Segunda, 03 de Junho de 2019 - 11:10

José Rocha

por Fernando Duarte / Matheus Caldas

José Rocha
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

Vice-líder do governo na Câmara dos Deputados, deputado federal José Rocha (PL) admite que a equipe de Bolsonaro vem sofrendo dificuldades na articulação. Em entrevista ao Bahia Notícias, no entanto, ele ponderou o fato. “É um governo novo que tem também uma experiência a ser adquirida, e isso não tenha dúvida de que há entendimentos nessa condução dos processos dentro do Congresso Nacional. Mas entendo que esses ajustes, aos poucos, irão acontecer, e o governo poderá dialogar com mais amplitude dentro do Congresso", afirmou.

Dentre outros assuntos, o parlamentar baiano também destacou que diverge com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) quando ele fala da “velha política”. “Eu acho que política é uma só. Acho que existe política. Agora, as práticas para exercitar política é que podem ser consideradas antigas e novas”, contrapôs.

No âmbito baiano, o deputado ainda reafirmou o desejo de fortalecer o partido, principalmente para as eleições municipais do próximo ano. Para Salvador, ele aposta que Irmão Lázaro poderia ser eleito numa candidatura independente. “Ele foi deputado federal, candidato ao Senado, tem um espaço conquistado aqui dentro de Salvador, que, através da sua veia artística, ser cantor, ele milita dentro do espaço evangélico, representa a negritude de Salvador”, opinou.

Ao longo da conversa, ele ainda falou sobre a reforma da Previdência e sobre a relação do partido com o governo de Rui Costa (PT).
 

O senhor ficou temporariamente na liderança do PR na Câmara. Já neste ano, acabou substituído no mês de março. Na mesma época, acabou sendo derrotado numa disputa na disputa da coordenação da bancada na Bahia. Na época, um dos argumentos era de que o senhor era excessivamente governista. Realmente aconteceu isso? Como foi esse processo? O senhor é excessivamente governista?
Não. Os fatos, na verdade, são bem diferentes. Eu deixei a liderança do Partido da República, hoje Partido Liberal, para assumir a vice-liderança do governo no Congresso. E esse foi justamente o motivo para eu deixar a liderança do partido. E estava neste cargo até o dia 26 de maio. Fui convidado pelo presidente da República para ser o vice-líder do governo na Câmara. O Diário Oficial já traz essa minha indicação. É uma nova missão para dar um apoio e ajudar o líder do governo na tramitação das matérias do governo lá na Câmara que estão tendo dificuldades de entendimento, e eu vou dar a minha contribuição com o líder do governo nessas matérias que são muito importantes para o país. Temos que entender esse momento como de muita dificuldade... Na área da economia, e mesmo na política, os desentendimentos entre o Congresso e o governo federal têm sido constantes e temos que fazer um alinhamento e fazer um jogo que todos ganhem e não de perde-perde.

O senhor é um político extremamente experiente. Como tem avaliado esse processo de bate cabeças na articulação do governo?
É um governo novo que tem também uma experiência a ser adquirida, e isso não tenha dúvida de que há entendimentos nessa condução dos processos dentro do Congresso Nacional. Mas entendo que esses ajustes, aos poucos, irão acontecer, e o governo poderá dialogar com mais amplitude dentro do Congresso. Está faltando justamente ampliar esse diálogo para que as matérias tenham um ritmo normal, e não que elas sejam motivo de postergação em função dessa falta de diálogo com o governo. Acho que todos nós temos um propósito comum: aprovar tudo aquilo que for da mais alta importância para o país. Temos algumas matérias que dizem respeito a isso, e temos que acelerar sua tramitação sob pena de pagar um preço muito alto por causa desta demora.

O centrão foi alvo de ataques durante as mobilizações pró-governo, e o PL é considerado centrão. Como parte das manifestações foram incentivadas por figuras ligadas ao governo, atos com esse dificultam a relação entre o Planalto e o Congresso Nacional?
Eu quando fui líder do PL à época, sempre procurei desvincular o partido do centrão. Durante a minha liderança, o partido tinha identidade própria e não se confundia com o centrão. Esse foi um trabalho que eu impus na liderança do partido, demonstrando que nós, como um dos maiores partidos da Câmara, temos que ter identidade própria, e não estarmos formando associações para atuar dentro da Câmara. E eu fiz isso durante todo o período que fui líder, e com êxito nessa empreitada. Hoje, se fala muito no centro que o PL incorpora, o centrão com outros partidos, e isso tira a identidade individual de cada partido. O que o centrão, hoje, decide dentro da Câmara, sempre é dentro de uma conversa dentro de um grupo de partidos para decidir. Mas eu sempre tenho minhas posições próprias, antes de ser líder, como líder, e continuo tendo agora que estou fora da liderança do partido e na vice-liderança do governo na Câmara dos Deputados.

O senhor avalia que esse chamado centrão é o que o presidente Jair Bolsonaro classifica como “velha política”?
Eu discordo do presidente quando ele fala em velha e nova política. Eu acho que política é uma só. Acho que existe política. Agora, as práticas para exercitar política é que podem ser consideradas antigas e novas, e acho que estamos num momento de exercitar uma política inovadora, propositiva, que venha de encontro com o que deseja nossa sociedade. Hoje temos as redes sociais, que movimentam muito as ideias das pessoas e afora aquilo que é o que diz respeito a verdade, temos os Fale News, que confundem muito as pessoas que estão no dia-a-dia nas redes sociais, então temos que ter responsabilidade muito grande para poder exercitar o nosso mandato, apresentar nossas ideias, defender as nossas convicções, para estar sintonizado com o que deseja o povo brasileiro. E o que o povo brasileiro, no meu entendimento, quer de nós todos? Oportunidade de emprego, segurança pública, anticorrupção, saúde e educação. Se nós pudermos trabalhar e oferecer à população esses itens de maneira horizontalizada para todos, acho que conseguimos sintonizar com a opinião pública, não tenho dúvidas disso.

O Congresso Nacional vive um momento de fortalecimento, em especial quando comparado ao Executivo, que não consegue seguir uma linha na articulação. A ideia de parlamentarismo indireto começa a ter algum tipo de repercussão. Como o senhor interpreta esse debate?
Hoje, o Congresso tem um poder muito forte de decidir as questões importantes do país. Não tenha dúvida que, apesar de estarmos num sistema presidencialista, o presidente precisa conversar muito com o Congresso, dar atenção. A arte dar política, justamente, está em dialogar e convencer as pessoas daquilo que você pretende que elas entendam ser o melhor para o exercício da atividade. Portanto, esta realmente é uma arte que todos nós políticos temos que ter: diálogo e convencimento dentro de normas republicanas, que estejam à vista de todos, seja transparente, e não podemos hoje, de maneira nenhuma ter uma política... Todos nós sabemos que, no passado, não havia a clareza e a transparência que a sociedade exige.

O ministro Paulo Guedes afirmou que, se houver apenas uma reforminha, ele deixaria o país. Os deputados dão sinais que devem modificar o projeto encaminhado à Câmara. Quais os riscos de o governo não emplacar os pontos prioritários levantados pelo próprio Executivo?
Eu tenho um pensamento diferente em relação a essa questão que o governo tem que ir para dentro do Congresso para aprovar a reforma, que o governo precisa estar mais junto. Ele já fez o que é do seu dever, que é preparar o projeto e mandar para o Congresso. Cabe agora ao Congresso se debruçar sobre a matéria, fazer as modificações que acha que tem que fazer, e aprovar ou não aprovar. Acho que essa é função é nossa, dos parlamentares, seja na Câmara ou no Senado. Não podemos estar exigindo do governo que ele vá para dentro da Câmara ou participe desse processo. É um processo interno, é do Congresso, que tem que avaliar o projeto. E, neste sentido, acho que temos quatro pontos só que divergem do projeto que vêm do Executivo: a aposentadoria rural, o BPC [Benefício de Prestação Continuada], o magistério e a capitalização. Acho que, dentro desses quatro pontos, ajustando isso aí, você não terá R$ 1 tri, como o Guedes e o governo pretendem, mas teremos R$ 800 bilhões, que acho que é um valor razoável de receita para, nesses 10 anos, a gente conseguir atravessar essa fase difícil e colocar o ajuste fiscal dentro da normalidade. Mas, não há assim uma guerra no sentido de desfigurar totalmente o projeto de Reforma da Previdência, pois temos consciência da sua necessidade, da urgência e temos que criar as condições para o país investir, crescer, criar emprego, gerar renda e melhorar a vida das pessoas.

Trazendo a pauta aqui para a Bahia, como o senhor defende que o PL deva se comportar nas eleições de 2020. Candidaturas próprias nas maiores cidades deve ser uma prioridade para o partido?
Eu defendo. O partido só cresce se ele realmente for oxigenado nos municípios através de eleições municipais. E acho que temos nomes que acho que podem ser lançados nas eleições de 2020 para as prefeituras maiores do nosso estado.

Qual a posição aqui em Salvador. Em 2018, houve o flerte, digamos assim, com a possibilidade da candidatura de ACM Neto ao governo. O PL vai se aproximar de Rui, do grupo de Neto? Como vai ficar o partido?
O PL se encontra na base do governo Rui Costa. Mas, em relação a Salvador, eu defendo candidatura própria. Nós temos um nome filiado ao partido que eu entendo ser um nome que pode fazer a diferença aqui em Salvador, que é o Irmão Lázaro. Ele foi deputado federal, candidato ao Senado, tem um espaço conquistado aqui dentro de Salvador, que, através da sua veia artística, ser cantor, ele milita dentro do espaço evangélico, representa a negritude de Salvador. Portanto, ele tem uma condição e um fair-play de comunicação que agrada a todos. Então, eu vejo ele como um candidato que, diria assim, tem grandes condições e chances de ganhar as eleições e fazer uma boa gestão.

Mas, no caso do Irmão Lázaro, há a possibilidade que ele seja candidato em Feira de Santana, não é?
Eu acho mais viável uma eleição dele em Salvador que em Feira. Em Feira, há uma política muito consolidada, tipo um Ba-Vi. Lá, se tem o Zé Ronaldo e o grupo do PT de Zé Neto. E o Zé Ronaldo tem o seu vice como o prefeito, que assumiu com sua renúncia para se candidatar ao governo, que é o Colbert Martins. Ele, com certeza, será o candidato à reeleição com o apoio de Zé Ronaldo, que não pode ser desprezada. É uma candidatura forte. Do outro lado, se tem o Zé Neto, que tem anunciado que pretende ser candidato novamente. Então, se polariza muito Feira de Santana. Se entrar com outra candidatura, fica mais difícil. Em Salvador, não, é mais aberta. Aqui você tem Neto, que tem a candidatura provável do Bruno Reis, e o lado do governador que não tem um nome colocado na discussão. Aí haverá várias disputas de nomes, entre PCdoB, PT, PSD, PP... Então você terá nomes em todos esses partidos aí tentando ser o candidato oficial. Eu vejo grande oportunidade de o Irmão Lázaro ser o candidato. Ele agregando esses partidos ou não, acho que ele, numa candidatura independente desses apoios, ele tem condição de sair vitorioso em Salvador. 

O PL está satisfeito com os espaços dentro do governo de Rui Costa?
Estamos. Temos a Secretaria de Turismo, que o governador Rui Costa nos confiou, com o secretário Fausto Franco, desenvolvendo um bom trabalho, no meu entendimento, à frente da Secretaria. Talvez, essa seja a secretaria de menor orçamento dentro do governo. Então, o que estamos lutando junto ao governador é aumentar esse orçamento para que a secretaria possa desenvolver um trabalho mais amplo. Mas nós temos programas importantes. Temos o Prodetur, que é um programa de financiamento com o Banco Mundial. Teremos obras em toda a Baía de Todos-os-Santos, a recuperação do Museu Wanderley Pinho, em Candeias, o píer do MAM, temos píers em vários locais da Baía. A secretaria vai proporcionar uma diversidade de atracadouros com condições favoráveis para movimentar o turismo na Baía de Todos-os-Santos. Também nós temos o aeroporto de Salvador, que será entregue provavelmente todo reformado em outubro, o aeroporto de [Vitória da] Conquista previsto para agosto, e a secretaria tem uma importância muito grande. O que estamos carentes ainda é o centro de convenções. Conversei com o governador e o secretário de Turismo sobre isso. O governo do estado tem que acelerar muito. Tem que decidir onde será e o modelo de gestão, e construir o centro de convenções para retomar os congressos que sempre tivemos em Salvador. Com certeza dará um reforço muito grande à rede hoteleira em Salvador que, neste período agora, começa a ficar muito deficitário.

Salvador comporta dois centros de convenções, já que há um da prefeitura sendo construído e prestes a ser entregue?
Acho que comporta. Depende da finalidade de cada um. O centro do estado será mais voltado para esses grandes eventos. O da prefeitura estará localizado numa área que eu considero inóspita, em função do salitre, dos ventos fortes. Então, não será muito confortável as pessoas conviverem ali em ambiente aberto. Você sofre ali um impacto muito forte do vento, do mar e da maresia, né? Não vejo ali como um local como o mais apropriado para um centro de convenções.

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