Segunda, 21 de Janeiro de 2019 - 11:10

Marcelo Nilo

por Lucas Arraz / Jade Coelho

Marcelo Nilo
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

A situação financeira da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) foi alvo de críticas do ex-presidente da Casa e deputado federal eleito Marcelo Nilo (PSB), que demonstrou preocupação com o déficit e atribuiu o cenário à atuação do atual presidente da AL-BA, Angelo Coronel (PSD).

 

"Do orçamento que eu deixei em 2017, que foi feito por mim no ano anterior, ele devolveu R$ 555 mil, fez uma festa devolvendo esse valor. Um ano depois, no orçamento dele, o déficit da Assembleia é de R$ 150 milhões", comparou Nilo, que foi o presidente da Casa por 10 anos. "Na minha [gestão] sempre deixei dinheiro em caixa, a dele teve déficit, é um fato", disse.

 

Um dos erros de Coronel apontados por Nilo foi o pagamento de um "débito discutível", ao se referir a uma ação judicial movida por funcionários da AL-BA para a incorporação de um aumento salarial concedido há mais de 20 anos pelo então presidente do Legislativo baiano, Eliel Martins. "Ele fez uma estratégia de pagar um débito, que é discutível, de R$ 700 milhões a cento e poucos funcionários, que eu saía algemado, mas não pagava, porque é um absurdo. Ele pagou, por isso teve déficit na Assembleia".

 

 

Depois de 10 anos na presidência da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), o senhor foi obrigado a se reinventar dentro do Legislativo estadual. Como foi esse processo?

São 28 anos como deputado estadual, cheguei onde nunca imaginei chegar na minha vida, 10 anos presidente da Assembleia, fui governador interino, fui escolhido pela imprensa que cobre a Assembleia 14 vezes consecutivas como destaque parlamentar então acho que tava na hora de mudar de ares. Você ser presidente e voltar para o plenário é normal e natural. Faz parte do jogo democrático, mas achei por bem tomar a decisão de ir pra Brasília, coloquei meu nome, campanha de um ano e seis meses, me elegi deputado federal, modéstia parte com uma boa votação, e agora espero, modéstia parte, fazer no Congresso o que fiz na Assembleia.

 

Já puxando para o seu posicionamento no Congresso. O senhor será oposição como PSB tem se posicionado até o momento?

Eu vou ser oposição. Eu vou seguir a decisão do partido e minha consciência. Agora o meu partido é a Bahia, tudo que for bom pra Bahia pode contar conosco, tudo que for ruim para a Bahia eu estarei contra. Óbvio que tem o partido, tem minha consciência, mas meu projeto é fortalecer a Bahia.

 

Ser oposição no Legislativo é uma agrura que o senhor conhece bem. Pretende ser um deputado combativo como na época do finado Antônio Carlos Magalhães?

Olha eu sou o único deputado na historia da Bahia que ficou 16 anos na oposição, e sempre com votação crescente, e eu enfrentava Antônio Carlos Magalhães, e eu discursava na tribuna e desafiava ele a me derrotar. Então eu me elegi, vou ser oposição e vou fazer tudo aquilo que eu achar correto. Eu por exemplo sou oposição a Bolsonaro, mas eu torço para que o governo Bolsonaro dê certo. Afinal de contas nós somos brasileiros. O arrear das malas do governo Bolsonaro já foi um susto pra mim. Você ter 11 militares na linha de frente, militar na minha visão, com todo respeito, foi treinado para estar nos quarteis, ministro na minha opinião tem que ser político e gestor. Ser um militar não quer dizer que não seja um bom ministro, mas o militar foi criado para estar nos quarteis, como o político foi feito para ouvir as demandas da sociedade, e o técnico foi criado para exercer o seu papel como gestor. Sempre defendi o seguinte: o secretário ou ministro tem que ser político e técnico, que se for apenas político ele cria tanto problema com o governador, com o presidente, com os parlamenteares que logo logo inviabiliza o governo, mas também se só for político o orçamento no primeiro mês estoura. Então eu defendo um político, mas com habilidades técnicas, as duas funções. Mas você ser militar, na minha visão, você podia ter no Exército, Marinha, Aeronáutica, na Defesa, mas você ter na parte política, na parte de gestão, eu acho que não foi um bom começo.

 

Antes de chegar ao PSB o senhor foi do PSL que é o partido do atual presidente da República, se arrepende de ter saído da sigla?

Vou contar uma história rápida, eu tenho um amigo, que é político, e alguns anos atrás ele me disse que Collor seria presidente da República, e eu disse que não tinha como. Ele me disse que a com a frase ‘Caçador de marajás’ ele seria presidente. Há três anos essa mesma pessoa me disse que Bolsonaro ia ser presidente e eu sorri. Ele me disse que Bolsonaro tava com a frase ‘Bandido bom é bandido morto’ e ia ser presidente. E esta mesma pessoa me disse não ‘Não saia do PSL que você vai ser governador da Bahia’, e eu sai. Talvez se eu tivesse ficado no PSL, com a relação que eu tenho com o atual presidente do PSL e pela força de Bolsonaro eu poderia ter sido senador, governador. Afinal de contas os governadores de Minas Gerais e do Rio de Janeiro se elegeram na sombra de Bolsonaro. Isto quer dizer que eu não me arrependo, porque eu prefiro ser oposição e seguir minha convicções. Mas as coisas na vidas acontecem e só o tempo dirá se eu fiz certo ou errado. Se eu tivesse no PSL, como eu era presidente, eu poderia estar num patamar maior, mas eu preferi sair, não me arrependi porque eu estou num grande partido.

 

No período em que o senhor foi apenas deputado estadual, houve momentos de tensão na relação entre a Assembleia e o Executivo. Uma parte deles o senhor acompanhou e ajudou a criar certo tensionamento, quando chegou a argumentar que não votaria em projeto sem conhecer. A sua relação com o governador Rui Costa passou a ser diferente depois que deixou a presidência da Assembleia?

Muito boa, tive uma audiência com ele segunda- feira de uma hora, tenho uma relação pessoal com Rui Costa, uma relação muito boa. Ele passou a ser governador e nós passamos a ter uma relação institucional. Admiro muito ele, é um grade gestor e grande político, tenho respeito muito grande, mas ele é governador e eu sou deputado federal, eu sei que eu não sou mais presidente da Assembleia. Às vezes eu passo dois, três ou quatro meses sem conversar com ele, como presidente eu falava no mínimo duas vezes por dia. Eu sei o meu papel e minha força, eu sou a força de um deputado federal, ele é uma força de um governador, nós somos amigos, mas respeitamos a força política de cada um.

 

Eu queria que o senhor fizesse um balanço e uma comparação entre a sua gestão e a de Angelo Coronel na Assembleia.

Primeiro é difícil comparar dez anos com dois anos, mas nos fomos dois presidentes completamente diferentes, cada um com seus defeitos e qualidades. O orçamento que eu deixei em 2017, que foi feito pro mim no ano anterior, ele devolveu R$ 555 mil, fez uma festa devolvendo esse valor. Um ano depois, no orçamento dele, o déficit da Assembleia é de R$ 150 milhões. Então são duas gestões completamente diferentes. A minha sempre deixei dinheiro em caixa, a dele teve déficit, é um fato, não estou criticando. Ele fez uma estratégia de pagar um débito, que é discutível, de R$ 700 milhões a cento e poucos funcionários, que eu saia algemado, mas não pagava. Porque é um absurdo, ele pagou, por isso teve déficit na Assembleia. São gestões diferentes, ele teve méritos e qualidades como presidente, muitos, e eu tive as minhas, e também tive muitos defeitos.

 

Mas o senhor acredita que a sua foi melhor?

Eu não posso julgar, eu sou a única pessoa que não posso responder. Os deputados e a sociedade é que vão opinar. Eu realmente acho, modéstia parte, que eu saí com a consciência tranquila de ter feito uma boa gestão, tanto é que eu deixei R$ 6 milhões em caixa, e nunca devi um real a ninguém. Ele fez os dois anos dele e o déficit é de R$ 150 milhões, é um fato.

 

Ele sai com a consciência pesada?

Não, acho que ele sai com a consciência tranquila. Agora, ele é um vencedor, porque ele foi ser senador da República, aliás diga de passagem eu não fui senador porque eu não quis, porque Jaques Wagner me chamou pra ser senador e eu não quis, preferi ser presidente da Assembleia. O Angelo Coronel teve fatos positivos e fatos negativos, eu tive fatos positivos e fatos negativos. Aí quem vai julgar é a imprensa, a sociedade, eu sou a única pessoa que não posso falar. Quando eu falo do déficit é um fato, não estou dizendo se é certo ou errado. A Bahia toda sabe que a Assembleia está com déficit enorme. Só o tempo é que vai julgar se eu fiz certo ou errado. Eu estou convencido que fiz certo.

 

Como é ser padrinho político de um genro, já que o mais comum é os políticos transferirem a herança para parentes como filhos e filhas?

Ele teve 70 mil votos, com meu apoio, ajuda, mas o mérito é dele. É o seguinte, ele trabalha comigo há 10 anos informalmente, viajou comigo durante 10 anos conhecendo as pessoas, e ele foi se apegando aos prefeitos, aos vereadores, líderes comunitários, e foi muito fácil pedir o voto pra ele, ele vai ser um deputado muito melhor do que eu fui, porque ele é advogado, foi diretor da Embasa, é carismático, jovem, tava com muita vontade de ser deputado. Então ele não é deputado por ser meu genro, é deputado pelas qualidades dele. Quando eu decidi ser federal eu reuni todo o meu grupo político, eu disse 'Olha vocês escolham um candidato entre vocês', umas cem pessoas, e eles não chegaram a um acordo, porque um queria fulano, outro ciclano, outro beltrano, e um deles sugeriu que fosse Marcelo Veiga, e foi aprovado na unanimidade. E a eleição dele eu tinha 100% de certeza, da minha eu só tinha 90%, porque a dele onde ele foi votado ele estourou, lugar que eu esperava que ele tivesse dois mil votos ele teve quatro, onde esperava 500 teve mil, porque ele é jovem, carismático, está com muito mais vontade, tesão político, porque eu já tenho 28 anos como deputado e ele está começando agora. Eu acho que ele vai ser um grande deputado. O mérito é dele, óbvio que eu dei a mão, mas a partir de agora eu espero que daqui a quatro anos ele que me ajude com votos e não eu com ele.

 

Sua filha já pensou na carreira política?

 Não, nenhuma delas deu pra política.

 

 

O senhor citou sua amizade com o governador Rui Costa e eu queria saber se toda relação que envolveu a exclusão de Lídice da Mata e a inclusão de Angelo Coronel, que até o senhor declarou apoio a Jutahy Magalhães ao invés de Coronel, desgastou sua relação com o governador?

Eu avisei a Rui Cosa que não apoiaria Angelo Coronel há um ano atrás. Quando estive com ele agora na última segunda-feira, que foi a primeira audiência pública pra nós conversamos mesmo, eu disse 'Você lembra que na presença da sua esposa eu disse que em Angelo Coronel eu não votaria? Então eu não fiz nada escondido'. Não votaria e nem voto, não é porque ele foi presidente e me derrotou não. É porque eu não acredito na maneira que ele faz política, não acredito no estilo dele, então o que ocorreu é que Jutahy, que é meu compadre quatro vezes, que eu votei oito vezes pra deputado, entre eu e Coronel pra presidente de Assembleia, ele tinha dois votos, que era Adolfo Viana e Augusto Castro, ele pediu pra votar em Coronel e não em mim, eu não queria cometer o mesmo erro que ele cometeu, entre Jutahy e Coronel eu acredito em Jutahy, e no projeto político de Jutahy. Então eu disse a ele 'Olha, mesmo com minhas mágoas e ressentimentos, eu sou ser humano, eu não quero cometer o mesmo erro que você cometeu, entre eu e Coronel você ficou com Coronel pra atender pedido de ACM Neto, mas mesmo se o governador ficar triste, magoado, ressentido, eu vou votar em você'. E o governador nunca demonstrou a mim nenhum ressentimento nenhuma crítica, porque ele compreendeu minha posição. Aliás, Jaques Wagner que me lembrou 'Você me disse um ano atrás que não votaria nele'. Se um ano atrás eu comuniquei, e se ele não quisesse que eu não fizesse parte do grupo 'Olha já que não vai votar em Coronel siga sua vida', eu ia seguir minha vida em outro caminho, mas ele ouviu e entendeu. Na realidade eu tenho dever político de votar em Rui Costa e em Jaques Wagner, porque foram pessoas que eu tenho relação política, gratidão, perfil político próximo, eu não tenho porque votar em Angelo Coronel, então eu tomei essa decisão e eles respeitaram. Óbvio que durante a campanha eu não o procurei pra conversar com ele, eu sabia que ficaria uma coisa ruim, trabalhei muito pra Rui, trabalhei muito pra [Fernando] Haddad, muito pra Wagner e votei em Jutahy.

 

A Assembleia exaltou que teve aprovação recorde de projetos, mais de três mil, enquanto o senhor diz que esse foi o pior ano da Casa Legislativa. Onde está a diferença das percepções?

Olha esse foi o pior ano da história do parlamento baiano, se teve 10 sessões foi muito.

 

Mas se exalta que foram três mil projetos aprovados...

Mas aí aprova sem ninguém nem saber o que está aprovando.

 

Então projetos sem efeito na sociedade?

Sem efeito na sociedade. É titulo de cidadão, comenda Dois de Julho. Qual foi o projeto aprovado esse ano em defesa da sociedade baiana? Nenhum. Assembleia não funcionou. Nós chegamos a ter 90 dias sem uma sessão, comissão nem existe na Assembleia neste ano, pra você ter uma comissão na Assembleia era fruto de um esforço enorme do deputado, não estou discutindo se foi certo ou errado, estou dizendo fatos. A Assembleia esse ano não funcionou. A culpa é dos 63 deputados, nisso o presidente não tem culpa nenhuma, a culpa é nossa, é do parlamento.

 

O senhor concorda com as críticas na oposição que falaram que Rui tratou a Assembleia como uma secretaria e a Assembleia agiu como uma secretaria esse ano?

Olha veja bem, na Assembleia o governo tem 46 votos o outro tem 17, 18. Com 45 a 18, o governador Rui Costa tem influência muito grande, como tinha Antônio Carlos Magalhães, como tinha Jaques Wagner. Agora quando eu era presidente eu tinha o apoio da oposição, quem me lançava presidente era a oposição, então se eu tinha o apoio da oposição e do governo, é porque eu respeitava a oposição, se você respeita a oposição você é um presidente de todos. Eu fui presidente cinco vezes, quatro vezes quem me lançou foi a oposição. Eu tinha o apoio dos dois. Agora óbvio, que minha lealdade ao governador Wagner e Rui Costa às vezes as pessoas confundiam com subserviência, que não é verdade. Tanto é que os oposicionistas, diga-se de passagem deputados respeitados, me respeitavam muito e me apoiavam. Então se eles me apoiavam eu tratava eles com respeito. Quando eu fui presidente a oposição existiu na Assembleia, não se votava nada sem a participação da oposição, não se votava nada sem o ok do líder da oposição, tudo era negociado, dificilmente tinha uma obstrução. Eu tenho um respeito muito grande com a oposição porque eu fui oposição. Agora é obvio que, com 46, ele [Rui Costa] tem poder regimental de passar o rolo compressor, isso é normal em qualquer parlamento do mundo. Se você tem 46 a 17 você vai aceitar que um projeto seu fique lá quatro meses sem votar? Não. Ele bota a base, dispensa as formalidades, que está na constituição e no regimento, e termina votando.

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