Segunda, 04 de Março de 2019 - 11:10

Renildo Barbosa

por Ian Meneses / Jade Coelho

Renildo Barbosa
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

O Rei Momo do Carnaval de Salvador de 2019 destacou a importância da figura momesca utilizando uma analogia: “o Rei Momo está par o Carnaval assim como o Papai Noel está para o Natal”. Renildo Barbosa foi escolhido para o posto no concurso realizado no Clube Fantoches, em 16 de fevereiro deste ano.  O educador social de 42 anos, que já ocupou o posto em 2014, comparou o que mudou no papel exercido e na importância do Rei Momo entre o primeiro reinado a agora. “Em 2014 nós percebíamos que a figura do Rei era muito banalizada, de certa forma só levada para o lado da brincadeira”, relembrou.

 

Na avaliação do Rei Momo, apesar do Carnaval ser um momento de festa, é importante tratar do respeito aos direitos humanos, cidadania e falar de pautas sociais. “Nós começamos a discutir a questão de ter um Rei Momo, que além da festa e diversão, também pudesse falar de direitos e do enfrentamento a violações. Hoje, por exemplo, você tem o Rei Momo que é presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, que é ex-conselheiro tutelar, que já atua no movimento social há mais de 20 anos, e que tem toda capacidade de falar dessas questões. Além de toda alegria, toda brincadeira”, explicou.

 

Para Renildo, é preciso aproveitar o Carnaval parar reforçar a questão do respeito. “Nós precisamos falar sobre isso, que ‘Não é Não’, sobre os direitos da mulher, direito que nós temos que respeitar. Hoje inclusive é bom que a importunação, a tentativa de um beijo, o toque não permitido, é lei e é crime, então a gente está aí também pra chamar atenção para essas questões”, disse.

 

Com 115 quilos, o Rei Momo falou também sobre a gordofobia e discriminação que já sofreu pelo seu peso. “Todo mundo que é gordo já sofreu de alguma forma, com apelidos, vira referência, 'Olha o gordinho aí', 'Ah ta do lado do gordinho'”, assegurou o Rei Momo.

 

“Você chega em uma loja, vê uma roupa lá, e você dificilmente vai encontrar um número maior. E isso é uma forma de discriminação, imposta pelo padrão de uma beleza que normalmente  não se identifica com o tipo de corpo, especialmente dos brasileiros, que não tem esse tipo de corpo que se imagina como padrão de beleza”, destacou.

É a sua segunda vez coroado como Rei Momo, você foi coroado em 2014. Você tentou outras vezes além dessas edições que saiu vencedor?

No ano anterior tentei, fiquei em terceiro lugar, mas foi uma organização um tanto desastrosa. A organização anterior queria dar um golpe e permanecer com o mesmo Rei, não ter eleição, não ter escolha. No dia tivemos alguns problemas. Mas esse ano tivemos uma organização primorosa, conseguiram fazer um processo muito bom, muito contente, muito feliz, está sendo um Carnaval muito organizado e aí nós tivemos [o processo de escolha], claro, que coroou o Rei, que tem tudo pra ser Rei, e tava lá preparado para comandar essa cidade.

 

Essa confusão foi em que ano?

Em 2018.

 

Então foi recente essa confusão?

Isso, ano passado.

 

E era a mesma organização?

Não. Agora nós temos uma organização totalmente diferente. A Associação de Blocos Carnavalescos com o presidente dos Fantoches do Terpe, que já é um clube tradicional, um dos maiores bailes de Carnaval da nossa época, anterior a nossa época aliás. Então foi uma comissão muito organizada, muito tranquila, e que deu todo tipo de apoio para nós.

 

E como surgiu essa vontade de concorrer ao cargo de Rei Momo?

Em 2014 nós percebíamos que a figura do Rei era muito banalizada, de certa forma só levada para o lado da brincadeira, e como nós já tínhamos atuação em blocos como o Cortejo Afro, Olodum, que também tem trabalhos sociais, que levam cultura, leva arte a crianças e adolescentes. Nós começamos a discutir a questão de ter um Rei Momo, que além da festa e diversão também pudesse falar de direitos e do enfrentamento às violações. Hoje, por exemplo, você tem o Rei Momo que é presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, que é ex-conselheiro tutelar, que já atua no movimento social há mais de 20 anos, e que tem toda capacidade de falar dessas questões. Além de toda alegria, toda brincadeira, do acolhimento aos turistas que vão vir. São três milhões de pessoas circulando, é a população de Salvador circulando durante o Carnaval, então nós precisamos falar sobre isso, que ‘Não é Não’, sobre os direitos da mulher, direito que nós temos que respeitar. Hoje inclusive é bom que a importunação, a tentativa de um beijo, o toque não permitido, é lei e é crime, então a gente está aí também pra chamar atenção para essas questões.

 

Você já chegou a participar de algum outro tipo de concurso relacionado ao Carnaval?

Não. Sempre fui muito folião, sempre fui muito de brincar, de ir pra o Pelourinho, para as festas, os blocos, o Carnaval, mas outros concursos não. Mas pode ser que tenha plus size né, quem sabe outros aí.

Como foi todo o processo de período pré-concurso até chegar a noite final para a escolha do Rei Momo?

É um processo de comer muito para manter o peso, eu já emagreci uns dez quilos só nesses dias de calor com essas roupas todas.

 

Então você teve que ganhar peso para ser Rei Momo?

É porque assim, tem que ter a partir de cem quilos. Hoje eu estou com 115 por aí. A gente tem que manter o peso, os quilos e tudo mais, e aí continuar indo para as festas, continuar circulando, continuar antenado nas músicas mais tocadas, continuar com a alegria né, torcer para umas músicas, saber as coreografias, pra estar preparado pra o Carnaval.

 

Você chegou a fazer trabalhos sociais não foi?

Sim, nós tivemos a primeira parte do concurso, que foi uma ideia muito bem pensada pela organização, que foi a campanha de doação de sangue. Nessa primeira parte nós tínhamos uma meta mínima pra levar doadores e pra divulgar nas nossas redes a importância de doar sangue. Uma bolsa pode salvar até quatro vidas, e também o cadastro de medula. E também nós tivemos a arrecadação de alimentos, a nossa torcida colaborou com um quilo de alimento que serão divididos entre cinco entidades aqui de Salvador, Martagão Gesteira, Obras Irmã Dulce, Caasa, BCM e Hospital Aristides Maltez.

 

Você está no seu segundo ano de reinado e é comum ter um Rei Momo mais uma vez vencendo um concurso. Você já sofreu algum tipo de crítica por se candidatar novamente e ganhar mais uma vez por parte de outros candidatos?

Não, diretamente não. Porque todo mundo ali fica naquele clima de alegria, na verdade todo mundo por mais espaços que tenha para confrontos, pra enfrentamentos, mas é uma tranquilidade muito grande e deixa se contagiar pela música, pela dança, pela irreverência que a gente precisa ter. E como eu disse, a organização foi bem tranquila a gente não tem nem tempo pra criticar um ao outro. Muitas vezes as pessoas até escondem que já foram, mas depois passa, entra no clima e já foi.

 

E esse ano você além de ter sido coroado Reio Momo vão ter os dois Guardiões, como vai acontecer essa nova configuração?

Os dois Guardiões acompanham o Rei em todos os seus compromissos. Estão ali para dar suporte, já que são milhões de pessoas, e às vezes o Rei perde a força e os Guardiões estão ali pra dar esse suporte, pra tirar fotos com todo mundo, e para que ninguém fique com queixa de que não conseguiu tirar foto com o Rei Momo.

 

É a primeira vez que foi adotado isso?

É a primeira vez que foram colocados os dois Guardiões, que estarão com o Rei Momo durante todo o Carnaval. Já tem a Rainha e duas princesas, e aí agora ficam os pares certos.

 

Você falou de vários papeis que o Rei Momo vai desempenhar durante a festa. Mas o que é de obrigatório para o Rei Momo cumprir nesse período carnavalesco?

Estar todos os dias no circuito, receber as chaves na quinta-feira como já está anunciado pelo prefeito, e a partir daí ter o domínio oficial da folia, o reinado oficial da folia. Então quinta-feira começa com a entrega das chaves, todo circuito nós fazemos questão de visitar, estarmos em todos os momentos, visitar camarotes, trios, pra que o espirito do Carnaval permaneça. O Rei Momo está par o Carnaval assim como o Papai Noel está para o Natal. Estamos aí para fazer essa presença.

 

E ao longo do ano quais vão ser os trabalhos que você vai exercer?

Geralmente festas, micaretas, São João, já que as nossas festas de São João são fortes, marcantes, então nós sempre temos o Reio Momo participando também. Inclusive como jurado de concurso de quadrilha, arraiais.

 

Passeia pelo estado todo?

Sim. É como dizem, principalmente quem é do interior, quando está indo pra Salvador, está indo para a Bahia. Então normalmente as pessoas chamam. Já estive em Entre Rios, em Cardeal, participando de alguns festejos lá, de algumas animações, abertura do pré-Carnaval.

Em 2008 o empresário Clarindo Silva se envolveu em uma confusão porque ele era Rei Momo e a Justiça mandava tirar o título. Qual é a sua opinião sobre a participação de uma pessoa como Clarindo? Como você já disse, tem um requisito no concurso de que a pessoa tem que ter mais de cem quilos, qual sua opinião em relação a isso? Esse padrão que é exigido no concurso?

Naquela época nós tínhamos como tema de Carnaval a questão cultural de Jorge Amado, dos personagens dele, os livros de Jorge, toda a riqueza de cultura dele. Clarindo Silva é um personagem vivo né, a Cantina da Lua está presente na história, cultura nos livros de Jorge Amado. Então assim, no meu entendimento e opinião, se naquele momento a comissão decidiu que foi ele, assim como foi Gerônimo, apesar de estar mais gordo que eu, mais Rei Momo que eu, Pepeu Gomes que também não era gordo e não teve essa polêmica toda. Em outras cidades já há uma discussão sobre essa questão do peso, até porque nós estamos nessa luta contra a obesidade, por todos os problemas de saúde que a obesidade acarreta. Então não vejo nenhum problema em se fazer uma discussão sobre a questão do peso, da saúde. Eu posso ter cem quilos, que estão bem distribuídos, os meus exames não trazem nenhuma taxa alta que me trouxesse algum problema, mesmo assim tenho que ter um cuidado com a saúde. De uma forma cultural eu posso dizer que Clarindo, com sua alegria, espontaneidade, tanto que estava presente como personagem de Jorge Amado, tem total capacidade de ser o Rei Momo. Apesar de que naquela época, em 2008, era um choque muito grande para a figura que o Rei Momo tem no imaginário das pessoas, como alguém gordo, alguém bonachão, sarcástico. Então Clarindo destoava pela sua magreza, que é invejável inclusive né, porque ele continua lá magro mesmo, parecendo que está mumificado ali naquele corpo, então na época foi um baque para a sociedade.

 

Nesses períodos que tiveram personalidades conhecidas, Clarindo, Gerônimo, Pepeu Gomes, houve enfraquecimento da organização que faz o concurso? Teve algum tipo de conflito?

Naquela época o tema e as discussões foram mais fortes que a organização, e por isso se fragilizou a questão da escolha, como nós tivemos nos anos anteriores e seguintes. A gente teve um período que Ferreira e Ferreirinha foram [Reis Momos] durante anos, sem escolha nenhuma, porque eram bem queridos, pessoas populares, então eles foram sem haver essa disputa. Em determinado momento, há 60 anos, que houve o início do concurso. Esse concurso fez com que se popularizasse, as pessoas discutissem, quem não teve acesso a história do Rei Momo passasse a saber, a conhecer.

 

Em uns noticiários que informaram que você tinha sido o vencedor sempre destacaram o fato do seu peso. Você já sofreu algum tipo de gordofobia?

Todo mundo que é gordo já sofreu de alguma forma, apelidos, vira referência, 'olha o gordinho aí', 'ah ta do lado do gordinho', jaca mole, jacão, tem diversos apelidos que a pessoa recebe na convivência, então a gente precisa muito bem entender o que é bullying. Atualmente essa questão diminuiu, pelo movimento Vai Ter Gorda, os movimentos de enfrentamento aos tipos de bullying, então isso nos ajuda a conviver melhor na sociedade. A partir do momento que há certo tipo de patrulhamento no sentido dessas questões, além dessa tem várias outras fobias e discriminações que a gente enfrenta de forma muito mais eficaz do que antes. Agora todo gordo já sofreu sim bullying, discriminação, inclusive no vestiário. Você chega em uma loja, vê uma roupa lá, e você dificilmente vai encontrar um número maior, e isso é uma forma de discriminação, imposto pelo padrão de uma beleza que normalmente  não se identifica com o tipo de corpo especialmente dos brasileiros, que não tem esse tipo de corpo que se imagina como padrão de beleza.

 

Quem é Renildo por trás dessa fantasia de Rei Momo?

Educador social, uma pessoa preocupada, politizada com os seguimentos sociais, com a defesa de direitos, treinador de Pokémon level 40, e alguém preocupado com uma sociedade melhor. Alguém que saiu do interior em busca de sucesso, de vitória, mas não sucesso e vitória ligados a valores materiais e nem fortuna, mas sim a viver bem, conseguir socializar com aquelas pessoas que estão ao meu redor, direitos garantidos, vida melhor energia melhor e alegria pra todo mundo.

 

Você é de que interior?

Entre Rios.

 

Você falou aí sobre essa questão do seu dia a dia, e qual a sensação que passa por você no momento que você vai estar ali no Carnaval? Porque você já passou por isso. Qual é a sensação, qual é o sentimento, de curtir o Carnaval sendo Rei Momo?

Além de todos os meus sentimentos, alegria, emoção, de viver intensamente aquela loucura, aquela explosão de felicidade, a emoção de cada pessoa que chega, que fala, que ri, grita, então é uma explosão de emoções, felicidade, que muitas vezes a gente acha que está sonhando.

 

Você concorreu ao posto de Rei Momo em 2014, 2018 e 2019, foi consagrado duas vezes. Pretende continuar concorrendo?

Não, agora já está bom. A idade chega, agora a gente pretende continuar ajudando o concurso, apoiando a organização no que for necessário, desde agora. A gente quer fazer uma agenda, para que o concurso permaneça na maneira como foi organizado agora, para que a gente consiga ter com antecedência o hotel onde o Rei Momo e os Guardiões, carro a disposição, a gente ainda não tem essas respostas da organização do Carnaval, a gente está aguardando ainda. A gente faz um apelo a Prefeitura, ao estado, para que possam colaborar com esse glamour, com essa energia, essa imagem no Carnaval. 

 

Esse ano a gente teve pela primeira vez um candidato com deficiência visual no concurso, o Everaldo, como você descreve esse pioneirismo de Everaldo no concurso?

Além de Everaldo que tem deficiência visual, nós tivemos Dirceu Facto, que é jornalista, teve um ACV [ Acidente Vascular Cerebral], e por isso tem deficiência motora adquirida, questões  de mobilidade. Como eu disse, eu participo de Conselhos de Direitos, estou na presença do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, a gente entende que quando há pessoas que não são consideradas comuns, normais, entre aspas, como nós, a gente entende que ta se tornando mais acessível, então se uma pessoa com deficiência visual, uma pessoa cega, com sequelas do AVC vem participar do Carnaval é um recado de que o Carnaval atinge todos os públicos e precisa ser representado por esses públicos. Fiquei muito contente de ter eles junto. Toda essa diversidade dos candidatos nos traz uma alegria enorme.

 

O que mudou entre o Renildo Rei Momo de 2014 e o de 2019?

Aumentei o peso, aumentei a alegria, aumentei a felicidade de estar aqui no Carnaval, e também a força de lutar para que nós tenhamos um Carnaval muito feliz, mas também usando camisinha. Quem vier brincar o Carnaval usa camisinha, quem não vier também usa, quem ficar em casa, quem for para o retiro, use sua camisinha, se proteja. E a gente vai ter um Carnaval com muita felicidade, cidadão, sem exploração de crianças e adolescentes, sem importunação a mulheres, sem violência, um Carnaval de paz.

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