Segunda, 10 de Dezembro de 2018 - 11:00

Rosemberg Pinto

por João Brandão / Rodrigo Daniel Silva / Jade Coelho

Rosemberg Pinto
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

O novo líder do governo na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), Rosemberg Pinto, acredita que o Partido dos Trabalhadores precisa de renovação. O deputado defende que a sigla invista em atrair novos quadros e a juventude. Na avaliação do parlamentar, o atual presidente do PT na Bahia, Everaldo Anunciação, deve dar lugar a um nome novo. “Eu acho que o partido podia inovar agora na presidência com um nome novo, não necessariamente de idade, mas que não seja parte desse núcleo tradicional da disputa”, defendeu Rosemberg.

 

Sobre o futuro, o petista revelou que existem debates entre os correligionários do partido para que ele concorra a cargos na esfera nacional. “Há uma discussão da minha turma de que acha que eu já dei minha contribuição no estado e poderia assumir uma tarefa no plano federal”, disse. Quando questionado sobre qual o cargo concorreria, o deputado afirmou que ainda não está definido: “Pode ser deputado federal, pode ser governador, pode ser presidente da República”.

 

“Minha pretensão é continuar na política, é fazer com que a sociedade reconheça em mim um deputado que possa estar ajudando a sociedade. A avaliação desse quadro eu não posso fazer agora, eu só posso fazer a avaliação disso no final do mandato”, afirmou.

 

A bancada do governo atualmente é criticada pela oposição por agir como "bancada do amém". Eles alegam que a bancada aprova todos os projetos enviados pelo governador. Como o senhor vê essa acusação da oposição? Vê injustiça nessa acusação?

Primeiro eu acho que há um equívoco na oposição dizer isso até porque nós debatemos muito com a oposição. Há exemplo disso o mês passado fui relator do projeto que debatia as taxas cartoriais, projeto de origem do Poder Judiciário, e nós debatemos muito, fizemos diversas alterações, e aprovamos um tanto quando consensuado, apesar de a oposição sempre se condicionar na hora de votar contrário. Sempre é inserido determinadas demandas da oposição nos projetos que a gente vota, alguns deles obviamente é uma disputa da política, não de conceito de gestão. Na bancada nós também já debatemos muito com o governador Rui Costa que está sempre aberto a ouvir nossas demandas. Então não consigo enxergar dessa maneira. Eu tenho a impressão que como a bancada de oposição tem como referência a prefeitura de Salvador e o prefeito de Salvador deve fazer dessa maneira então eles acham que no governo do estado deve ser assim, mas não é.

 

Em conversa com Rui Oliveira, que é o presidente da APLB, ele criticou duramente a proposta de Rui de tornar diretor e vice cargos de dedicação exclusiva, o que o senhor pensa sobre isso? A situação, os governistas, vão acatar esse pedido da APLB?

Depende do que Rui entende do que é dedicação exclusiva. O que o governador quer é que um diretor de escola seja diretor de escola, seja vice-diretor, porque tem muitos deles que passam lá e depois vão trabalhar na iniciativa privada. O que o governador quer é que haja uma dedicação, você que bota seu filho na escola quer que tenha lá 24h alguém cuidando da escola, pra saber se tá funcionando, fazendo a gestão. Imagina uma escola que você tem um diretor que não está na escola? É esse o conceito que o governador quer.

 

Rui Oliveira deu até um exemplo de que ele trabalha no Colégio Central e a unidade só funciona de manhã e a tarde. À noite o colégio fecha. Como seria essa possibilidade de ele estar ocupando o horário livre dele trabalhando em outro lugar?

O governador não está preocupado com isso, ele tem uma carga horária, oito horas, depois da carga horária de trabalho ele pode fazer o que quiser. O que não pode existir é um professor dar aula no município, dar aula no estado e dar aula em alguma escola da iniciativa privada, não fecha essa conta. Nós também não podemos tomar uma medida que prejudique a maioria por conta de um dois ou três casos, temos que criar regras para evitar que aconteçam as distorções que às vezes acontecem. Vários diretores sabem do que estou falando, sem querer nominar nada, só estou dizendo que havia. Só pra você ter uma ideia foi detectado determinados profissionais que dão atestados de doença para o estado, mas nesse mesmo dia ele estava dando aula na escola privada. O objetivo é criar um regramento para que a população, quem utiliza o ensino público, não tenha prejuízo. Tenho convicção que Rui não defende isso, essa distorção. O governador e nem nenhuma Lei Estadual podem proibir alguém de fazer outra atividade fora do seu horário de trabalho.

 

O senhor foi um dos mais votados pra deputado estadual. O presidente do PT na Bahia, Everaldo Anunciação, chegou a dizer que era a hora do PT presidir a AL-BA, mas na hora H não deu. Enquanto o PT tiver no comando do executivo não vai dar pra o PT ter o presidente da Assembleia?

Não vejo assim. O PT já poderia ter sido presidente da Assembleia, tem legitimidade, tem deputados qualificados pra isso. O que acontece é o seguinte, o PT é o partido do governador nesses últimos 12 anos e será nos próximos quatro, então o PT tem que ter a responsabilidade de garantir a governabilidade na gestão, seja no Legislativo, seja no Executivo, e obviamente dialogando com o Judiciário. Então o PT tem uma reponsabilidade maior e por isso tem que estar aberto a ser ou não ser presidente da Casa dentro da construção de uma gestão compartilhada, com os diversos partidos. Então se tem algum atrito, o PT tem por obrigação ser o primeiro a ajudar a tirar esse atrito. E não é que houve atrito, numa conversa que o governador teve comigo, em uma reunião, me pediu para debater dentro do PT a possibilidade do partido não ter uma candidatura, no sentido de ajudar a construir uma unidade em torno do grupo que compõe o governo, e eu disse pra ele: 'Sem nenhum problema, vamos conversar com a bancada’. Para além das vaidades está a governabilidade, batalhei muito quando Marcelo Nilo era presidente por cinco períodos, batalhei para acabar com a reeleição, e essa era minha bandeira, e consegui aprovar isso no início no mandato do atual presidente. Então já tenho uma satisfação muito grande. Eu não tenho vaidade de ser presidente da Assembleia.

 

O governador participou das negociações?

Participou, mas não com o objetivo de interferir na Assembleia, ele participou com o objetivo de dar governabilidade ao seu campo político.

 

Mas ele pediu para Adolfo Menezes ficar no segundo biênio né?

Não foi ele que pediu, tanto Nelson [Leal] quanto Alex [Lima] e eu já tínhamos dado a ele a possibilidade de não ser candidato. Então todos os três estavam a vontade. O que os três disseram ao governador? 'Governador, qualquer um dos três está com tranquilidade, nós estamos conversando com as diversas lideranças partidárias, com os deputados, agora nós queremos que o senhor converse com o presidente do PSD, PSB, PP, PT, com todos eles para que a gente possa discutir e essa construção unitária, que vai ser validada por ti'. E ele ouviu e obviamente da oitiva do governador, os nomes que estavam mais densos para assumir a presidência eram o nome de Adolfo e o nome de Nelson, então na segunda-feira nós conversamos. E na conversa lá ele disse 'Olha, Nelson, o que você acha de começar?'. E também eu, pessoalmente, acho que o melhor momento para a gestão na AL-BA seria o segundo período.

 

Por essa leitura o senhor acha que o PSD é favorito pra estar na chapa majoritária do candidato a governador?

Não, isso não tem nada a ver. Até porque Adolfo não tem pretensão nenhuma de estar na chapa e ele me disse isso e disse ao governador.

 

Mas fortalece o PSD pra poder estar na chapa?

Necessariamente não, se fosse assim Marcelo Nilo estava na chapa majoritária há muitos anos, não tem relação uma coisa com a outra.

 

Por que então o segundo biênio é melhor do que o primeiro?

Para mim, eu preferiria porque quem vai assumir o primeiro está enfrentando uma conjuntura muito adversa, de redução de custos, esse aí vai ter obrigação de reduzir coisas, e toda a vez que você tem que reduzir alguma coisa são medidas amargas. Então Nelson Leal terá um papel maior do que quem estará no segundo biênio, do ponto de vista de enfrentar essa conjuntura.

 

Qual a pretensão do senhor para os próximos quatro anos?

Minha pretensão é continuar na política, é fazer com que a sociedade reconheça em mim um deputado que possa ta ajudando a sociedade. A avaliação desse quadro eu não posso fazer agora, eu só posso fazer a avaliação disso no final do mandato. Há uma discussão da minha turma de que acha que eu já dei minha contribuição no estado e poderia assumir uma tarefa no plano federal.

 

O senhor pode ser candidato a deputado federal?

Pode ser deputado federal, pode ser governador, pode ser presidente da República. Eu estou dizendo que a conjuntura é muito dinâmica. Ninguém dizia e apostava que Angelo Coronel seria candidato a senador e seria eleito senador da Bahia. A conjuntura levou e propiciou a essa condição. E é lógico que a conjuntura pode ajudar ou atrapalhar, veja quantos deputados qualificados não conseguiram a reeleição, Luciano Ribeiro é um caso desse, apesar de ser da oposição, mas é um deputado extremamente qualificado e vai fazer falta na Assembleia.

 

Existe uma frustação de não ter conseguido se tornar presidente da Assembleia?

Em hipótese alguma. Se fosse pra o ego ou vaidade eu ia manter o tempo inteiro e forçar uma disputa, eu estou muito feliz. Ser presidente é um trabalho do deputado junto com 63 eleitores, então eu estou me colocando para disputar a presidência, feliz é quando alguém reconhece em você a capacidade de representar alguma coisa. Eu estou muito feliz do governador me convidar para ser o líder do governo. Certamente ele deve ter conversado isso com os outros pares do PSB, PDT, PP, PSD. Aí sim é que é felicidade, porque é o reconhecimento de que você é capaz de liderar uma bancada de deputados, de 43 deputados, que são 43 deputados que têm interesses diferenciados pelas suas votações e representações, então pra mim isso é um grande desafio.

 

Agora o senhor vai ser o novo líder do governo, que autocrítica o senhor pode fazer da bancada governista lá na Assembleia?

Na minha opinião não critico, porque a sociedade que decidiu, os 63 deputados são os melhores porque foi a sociedade que escolheu. A sociedade é quem tem que fazer uma avaliação.

 

Eu falo da atuação dos parlamentares dentro da Assembleia...

Olhe bem, nós temos um conjunto de projetos, sou presidente da Comissão de Constituição e Justiça, e tem um número significativo de projetos de deputados cumprindo o seu papel de apresentar projetos, de todos os deputados. Você tem lá deputados assíduos no plenário da Casa, às vezes não tem uma sessão, eu sou crítico à sessão ordinária segunda, terça, quarta, quinta, pra que isso?

 

Não precisa?

Não, não precisa. Sessão ordinária não. O que uma casa legislativa deve ter é debate, temático e de conteúdo. Sessão ordinária é para votar, você pode concentrar isso em dois dias, que é o que acontece na prática. Na prática acontece votação terça e no máximo quarta. No Congresso Nacional a mesma coisa. Nas Câmaras Legislativas estaduais e municipais a mesma coisa. Ou seja, o que a Assembleia precisa é de ter vida, é de ter audiências públicas, que tem muita lá na Casa, precisa trazer a sociedade às comissões funcionando e debatendo os conteúdos.

 

O senhor vê alguma diferença das gestões de Coronel e Marcelo Nilo? Porque para quem está de fora as críticas são as mesmas, problemas com a suplementação, críticas a ausência de debates nas comissões...

Primeiro eu não posso responsabilizar a ausência de debate em comissão ao presidente da Casa, seja ele Marcelo Nilo, seja ele Coronel. A responsabilidade de debate, o funcionamento dela é a responsabilidade dos 63 deputados. O que ocorre é que nós precisamos repensar, e eu defendo isso, nós damos um tempo maior às sessões ordinárias, na minha opinião nem todas necessárias, e damos um tempo menor as comissões. Então nós precisamos mudar esse cenário.

 

Mas tem diferença entre uma gestão e outra?

São gestões diferentes, com problemas semelhantes.

 

Terá diferença da sua liderança para a de Zé Neto?

Eu espero dar continuidade. E ele me disse que espera que eu seja um líder melhor do que ele. Então se ele disse isso eu vou me esforçar para superá-lo, não é uma tarefa fácil. Vou ter que me esforçar muito para chegar ao tamanho da importância dele na casa.

 

Sobre as eleições de 2022, Wagner já disse que o PT pode abrir mão da candidatura ao governador por estratégia política. O senhor concorda com essa tese ou o senhor acha que o PT tem sim que ir para um novo mandato?

Eu discordo de nós nem termos dado posse ao governador ainda e já estarmos discutindo 2022. Eu acho prematuro fazer qualquer alusão a se será o PT ou não será o PT. O partido tem que estar preparado para ser candidato ou não, estar ou não na chapa. Ou seja, é uma nova conjuntura. Na Bahia nos estamos aprendendo a fazer debate coletivo. Por exemplo, eu tinha dúvidas sobre se o PT deveria ter ou não candidatura própria não sendo Lula o candidato a presidente. 

 

Era melhor ter apoiado Ciro?

Não sei se era melhor, eu tinha dúvidas. Como esse debate não avançou eu fiquei na dúvida. Até hoje eu tenho dúvida, porque nós não avançamos nesse debate. Acho que nós cometemos alguns erros, demoramos de apresentar a candidatura de [Fernando] Haddad, fomos até o limite.

 

Wagner seria um candidato melhor?

Do que Haddad eu acho que sim, é a minha opinião. Foi uma decisão partidária, Wagner colocou suas ponderações. Eu até acho que o próprio Haddad preferia Wagner, acho que Rui preferia Wagner, mas o partido é um partido nacional que tem posições diferenciadas no Brasil inteiro. E Wagner também entendeu que naquele momento ele queria consolidar sua gestão no estado da Bahia, fez a sua opção, e foi respeitado pelo partido. Eu não posso definir que alguém vai ser alguma coisa se ela não estiver com vontade de ser aquela coisa.

 

O senhor levanta a bandeira de Wagner voltar a governar a Bahia?

É isso que eu digo, é muito prematura pra gente falar em voltar ou não voltar sobre 2022. De repente o nome melhor é o meu e não o dele.

 

O senhor está se colocando como candidato?

Não, não estou me colocando como candidato, mas estou fazendo uma avaliação de que é necessário a gente avaliar o quadro. Por exemplo, na primeira eleição, eu achava que o melhor nome para ser sucessor de Wagner era o de [José] Sérgio Gabrielli [ex-presidente da Petrobras] e não o de Rui. E no meio do caminho eu verifiquei que o melhor nome era o de Rui, e nós fizemos uma conversa com Gabrielli, Pinheiro, todos que postulavam naquele momento e Rui demonstrou que era quem tinha a melhor condição de fazer a gestão no estado.

 

O senhor é a favor de um retorno de Wagner?

Depende. Se tiver nomes junto com o dele capaz de governar a Bahia eu acho ruim perder quatro anos de Senado apenas pra governar a Bahia. Se tivermos outros nomes que possam também cumprir essa tarefa. Nós estamos em um governo de coalisão, eu não separo o PT dos outros partidos. Da mesma maneira que eu posso apoiar eu também quero ser apoiado, e se eu quero ser apoiado eu tenho que ter disposição para apoiar.

 

E na prefeitura de Salvador? O PT tem que ter candidato?

Sinceramente o PT pode ou não pode.

 

O partido tem nomes para ser candidato à prefeitura de Salvador?

Tem sim, vários nomes. O nome pode ser qualquer um, de repente ele não está entre estes chamados proprietários de mandato, pode ser um nome que não tenha. Não tenho nomes a priori pra lançar.

 

O PT está tendo dificuldade para renovar seus quadros?

Acho que o PT tem que pensar nisso. Não acho que os outros partidos estão renovando melhor. O que está acontecendo é que os outros partidos estão atraindo personalidades para as siglas que obviamente já vem de determinadas representações, veja que alguns partidos que cresceram não necessariamente cresceram com nomes novos, eles migraram de outras agremiações. Eu acho que o PT tem que fazer uma inovação. Nesse ponto o DEM da Bahia, há oito anos, inovou, com novos nomes, com pessoas oriundas que não tinham sido candidatos, pessoas que iniciaram na iniciativa privada, que eram técnicas e que assumiram papeis importantes e você vai identificar nomes jovens que estão na política baiana vinculados ao projeto coordenado pelo prefeito de Salvador. O PT precisa oxigenar, trazer novos nomes. Nós temos que dar oportunidade a juventude, as mulheres, nós temos que fazer isso. Não adianta fazer discurso e na prática criar mecanismos de controle. Nós temos que abrir e isso é um debate que nós estamos tendo dentro do PT, o presidente Everaldo está convicto desta posição, e eu agora inclusive estou montando uma estrutura para que nós possamos descer aos diversos municípios para reorganizar e atrair novos quadros para o PT. Eu acho que o partido podia inovar agora na presidência com um nome novo, não necessariamente de idade, mas que não seja parte desse núcleo tradicional da disputa. Na mesma maneira que para Salvador não tem que ser necessariamente os mesmos nomes. Ou seja, nomes que vão surgindo e que vão credenciando e nós precisamos renovar os quadros do PT.

 

O senhor acha então que precisa de novos nomes para o próximo pleito e para a prefeitura municipal?

Acredito sim. Eu sei que meu amigo Nelson Pelegrino tem uma vontade imensa de voltar a ser candidato, mas eu acho que não impede dele ser candidato. Mas se nós tivermos alternativas com capacidade de gestão, porque não podemos inovar e apresentar novos nomes? Nós já mostramos que nós temos capacidade de apoiar outras candidaturas, como apoiamos a candidatura de Alice Portugal na disputa anterior. 

 

Mas ali ficou demonstrado que o PT não tinha quadros não é?

Não, o PT tinha quadros. Naquele momento tinha quadros. Nós fizemos uma conversa entre diversos nomes e surgiram nomes dentro do PT. Eu me lembro de que Afonso Florence toparia esse embate, mas nós fizemos uma conversa e naquele momento achávamos que poderíamos apresentar e o PCdoB reivindicava pra ele a possibilidade de disputar as eleições. Primeiro nós vamos cumprir duas tarefas: uma de mostrar para a sociedade que nós pudemos apoiar um outro nome nem sempre sendo PT e a outra tarefa de que a gente se envolveu numa política de representação coletiva.

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