendo criar esse esvaziamento, mas ele não existe.

BN - Informações dão conta de que muitas indústrias que estavam negociando com o governo do Estado acabaram desistindo e rumaram para outras regiões, a exemplo do Ceará. Isso é verdade?
R.A - Não, não é. Diversas empresas vão para todo lugar, como também têm outras que foram para outros estados e acabaram vindo pra cá. O exemplo claro é a da Multigren, que diz que nunca viu tanta produtividade e tanta ajuda parceria do próprio governo no desenvolvimento de suas nações. Representantes das empresas dizem que já rodaram o país inteiro e, quanto mais rodam, mais investem aqui. Então, eu vejo que a realidade conspira a nosso favor.

BN – O Sr. está bastante otimista, mas quais são as prioridades do governo em curto prazo?
RA - A própria consolidação da cadeia automotiva, do pólo têxtil, os insumos da construção, do pólo naval, o biodiesel, o etanol. O leque é amplo. O estado pensa hoje a curto, médio e longo prazo. Nossa mola propulsora é a infra-estrutura, temos que ver a grandiosidade desses projetos de infra-estrutura que vai chamar a zona de exportação em Ilhéus, com duas grandes siderúrgicas. O business do agronegócio também vai bem. Portanto, temos que olhar o estado equilibrado e homogêneo como o todo.

BN - O que os pequenos e micro empresários podem esperar do Acelera Bahia?
RA - Acho que eles ganharam a competitividade perdida, pois, à medida que você tem o imposto presumido na entrada, quem compra vai se creditar. Isso faz com que as empresas que compravam fora comecem a comprar aqui dentro e cada vez mais o Programa vai tornar essas empresas conhecidas. Nossa meta é aumentar o número de exportações de toda a cadeia.

BN - Como o Sr. avalia a possível venda do Complexo Sauípe para o grupo árabe IFA Hotels & Resorts, um dos maiores conglomerados hoteleiros do Oriente Médio? O Sr. acha que isso abala a economia?
RA -
Eu não vejo isso. Veja bem. Nós temos só no litoral Norte mais de 60 empreendimentos hoteleiros. A Bahia é um vetor natural de turismo, tem grandes projetos, existe um grupo espanhol que está com outro projeto magnífico na região de Palame de Baixios. É um mercado que vai oferecer no primeiro momento a necessidade de mais de 40 mil empregos diretos. Então, isso demanda de sair de figura “A” pra figura “B”, de um ponto a outro. O importante é que ele continue e que continue atraindo. 

BN - E quanto aos portos da Bahia e o comércio em geral?
RA - Nós trabalhamos aqui na Bahia no limite da nossa capacidade portuária. Eu acho que se faz mágica pra que a coisa aconteça. Mas a gente não pode viver mais de mágica. A nova realidade que se configura é uma realidade muito grande, muito forte. Lógico que as intervenções vão ser feitas no Porto de Salvador, de Aratu e no próprio porto de Ilhéus. Mas o novo porto é uma necessidade imperiosa e é nesse que estamos focados, sobretudo porque esse vai ser o alavancador dessa movimentação que a Bahia já se impõe. Então, não é só a riqueza do Estado que vai escoar por esse porto, esse porto vai ser a porta de entrada e saída de matérias-primas também. Já o comércio é conseqüência. Se você tem uma economia aquecida, geração de emprego, se o dinheiro circula, e está circulando, claro que o comércio vai bem, e cresce mais de 10% ao mês como mostra a arrecadação, a quantidade de shoppings se proliferando, o desenvolvimento do comércio no interior, a chegada de novas empresas para a capital, além de outros fatores. Então, o comércio vai bem e será cada vez melhor e os números mostram isso.

BN - A Ferrovia Oeste-Leste seria a grande conquista do governo Wagner?
RA - Não só do governo Wagner, como do povo baiano. Nós estaremos inseridos num dos maiores, senão o maior sistema logístico da América Latina. Nós temos que pensar essa realidade. Hoje, as maiores cargas da rota internacional são operadas por grandes navios cargueiros, navios com capacidade superior para operar com 400 mil toneladas. O objetivo é que a Bahia seja inserida como um ponto de referência nessa rota. E estamos criando as condições para esse grande salto.