Segunda, 28 de Janeiro de 2019 - 11:10

Nelson Pelegrino

por Rodrigo Daniel Silva / Lucas Arraz / Ailma Teixeira

Nelson Pelegrino
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

Como o PT nunca governou Salvador, cresce no partido o desejo de lançar candidatura própria à prefeitura da capital baiana em 2020. Um desses entusiastas é o deputado federal Nelson Pelegrino, que perdeu a última eleição disputada pelo partido, quando foi derrotado pelo hoje prefeito ACM Neto (DEM) em 2012. Na avaliação dele, a saída do democrata do cargo no próximo ano abre uma “janela de oportunidade” para o PT.

 

"Eu acho que quem ser apoiado tem que estar disposto a apoiar. Mas eu penso que o PT tem legitimidade e o sentimento que eu tenho conversado com todo mundo no partido é de que o PT terá candidato em 2020", ressalta o parlamentar em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Por outro lado, desde o fim do ano passado, o governador Rui Costa (PT) tem estreitado relações com quadros, originalmente, do grupo oposicionista. É o caso do presidente da Câmara Municipal de Salvador (CMS), Geraldo Júnior (SD), e do ex-secretário municipal e atual presidente do Esporte Clube Bahia, Guilherme Bellintani. Ambos são apontados como possíveis candidatos ao Palácio Thomé de Souza. “Em 2012, Bellintani votou em mim para prefeito de Salvador. Eu soube que foi uma das primeiras questões quando ele esteve com o prefeito ACM Neto. Quando foi convidado para ser secretário, ele disse: ‘por uma questão de honestidade, eu tenho que lhe dizer que votei em Pelegrino na eleição, certo?’ (risos). Então, acho que tudo que a gente puder agregar... Política é sempre sobre agregar, a subtração sempre é muito ruim na política”, afirma o petista.

 

Mas esse tópico ainda está longe de ser definido. O que o PT tem como meta já estabelecida para a próxima eleição é investir em quadros para dobrar o número de vereadores na CMS. Atualmente, a legenda conta com três parlamentares de um total de 43. Realidade diferente da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), onde o partido integra a base governista, com 10 representantes e da Câmara dos Deputados, onde possui a maior bancada partidária com 56 deputados federais eleitos.

 

Apesar da articulação capitaneada pelo PDT, que se juntou ao PCdoB num outro bloco de esquerda, Pelegrino avalia que a força do Partido dos Trabalhadores vai colaborar para a reunião dessas siglas, com apoio também do PSB e PSOL, em prol do fortalecimento da oposição ao governo de Jair Bolsonaro (PSL). Para isso, ele destaca que é preciso resolver os problemas com Ciro Gomes (PDT), que faz questão de se manter distante do ônus petista.

 

“Ele tem as observações dele quanto às eleições presidenciais. ‘Ah, mas porque o PT não apoiou Ciro Gomes? Se tivesse apoiado, o PT teria ganhado as eleições’. A minha avaliação é que Ciro nunca quis ser o candidato do PT. Ele queria os votos do PT, é diferente”, critica. Após perder a eleição ainda no primeiro turno, o ex-governador do Ceará não declarou apoio a Fernando Haddad, como esperado e desejado pelos petistas.

 

Ao longo da conversa com o BN, Pelegrino falou ainda sobre a eleição interna do PT, renovação do partido e posicionamento diante do governo federal.

 

Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

 

O PT acertou em não ter candidato à prefeitura de Salvador em 2016?

Eu acho que era o momento do partido. Não temos observações em relação à candidatura da deputada Alice [Portugal, PCdoB] porque ela cumpriu o papel dela, mas acredito que se fosse hoje, acho que o PT teria tido candidato. 

 

Então, nesse sentido, o partido pode apoiar um aliado na eleição de 2020 também?

Eu acho que quem quer ser apoiado tem que estar disposto a apoiar. Mas eu penso que o PT tem legitimidade e o sentimento que eu tenho conversado com todo mundo no partido é de que o PT terá candidato em 2020. Por dois motivos: primeiro porque a gente já vem perseguindo há algum tempo que o partido governe Salvador – o PT nunca governou Salvador. Há um sentimento nesse sentido e acho que é uma boa oportunidade, é uma janela de oportunidade que se abriu. É o final do ciclo de ACM Neto, que completa oito anos de mandato e, evidente que ele vai querer fazer o sucessor dele, mas pela votação expressiva que o partido teve na capital na última eleição, tanto no primeiro como no segundo turno, pela votação que os nossos deputados também tiveram na capital, que a esquerda teve na capital, acho que abre uma janela de oportunidade muito interessante para aqueles partidos que compõem a base do governador Rui Costa ganharem a prefeitura de Salvador. Eu acho que o PT tem legitimidade para isso. Penso que o cenário vai ser um pouco diferente do cenário de 2012-2016, que tem um elemento aí para ser considerado, que é o fim das coligações proporcionais. Então, a tendência, na minha opinião, é de termos no primeiro turno uma pulverização, com os partidos apresentando candidatos, até para reforçar suas chapas proporcionais. Então, a minha ideia é de que o PT deva ter candidato em 2020.

 

No grupo de ACM Neto, vários nomes vêm ganhado forças, enquanto do [lado] PT alguns nomes já se colocaram à disposição. O senhor defende que essa definição de quem vai disputar a prefeitura da capital em 2020 seja tomada o mais rápido possível?

Eu acho que a gente deve amadurecer essa discussão durante o ano de 2019. Na minha opinião, o que eu tenho observado um pouco pra o Gilmar [Santiago], que é presidente do partido, para Marta [Rodrigues], para os vereadores, é que nesse momento nós temos que organizar duas coisas. Primeiro, a nossa chapa de vereadores, onde a gente precisa fortalecer e isso implica em identificar candidaturas com potencial, dentro e fora do partido, porque nós temos relações com diversos movimentos sociais, sindicais e populares. Acho que tem lideranças que não estão filiados ao partido que devem ser filiadas. Devemos trabalhar para que elas sejam candidatas, para que a gente possa, no mínimo, duplicar nossa bancada de vereadores. Acho que essa é a nossa meta mínima, duplicar a nossa bancada de vereadores. Portanto, isso é uma meta que tem que ser perseguida durante o ano. A outra é a gente começar a fazer um balanço mais definitivo sobre a gestão de ACM Neto, porque não é só a gente querer ganhar. É o que Neto fez que nós não faríamos e qual seria a diferença entre o governo do PT e o governo de Neto. Isso é uma coisa que você não constrói só no plano acadêmico, no plano teórico. Tem que ser construído organicamente. Então, acho que nós precisamos ir pra rua, pra os bairros e pra a sociedade, debater um projeto de gestão para Salvador, que seja alternativo ao atual. 

 

Em 2016, o nome do ex-presidente Lula foi muito usado na campanha estadual e ajudou eleger o governador Rui Costa. No ano passado, também teve influência na votação expressiva de Fernando Haddad, o candidato substituto. O senhor acredita que em 2020, o ex-presidente pode ter influência no eleitorado soteropolitano?

O presidente [Lula] sempre tem. Ele é um grande eleitor no Brasil inteiro, não só em Salvador.  O governador Rui Costa é um grande eleitor. O ex-governador Jaques Wagner também. Mas tem um princípio da dialética que eu aprendi há muitos anos atrás, que para mim é fundamental: os fatores externos influenciam, podem até influenciar decisivamente, mas o que determina a mudança são os fatores internos. Então, por mais que a gente tenha a imagem do presidente Lula, do governador Rui Costa, de Jaques Wagner e que isso fortaleça o nosso projeto, mas o que vai determinar a possibilidade de vitória são as forças internas, a nossa capacidade de ter um bom nome, uma boa chapa e ter uma boa proposta para Salvador. Então, esses fatores externos podem contribuir para a vitória.

 

Como é que o senhor observa a aproximação do grupo do governador Rui Costa com aliados de ACM Neto, como o presidente do Esporte Clube Bahia, Guilherme Bellintani?

Eu penso que todo acréscimo, toda agregação é bem-vinda. Não sei se você sabe, mas em 2012, Bellintani voltou em mim para prefeito de Salvador. Eu soube que foi uma das primeiras questões quando ele esteve com o prefeito ACM Neto. Quando foi convidado para ser secretário, ele disse: ‘por uma questão de honestidade, eu tenho que lhe dizer que votei em Pelegrino na eleição, certo?’ (risos). Então, acho que tudo que a gente puder agregar... Política é sempre sobre agregar, a subtração sempre é muito ruim na política. Acho que Bellintani é um nome respeitado do ponto de vista administrativo. Atestado por diversas funções, passou tanto pela iniciativa privada como pela iniciativa pública. Acho que qualquer agregação é positiva. 

Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

 

O senhor falou que o PT pretende dobrar o número de vereadores aqui em Salvador, porém o partido enfrenta uma oposição até que nominal do governo federal, que critica muito nome do PT, em uma primeira eleição sem coligações partidárias. Ou seja, o partido não vai poder “se esconder” na parceria com outras siglas. Qual vai ser a estratégia para vencer essa resistência ao nome do PT?

Muito pelo contrário! Você pode ver pela  última eleição que a legenda mais votada foi o PT. Pode olhar que a maior legenda de votação foi o PT na última eleição, aqui no estado e no Brasil. O PT tem essa coisa que divide no plano proporcional, mas ainda, se você fizer uma conta, e essa conta aí a gente vem fazendo há alguns anos, se o PT tivesse saído sozinho nas últimas eleições as suas bancadas federais, estadual e para vereador seriam muito maiores. Pelo voto do PT, entendeu? Se você tomar o voto na legenda e o voto nos candidatos, sempre nós temos muito mais do que teríamos nas coligações. As coligações às vezes nos são solicitadas como uma forma de abrigar, uma forma de fazer as compensações no plano eleitoral. Mas a legenda do PT ainda é muito forte e o que nós temos que fazer é usar o potencial que nós temos. Quando você faz coligação proporcional, você tende a enxugar a chapa. Como a coligação, para efeitos legais, é um partido único, o que é que acontece? Você é eleito pela ordem sequencial dos mais votados. Então, você tende a dar uma enxugadinha na chapa para fortalecer também seus nomes porque se não você acaba elegendo mais os outros. Mas como você não tem uma coligação proporcional, todos são do mesmo partido, quem foi eleita é do partido, então você pode lançar. A boa chapa é aquela que tem os puxadores de votos, aqueles que estão eleitos, mas puxam. A chamada "barriga", que são aqueles que vão entrar, e a "rabada", que são aqueles que empurram a barriga e aqueles que podem entrar. Então, essa é a chapa que nós vamos montar. Uma chapa com bons puxadores de votos, uma barriga e também por aqueles que vem mais atrás, mas que vão empurrar e que podem, eventualmente, pelo aumento do número de votados e eleitos, entrar também.

 

Especulou-se muito no início do mandato agora do governador Rui Costa que o senhor pudesse assumir uma secretaria. Isso, porém, vem perdendo força com o decorrer do tempo. Queria saber se o senhor acredita que deve ficar fora dessa secretaria e se isso pode enfraquecer uma candidatura a Salvador em 2020.

Nunca foi pensada a possibilidade de eu vir para o governo como estratégia de fortalecimento de nome para Salvador. Essa ideia nunca foi cogitada, nunca foi discutida e acho até que eu tenho minhas observações em relação a isso. Acho que a história já mostrou que não é dentro ou fora de governo que você pode construir uma candidatura. Se você tem personalidade própria, projeto, afirmação social, liderança e, às vezes, até a história recente demonstrou que se você está no lugar certo, na hora certa, você pode ser eleito. É o caso Bolsonaro. Dois anos atrás ninguém nem imaginava. Ele acabou catapultado por uma onda antipetista, conservadora e ele acabou [sendo eleito]. Vai ser um desastre mas... Então, tem muito a ver com o momento, com as características de cada candidatura. Você vê que [Geraldo] Alckmin montou uma grande coligação. Governador de São Paulo por três mandatos e tal. Então, depende muito do momento, da ocasião, do candidato. Depende de ele estar em sintonia com aquele momento. Eu nunca coloquei meu nome para secretaria, isso foi ventilado desde o primeiro momento pelo meu perfil. Existia uma expectativa de o governador chamar três deputados para que os suplentes pudessem assumir. Portanto, pelo perfil, já ter sido secretário de Justiça, ter sido secretário no último governo, meu perfil se encaixava muito nessa perspectiva. Eu fui lembrado, mas nunca coloquei o meu nome, nunca fiz gestão nesse sentido. Embora, sempre ressalvei que um convite do governador nunca se recusa. Se o governador me convidasse, estaria disposto a assumir a secretaria com a mesma dedicação que sempre assumi, na Justiça com Wagner, e do Turismo com ele [Rui Costa]. Mas, a minha disposição, a minha cabeça, é de exercer o meu mandato como deputado. Estou programado para isso, ser deputado federal e exercer meu mandato.

 

O senador eleito Jaques Wagner lançou o nome de Éden Valadares para presidência do PT na Bahia. O que o senhor pensa desta indicação?

É um bom nome. Gosto muito do nome de Éden. Na última eleição, nós apresentamos o nome do nosso companheiro Waldenor [Pereira], disputamos a presidência com ele, e chegamos perto. Penso que o PT tem que renovar. Temos que encontrar um nome que seja a média do partido. Pode ser a vez de Éden e pode ser a de outro. Eu tenho defendido essa tese que nós temos que encontrar o nome de interseção para a presidência do PT, até para não fazer uma disputa interna desnecessária. Acho que o nome tem que ser com características de um nome que dialogue, que possa não ser o nome de uma única corrente somente. Alguém que não coloque uma das correntes sobre as outras, mas um nome que possa representar todas elas. Tentamos isso no PED [Processo de Eleições Diretas] passado, não foi possível. Continuamos perseguindo. Se não for possível, nós vamos apresentar alternativas.

 

E no cenário federal? Se não me engano, a eleição para executiva nacional, para presidência do PT, acontece agora em julho, certo?

Tem um calendário previsto, mas que está se discutindo diante da conjuntura, diante das situações.

 

O senhor é favorável à manutenção de Gleisi Hoffmann na presidência do PT?

Eu acho que é um bom nome, mas o problema que nós estamos discutindo agora dentro do PT é se nós vamos fazer uma dilação deste calendário ou não. Se vamos jogar mais para o final do ano esse processo. Porque tem duas discussões. Se a gente mantém a metodologia atual. Como funciona a metodologia atual? Você tem uma eleição direta para delegados ao congresso municipal e ao congresso estadual e depois tem a eleição de delegados para o congresso nacional. Então, tem uma discussão se vai se modificar essa sistemática da eleição direta, que é o PED, que é o Processo de Eleição Direta, ou se voltaríamos aos tempos do passado, onde você elegeria os delegados. Delegado do âmbito municipal elegeria delegado do âmbito estadual, e delegado estadual tira para o nacional. E todo processo interno é um processo que envolve esforço, envolve mobilização. Como nós vamos enfrentar uma conjuntura de enfrentamento muito grande nesse primeiro ano de governo Bolsonaro... Vai ser o mais duro e mais difícil até virem os desgastes que virão e o governo terá. Não achávamos que seria tão rápido como está sendo, mas o governo ainda tem fôlego, enfrentamento... Há uma discussão se postergaríamos esse processo para o final do ano, entendeu? E o nome de Gleisi é um nome a ser considerado, mas também outros nomes poderão ser apresentados. Nós vamos nos posicionar quando os nomes aparecerem. No último PED, nós apoiamos o nome dela e agora vamos avaliar.

Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

 

Como o senhor acha que deve se iniciar a nova legislatura na Câmara Federal? Qual vai ser a força do governo diante do caso Queiroz?

Todo governo quando começa é forte, não tenha dúvida nenhuma. Mas esse governo ele tem dois problemas. Primeiro problema, eu acho que o caso Queiroz fragilizou muito o governo, o discurso do governo. Vai deixar o governo na defensiva e isso pode ter reflexões na reforma da Previdência, inclusive porque a reforma é impopular. Ninguém sabe qual é a que vem, mas se for a do Paulo Guedes, por exemplo, com Sistema de Capitalização, sistema desastroso, que acabou com a previdência e só foi implantada no Chile durante uma ditadura militar e acabou com a aposentadoria. Quarenta por cento dos chilenos recebe menos que um salário mínimo. A promessa que o governo e os empresários retirariam a contribuição. Os empresários se retiraram, e o governo está tendo que botar para garantir o mínimo do mínimo. Então, é uma agenda impopular a que o Bolsonaro tem. Uma agenda que você só implementa no primeiro ano de governo, com muita força. Qual é o problema dele? Que ele estabelece uma sistemática de formação da base de sustentação do governo com as temáticas muito frágeis. A história recente demonstrou, e Collor é um exemplo disso, de que essa sistemática em algum momento vai falhar. Quem conhece um pouco o Congresso, e eu tô lá há 20 anos, acha que o governo começa com muitas fragilidades. O líder do governo na Câmara é muito fraco, um deputado em seu primeiro mandato. Embora seja assessor, era Consultor Legislativo, mas não conhece a dinâmica. Não é só você conhecer o funcionamento, mas você ter trânsito, saber como as coisas funcionam. Eu acho que há uma agenda irresolvida com o centrão. Esse governo tem uma agenda irresolvida como o centrão e conseguiu puxar uma parte, mas eu sinto que há muita insatisfação. Mas volto a dizer: todo governo que começa, começa forte. Mas esse já começa com fragilidades, e essas fragilidades ao longo do ano, na minha opinião, se apresentarão, se revelarão. Acho que essa pauta do Queiroz deixou o governo de início em uma defensiva grande.

 

Mas deve atrapalhar essas primeiras votações da reforma da Previdência?

Ele vai ter de enfrentar logo de cara uma proposta de CPI. Você tem aí o PMDB fora da base do governo, você tem o PP fora da base do governo, você tem o PTB praticamente fora da base do governo. Você vê que tem muita insatisfação no PP, no PR. A esquerda junta, somada, chega a algo em torno de 120 parlamentares. Para conseguir mais 50 é fácil, fácil, para conseguir 170 assinaturas para ter uma CPI. Então, o governo vai ter que fazer um esforço hercúleo para evitar essa CPI, que se acontecer nós sabemos que isso vai bater diretamente no Palácio do Planalto. Não tem nenhuma dúvida de que ali é pai e filho. Ali há uma trindade muito unida. Então, as revelações vão acontecendo, e você vai vendo que o Queiroz botou R$ 40 mil na conta da primeira-dama, moções [à milicianos], parentes [de milicianos] empregados. É uma teia muito entrelaçada, e que se essa CPI acontecer, pode criar um estrago muito grande no governo Bolsonaro, na imagem dele. Acho que ele já perdeu o discurso, essa é a minha opinião, porque ele não tem mais discurso. Perdeu totalmente o discurso. Lá em Davos, ele dá uma declaração de que se o filho errou, tem que pagar. Aí, chega no Brasil e em uma entrevista chapa-branca, diz que o 'garoto tá sendo punido, que querem punir o garoto para me atingir'. Quem é o Bolsonaro aí? Quem é o verdadeiro Bolsonaro? Ele pensa que a opinião pública é ingênua ou não percebe que há uma incoerência em jogo e que ele está desdizendo tudo que ele disse? Óbvio que está ficando claro para a opinião pública, nas redes sociais que ele sempre foi muito forte, você vê que eles estão na defensiva. A máscara do governo Bolsonaro caiu, a máscara dele caiu. Eu estou há 20 anos no Congresso Nacional, eu conheço Bolsonaro. Ele esteve por 11 anos no PP. Bolsonaro tem gravação na televisão pedindo voto para Aécio Neves e para Sérgio Cabral. É  um discurso retórico que agora o Brasil, a parte do Brasil que votou nele, está descobrindo que era um discurso retórico, e que tudo que ele pegou era da boca para fora, e foi um discurso eleitoral sustentado em grande parte pelas fake news. Se o Brasil tivesse uma legislação rigorosa e o Judiciário mais rigoroso, Bolsonaro seria vítima de uma cassação, pois houve escancaradamente abuso de poder econômico, caixa dois na campanha dele, naquele episódio dos disparos do WhatsApp. Aquilo foi claramente caixa dois. Aquilo interferiu e teve um papel decisivo na campanha eleitoral. Então, se apurar, se houver uma apuração rigorosa desse episódio, ele seria cassado por abuso de poder econômico, por caixa dois. Não tenho dúvida alguma a respeito disso.

 

Gostaria de abrir um debate com o senhor sobre a força do PT na Câmara. O PT saiu das eleições de 2018 com a promessa de ser uma das principais oposições ao governo federal. Entretanto, logo no início do ano, alguns outros partidos do campo de esquerda fizeram movimento para fazer um bloco sem o PT. O partido também ficou um pouco às margens das negociações para apoiar a reeleição de Rodrigo Maia para presidente da casa. Por isso também deve ter tido dificuldades para negociar secretaria, comissões dentro da Mesa [Diretora]. Qual é a avaliação do senhor? O PT chega nessa nova legislatura como a oposição que deveria ser?

Não tenha dúvida. O PT elegeu a maior bancada, mesmo com esse massacre que nós estamos sendo submetido há tantos anos. Elegemos a maior bancada do país, 56 deputados. Podiam ser até 58 deputados. Temos três deputados aí em discussão. Um, acho que já resolvido, mais dois que nós podemos ainda ganhar. Daí, você veja, se o PT tem 56 deputados, você soma a bancada do PDT,  do PCdoB, do PSB dá 60 ou 63 deputados. Esses três partidos juntos equivalem a quase a bancada do PT. Então, a opção deles foi de, regimentalmente, procurar uma articulação que a sua força se equivalesse à força do PT. Você percebe que há dois momentos aí. O primeiro momento é o dia 1º de fevereiro,  que é o dia da posse até 16h, que é o dia de aferição das bancadas e dos blocos. Essa é uma questão meramente regimental, embora isso vá valer por quatro anos. Essa é a primeira movimentação que se apresenta. As bancadas do dia primeiro de fevereiro vão ser referência para os quatro anos de distribuição das comissões e de espaço na Mesa. Essa é uma movimentação meramente parlamentar. Antigamente, se respeitava as proporcionalidades de partidos maiores. Depois, a partir de Eduardo Cunha, no segundo mandato de Dilma [Rousseff], ele fez aquele blocão contra o PT, que alijou o PT de tudo. Eles capturaram a Mesa, as comissões principais e depois deu no que deu. Todo mundo sabe e a história já foi pródiga em revelar. Então, nesse momento, há dois movimentos, um movimento em relação aos blocos para ocupar um espaço na Mesa e nas comissões e há um sub-momento disso, que é essa movimentação em torno da Presidência. O Rodrigo [Maia] temia muito uma movimentação do PSL contra ele. Portanto, ele foi aos altos do PSL, fazendo uma jogada, na minha opinião, errada, pois ele fez uma movimentação sem concordar com ninguém e acabou capturado pelo PSL, não só entregando as principais comissões, mas cargos importantes para formar. Mas eu penso que o Rodrigo não tem interesse na confrontação e não tem interesse em ser refém do PSL. Ele sabe muito bem que não tem condições de fazer uma gestão no confronto direto com o PT e com a esquerda. Daí tem um segundo momento, que você tem hoje na Câmara o bloco da minoria e da oposição. A minoria pode ter dois blocos, um bloco do PT com o PSB, e pode ter um bloco PDT e PCdoB, mas todo mundo é oposição. Todo mundo tá na oposição. O que nós estamos trabalhando agora é um bloco que reúna agora PT, PSB e PSOL. Esse é o bloco que nós estamos trabalhando lá. E esse bloco junto pode ter, inclusive, dois espaços na Mesa e participações importantes nas comissões. Então, aquele bloco original com PDT, PCdoB e PSB, ele se desfez na medida que o PSB não aceita apoiar ou estar no bloco de Rodrigo Maia. Estamos trabalhando agora com esse bloco, mas eu não tenho nenhuma dúvida que a dinâmica do enfrentamento na Câmara nos empurrará para uma oposição unida. Nós temos um problema neste momento com Ciro Gomes, nem é com o presidente do PDT. Ele tem as observações dele quanto às eleições presidenciais. “Ah, mas porque o PT não apoiou Ciro Gomes? Se tivesse apoiado, o PT teria ganhado as eleições”. A minha avaliação é que Ciro nunca quis ser o candidato do PT. Ele queria os votos do PT, é diferente. Ele não queria o carimbo de ser o candidato do PT, mas queria os votos do PT porque sabia que nunca ganharia a eleição sem os votos do PT. Então, se Ciro quisesse ser o candidato do PT, ele teria feito gestos nesse sentido. E gestos do lado de lá também teve em direção a ele. Ele poderia ter sido vice, e não o [Fernando] Haddad. Todo mundo sabia que a possibilidade de Lula ter tido o registro era pequena e o PT daria a vice. Ele seria catapultado. Mas ele nunca trabalhou com esse cenário de ser candidato de um espectro  que não tivesse o carimbo do petismo, essa rejeição que ele achava que o PT tinha, mas ele queria os votos do PT para se eleger. Então, acho que há um problema localizado com Ciro que a gente vai ter que resolver em algum momento, que a história vai nos empurrar para resolver. Nessa cultura não tem dois lados. Existe um governo de ultra-direita no Brasil. Não é nem um governo social-democrata, um governo do PSDB, de Alckmin, um governo até eventualmente do Dória [João Dória, governador de São Paulo]. É um governo de ultra-direita, que tem um ministro da economia que é um cara de extrema direita, ultra-liberal. Você tem um núcleo militar, que tutela esse governo, agregando o Moro [Sergio Moro, ex-juiz e ministro da Justiça] e você tem a família, que é um bando de trapalhões. Então, não há dois lados nesta conjuntura. A história vai mostrar que ou você está do lado do Bolsonaro ou você está na oposição a ele. Eu não tenho dúvida alguma que o PDT está na oposição a Bolsonaro, tanto quanto o PSB, o PSDB, o PCdoB e o PSOL. E essa oposição tende a se ampliar, inclusive, para setores de centro democrático. É nessa perspectiva que nós vamos trabalhar: solidificar a unidade da esquerda, ampla unidade da esquerda e dialogar com setores democráticos para formar uma ampla frente democrática no Brasil para garantir a soberania do país.

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