Segunda, 30 de Julho de 2018 - 11:00

Vera Lúcia

por Lucas Arraz / Ailma Teixeira

Vera Lúcia
Fotos: Priscila Melo / Bahia Notícias

A candidata à Presidência da República pelo PSTU, Vera Lúcia Salgado, pretende fazer da sua campanha durante as eleições gerais do próximo mês de outubro um chamado à rebelião para a classe trabalhadora, capitaneada pela legenda. “O que falta é uma direção, e é exatamente isso que nós estamos querendo construir junto à classe trabalhadora. Uma direção que esteja desvinculada dos governos e dos patrões”, avaliou em entrevista ao Bahia Notícias. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Vera Lúcia foi militante do PT nos anos 1990 e se candidatou à prefeitura de Aracaju, em Sergipe, em 2012.

 

Durante a conversa, a militante sindical defendeu a expropriação de empresas e latifúndios, assim como a entrega da tutela dessas propriedades aos trabalhadores, como parte das medidas que adotará para combater a concentração de renda no Brasil, caso seja eleita. “Os trabalhadores organizados elaborariam, a partir das necessidades existentes, o plano de obras que nós precisamos de acordo com a demanda da população”, explicou. A pré-candidata também opinou a respeito do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, da política praticada pelo PT ao longo dos anos em que a legenda esteve no poder e afirmou que o PSTU orientaria seus correligionários a anular o voto em um eventual segundo turno disputado entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL).

 

Por fim, Vera Lúcia comentou a exclusão da atual senadora Lídice da Mata e disse que o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado é contra o que chama de “teoria do empoderamento”. “É a teoria de quem acha que a luta contra a opressão por si só resolve os problemas da opressão que nós vivemos. É verdade que, por exemplo, a opressão à mulher é anterior ao sistema capitalista. Mas é verdade também que o sistema capitalista se utiliza vastamente dessa opressão contra a mulher, do fato de sermos negras, por exemplo, inclusive, e todas as diferenças que tem na classe trabalhadora, e se utiliza de todas essas diferenças para potencializar a exploração sobre essa mesma classe”, explica seu posicionamento.

 

Vocês têm uma chapa para a eleição presidencial, mas aqui na Bahia o partido deve puxar o voto nulo. O quanto participar de um processo democrático é importante para a legenda hoje?

É muito importante a gente aproveitar esse espaço das eleições frente a essa crise econômica e política de grande profundidade, do caos social em que a classe trabalhadora e os mais pobres se encontram. Em meio a tanta gente buscando uma saída para essa crise, um partido como nosso, de trabalhadores, um partido que tem por objetivo a luta da classe trabalhadora, a luta por uma revolução socialista e um país socialista, aproveita esse momento para apresentar um programa de saída para a classe frente a essa crise. É muito importante, ao mesmo tempo, dizer aos trabalhadores que não guardem nenhuma ilusão nas eleições. Porque as eleições são um jogo de cartas marcadas onde quem vai dar as cartas serão os grandes partidos, que são aliados dos grandes setores empresariais desse país, tanto nacional quanto internacional, a exemplo dos bancos, do agronegócio, dos grandes empresários. Para os trabalhadores vão sobrar novas promessas e uma realidade que continuará dura. Por essa razão, nós estamos aproveitando também as eleições para fazer a classe trabalhadora um chamado à rebelião, dizendo que ele precisa se organizar no seu local de trabalho, nos seus locais de estudo, no seu local de moradia, de forma tal que, organizados, os de baixo possam derrubar os de cima.

 

Uma das pautas do partido é justamente puxar essa revolução da causa operária, essa revolução da classe trabalhadora. O que falta hoje para a gente vivenciar essa realidade que o partido pede?

A classe trabalhadora brasileira tem lutado muito. Então, não falta disposição da nossa classe para lutar. Isso se evidenciou na greve geral do ano passado, nas manifestações de junho de 2013, nas lutas que foram travadas em Brasília, inclusive em confronto aberto, em uma luta covarde e desigual, de se enfrentar inclusive com a repressão em Brasília. A luta dos caminhoneiros agora recentemente contra a alta do preço dos combustíveis. Então, há várias lutas que você vê no país inteiro, de professores, estudantes, trabalhadores das mais variadas categorias, a exemplo dos trabalhadores da Volkswagen. O que falta é uma direção, e é exatamente isso que nós estamos querendo construir junto à classe trabalhadora. Uma direção que esteja desvinculada dos governos e dos patrões, que seja independente, que seja de luta, e que esses trabalhadores precisam construir, porque a sua principal direção, a direção histórica que a classe trabalhadora brasileira construiu rompeu com ela, e rompeu a partir de uma experiência vivida após mais de três governos do PT, e que a sua realidade não mudou. Tanto é assim que o PT governou o país por mais de três mandatos, governa vários estados, várias cidades do país, e nós vivemos uma realidade do desemprego, de falência dos serviços públicos por falta de investimentos, de privatizações, de pagamento à dívida pública, de controle da economia por multinacionais. Ou seja, a mesma coisa que o Brasil teve desde praticamente toda a sua existência enquanto sociedade capitalista.

 

 

A maioria dos partidos de esquerda no Brasil veem o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como um golpe. Qual leitura a senhora e o PSTU fazem desse processo?

A queda da presidente Dilma do governo tem a ver com uma crise econômica muito grande, que ela teve que se confrontar com a classe trabalhadora e ao aplicar as políticas de ajustes para saída da crise dos capitalistas, a classe trabalhadora rompeu com o PT. Não tendo essa base que lhe dava sustentação, a sua base na superestrutura através dos partidos aliados são como ratos que fogem no navio quando começa a afundar, o PT ficou impossibilitado de governar e assume o seu vice que era [Michel] Temer. Ele só foi vice porque foi eleito na chapa dela. Podendo ter qualquer outro problema de impedimento, seria ele a pessoa que assumiria no seu lugar. Eles optaram por assumir todo o percurso da institucionalidade, e teve tempo para fazer todas as defesas no campo da institucionalidade da mesma forma que eles gostam e prezam da democracia, da institucionalidade. Em nenhum momento eles chamaram a classe trabalhadora a se levantar contra isso, e também não tem como você explicar que logo após o impedimento da presidente Dilma, o Lula saiu em defesa de Michel Temer quando sua chapa esteve para ser cassada juntamente com a de Dilma por utilização de uso desmedido de verbas durante a campanha, inclusive os seus advogados estiveram juntos nesse momento. Logo em seguida também o próprio Lula esteve em vários estados, a exemplo do Nordeste, como Aracaju, Sergipe, onde eu vivo, junto com Jackson Barreto que é do PMDB, com o Renan Calheiros que é do PMDB, continuar ligado a Sarney que também é do PMDB. Ou seja, como é que você justifica estar em um mesmo lugar, inclusive fazendo alianças agora para o governo em vários estados entre golpistas e golpeados?

 

Foi golpe, então?

Não foi golpe.

 

Em um eventual segundo turno entre o ex-presidente Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro, como se comportaria o PSTU?

Certamente chamaria ao voto nulo, porque não há nenhuma possibilidade de você chamar voto em Bolsonaro nem no primeiro, nem no segundo, nem condição nenhuma. E em Lula, os trabalhadores já tiveram a sua experiência.

 

Então, voto nulo?

Não está definido porque isso seria em um segundo turno. Certamente nós discutiríamos, mas certamente há nenhuma razão que justifique...

 

Vou reformular a pergunta então: Então, nesse momento não existiria nenhuma preferência entre nenhum dos dois pré-candidatos?

A preferência do PSTU é apresentar o seu próprio programa, inclusive sozinho.

 

Tocando nesse assunto, o partido não fecha qualquer aliança, é bastante criterioso nesse sentido, assim como também não aceita qualquer tipo de apoio financeiro. Tendo em vista isso, eu queria que você falasse, explicasse um pouquinho mais, qual o principal objetivo posto para o partido com a sua candidatura ao Planalto.

O principal objetivo é exatamente esse que nós estávamos lhe falando agora há pouco. O PSTU está aproveitando esse momento de crise econômica e política, de caos social, para fazer um chamado à classe trabalhadora brasileira e aos mais pobres a se rebelarem contra todo tipo de ataque a ela desferido, para que de forma organizada, os trabalhadores de baixo possam derrubar os trabalhadores de cima. Essa é a principal tarefa que eu cumpro nessas eleições, mas não somente eu e o meu companheiro de chapa, Hertz Dias, mas todas as candidaturas do PSTU em nível nacional, nos Estados em que tivemos possibilidade de lançar as nossas candidaturas.

 

 

O partido prega a Revolução Socialista no Brasil mesmo quando as experiências do movimento não deram muito certo ao redor do mundo. Qual o modelo mais próximo do ideal que é defendido pelo PSTU?

A sociedade socialista é um projeto de sociedade. Dizer que ele não deu certo pelo mundo era dizer que o capitalismo também não daria, porque o sistema capitalista levou 300 anos e ele não foi instituído nas mesmas condições, nem no mesmo lugar, nem se desenvolveu da mesma forma e o mesmo tempo, nem da noite para o dia. O sistema socialista, o projeto de sociedade que ele se baseia diferente da sociedade capitalista, que tem como pressuposto a propriedade privada dos meios de produção e à exploração através do trabalho assalariado para garantia do lucro. Uma sociedade onde essa propriedade dos meios de produção seja especializada, e a produção seja orientada, pensada e elaborada para satisfação das necessidades humanas. Para isso, o Estado precisaria, teria como condição, ser controlado pela própria classe trabalhadora que nós chamamos de Democracia Operária nos seus locais de trabalho, estudo e moradia, onde ele deliberaria, executaria e lançaria os seus dirigentes, seus representantes, e ao mesmo tempo teria controle total sobre ele. Pois sem controle da política e da economia, não se há exercício de democracia e portanto não seria socialismo. Logo, as experiências obtidas, seja na União Soviética depois da subida de Stalin, seja em Cuba, mesmo reivindicando a revolução foi correta, mas ao não ter um estado que correspondesse a sua forma de produção, nem a China, nem a Coreia do Norte são sistemas socialistas aos quais nós reivindicamos. A nossa referência de socialismo são os primeiros cinco anos da Revolução Russa.

 

De acordo com um levantamento do El País, no Brasil, seis brasileiros concentram a riqueza de mais de metade da população mais pobre do país. A gente está falando aí que seis pessoas têm a mesma quantia de dinheiro do que 100 milhões de pessoas. Isso já representa a maior concentração de renda na parcela de 1% da população mais rica. Caso a senhora seja eleita, como o partido e a senhora lidariam com a questão de concentração de renda no país?

Nós temos como programa a expropriação e estatização das 100 maiores empresas desse país; não pagamento da dívida pública, que hoje leva 40% do orçamento do Estado para quatro bancos; a reestatização de todas as empresas que foram privatizadas e colocá-las sob o comando dos trabalhadores; expropriação do latifúndio produtivo e improdutivo, e também coloca-lo sob o comando dos trabalhadores; o não envio das remessas de lucros das multinacionais, e essas empresas também estariam sob controle dos trabalhadores. Essa é a medida para você por fim a concentração de renda existente. Os trabalhadores organizados elaborariam a partir das necessidades existentes o plano de obras que nós precisamos de acordo com a demanda da população, e consequente ele também elaboraria a execução, controlaria tudo isso, inclusive toda a política externa através da estatização dos bancos e nacionalização desses bancos. Consequentemente, controlaria também toda política de comércio exterior e os trabalhadores organizados, controlando o Estado, também seria responsável pelo controle desse desenvolvimento econômico e político, com redução da jornada de trabalho, sem redução de salário, de forma tal que só ficariam em casa os doentes, as crianças e os idosos.

 

Após uma parceria de longa data, houve uma dissidência entre o PSTU e o PSOL. Os dois partidos surgiram como alternativa para esquerda apresentada pelo PT durante o tempo que partido esteve no poder. Quais foram os pontos que distanciaram as duas legendas?

Primeiro porque o PSOL optou por fazer a defesa da presidente Dilma em detrimento de defender a classe trabalhadora quando ela se levantou nesses países para lutar. Preferencialmente, hoje, é uma das principais bandeiras do PSOL a campanha Lula Livre em detrimento, por exemplo, de chamar uma greve geral na luta dos caminhoneiros, que tinha mais de 80% de aprovação da população. Mas também o distanciamento se dá porque são dois partidos com duas estratégias completamente opostas. Nós estamos chamando uma rebelião de uma revolução socialista, e o PSOL defende que os problemas existentes hoje entre a classe trabalhadora e a burguesia se resolvam nos marcos do sistema capitalista. Nos marcos do sistema capitalista é exatamente isso aí que você me apresentou: seis pessoas concentrando a riqueza, a renda, de metade da população pobre. Essa é a lógica e a natureza de funcionamento da sociedade capitalista. Não basta você requerer mais democracia nos marcos deste sistema, porque nós também somos a favor das liberdades democráticas, mas isso significa que o que está aí é a democracia dos ricos. Ou seja, existe o Estado, todas as suas estruturas e todos os instrumentos estão para garantir os interesses da classe dominante. Ou seja, dos grandes empresários, dos grandes banqueiros, dos grandes latifundiários nacionais e internacionais. Portanto, não é possível resolver os problemas da nossa classe nos marcos desse sistema através de pequenas concessões. Até porque hoje nem é possível mais fazer reformas. Os governos têm feito contrarreformas.

 

Neste movimento de dissidência, alguns nomes do partido se moveram para o PSOL à exemplo da ex-candidada ao governo da Bahia pelo PSTU em 2014, Renata Mallet. Existe algum tipo de mágoa pela corrente que migrou para o PSOL?

Não, não existe mágoa. Existem projetos distintos. Os companheiros foram ganhos para esse projeto, para essa proposta. Nós permanecemos como éramos antes.

 

 

Pré-candidata, agora nós vamos entrar em uma última pergunta que diz respeito a uma questão mais local. Eu gostaria de te ouvir como uma mulher da política, presidente de um partido e pré-candidata a presidente da República. Aqui na Bahia, nós temos a questão da chapa do governador Rui Costa, que optou pela exclusão da senadora Lídice da Mata para concorrer à reeleição. Isso levantou diversas críticas de vários setores que cobram a presença de uma mulher, porque a única mulher foi tirada para a chapa ser formada apenas por homens. Eu gostaria que a senhora comentasse sobre a importância da mulher na política, como também comentasse esse movimento de excluir Lídice da Mata da disputa à reeleição ao Senado.

A luta contra a exploração capitalista necessariamente tem que se combinar com a luta contra a opressão. O machismo divide a classe trabalhadora. Por essa razão que o PSTU leva muito a sério o debate da luta contra toda forma de opressão. O machismo que divide a nossa classe, o racismo que divide a nossa classe, a LGBTfobia que divide a nossa classe. O sistema capitalista se aproveita de tudo isso para fragmentar, dividir ainda mais e tencionar a intensificação para nós de todo tipo de exploração. Nós do PSTU agimos de uma outra forma. Nós temos várias candidatas mulheres. Das seis candidaturas do Nordeste, que nós estamos concorrendo nos estados, quatro são de mulheres. No Rio de Janeiro, uma mulher negra, trabalhadora, da periferia é nossa candidata, e temos muito orgulho disso. Porém, mais importante que isso é ter um programa no qual você expresse as necessidades imediatas e históricas da sua classe. É exatamente isso que move o PSTU e toda a luta que nós temos contra todo tipo de opressão também está subordinada à luta contra a exploração.

 

Retirar uma mulher da chapa é só retirar uma mulher da chapa ou isso apresenta mais impacto para a política baiana?

Olhe, o que deveria mover a política, e aquilo que deve mover os trabalhadores na nossa intenção, aquilo que mais nos preocupa, e o que preocupa, eu tenho certeza, e que predomina na cabeça da classe trabalhadora, principalmente dos mais pobres, não é se a chapa é composta por homens ou mulheres, mas se ela consegue, por exemplo, responder ao problema dos 27 milhões de desempregados. O problema da moradia. O problema da violência que mata e encarcera a juventude negra. Essas coisas são o que mais move. Agora, obviamente que é uma atitude que expressa o próprio machismo existente no interior dessa sigla, e que certamente é incompatível com tudo aquilo, inclusive que eles pregam, e que é com o que não temos nenhum acordo, que é com a teoria do empoderamento. Nós somos a favor de uma sociedade socialista, baseada no trabalho social, onde a produção tenha como centro a satisfação das necessidades humanas. Mas, para quem prega o empoderamento e a luta contra a opressão, realmente é um contrassenso.

 

Eu queria explorar um pouco mais essa parte. Como acontece essa relação com o partido e essas causas dentro do PSTU relativas ao empoderamento?

Nós somos contra a teoria do empoderamento. A teoria do empoderamento é a negação da luta de classes. É a teoria de quem acha que a luta contra a opressão por si só resolve os problemas da opressão que nós vivemos. É verdade que, por exemplo, a pressão à mulher é anterior ao sistema capitalista. Mas é verdade também que o sistema capitalista se utiliza vastamente dessa opressão contra a mulher, do fato de sermos negras, por exemplo, inclusive, e todas as diferenças que tem na classe trabalhadora, e se utiliza de todas essas diferenças para potencializar a exploração sobre essa mesma classe. Nós entendemos que a luta contra a opressão ela precisa ser dada em combate de morte porque ela nos divide. Na medida em que um homem é machista e atua de forma machista contra uma mulher, ele atrasa o próprio desenvolvimento da luta de classes contra o nosso maior inimigo que é o explorador. Logo, a denúncia e a luta constante e permanente contra o machismo é uma tarefa permanente que nós não podemos nos furtar. Do mesmo jeito que nós não podemos conceber nenhum tipo de racismo. No mesmo jeito que nós não podemos conceber nenhum tipo de discriminação por conta do seu desejo sexual, e nem podemos também conceber a xenofobia, porque independente da língua que falamos, do país em que estamos, a nossa classe é uma só. Assim como o sistema capitalista explora de forma universal.

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