Cel. Adelson Guimarães comenta sobre chegada na SET em Salvador - 28/04/2008
Fotos: Arthur Roque

“O homem se adapta ao meio, mas não perde seus valores, princípios e raízes”
Por Daniel Pinto
Bahia Notícias – Depois do anúncio de sua indicação para a Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET), alguns funcionários do órgão disseram que, pelo fato do Sr. ser um militar, temiam que a SET tivesse uma rotina mais rígida e a hierarquia fosse similar a de um quartel. O que mudou na estrutura e na rotina da SET desde sua chegada?
Cel. Adelson Guimarães – O temor é natural, porque permanece muito a figura caricata do militar. Uma situação estereotipada, de exceção não pode se constituir regra geral. O crescimento do Brasil, de certa forma, foi pautado em diversas ações militares, que estão muito presente no inconsciente coletivo de nossa sociedade. Ainda hoje, quando se fala num militar no exercício de um órgão público, faz com que remanesçam histórias, notícias, “lendas”, que, lamentavelmente, não qualificam o bom militar, o militar correto e digno.
B.N – Mas, qual o perfil de um militar?
Cel. Adelson Guimarães – - O militar é, acima de tudo, um patriota. Um homem dedicado a servir a sua pátria e o faz com exemplar e invulgar competência. Tanto os militares da ordem federal, que são as Forças Armadas, como os militares estaduais, que se constituem (na verdade) na espinha dorsal da estabilidade social que cada um dos Estados federados requer. Eu sou um desses policias militares, que dediquei 37 anos no anonimato do nosso trabalho para que a sociedade tivesse a sensação de paz e tranqüilidade.
B.N – Voltemos a situação da SET na época de sua chegada.
Cel. Adelson Guimarães – Então, eventualmente, um ou outro movimento político em desconformidade com regras que eu usei no meio castrense, tentou transpor isso para uma atividade civil. Como se o homem não se adaptasse ao meio. O homem se adapta ao meio, mas não perde seus valores, princípios e raízes. É isso que tentamos fazer aqui.
“O militar é, acima de tudo, um patriota. Um homem dedicado a servir a sua pátria e o faz com exemplar e invulgar competência”
B.N – Coronel, por que o trânsito se tornou um dos pontos mais críticos das grandes cidades? Essa é uma sina do desenvolvimento, um problema inevitável nas grandes metrópoles ou, simplesmente, falta de planejamento mesmo?
Cel. Adelson Guimarães – É fácil introduzir uma avaliação sobre essa questão. Em razão da qualidade de vida da população e da longevidade, tivemos um grande crescimento demográfico. Hoje, o brasileiro vive, em média, 70 a 80 anos. Há 50 anos, essa média caía quase pela metade. São questões históricas. Se lembrarmos que há 100 anos a população de Salvador era de 300 mil pessoas para, hoje, ter quase três milhões de habitantes, é um crescimento espantoso. Enquanto isso, as facilidades de crédito também se desenvolveram e o número de automóveis na cidade cresceu atrelado ao aumento demográfico. Hoje em dia, as classes B,C e D têm condições de adquirir um automóvel. O carro é um sonho de consumo, é um ícone no mundo inteiro.
B.N – Com todas essas questões levantadas pelo Sr., mesmo nas grandes cidades, o trânsito pode ser considerado exemplo de segurança e qualidade de vida para a população?
Cel. Adelson Guimarães – Sempre há! Sempre há, porque a engenharia está aí pra isso. Quando há vontade política e recursos para que a engenharia desenvolva um projeto de locomoção adequado para cada cidade, os resultados são excepcionais. O exemplo mais presente no mundo moderno é o que fez Madrid, na Espanha. Ela é uma cidade radial e criou uma série de anéis concêntricos, que faz com que o trânsito da cidade gire entorno dela mesma. São quatro grandes círculos e, o principal, é cortado ao meio por uma grande avenida. Então, esteja onde estiver, você consegue chegar a outro ponto da cidade sem grande esforço e sem cumprir um longo trajeto.
B.N –Existe algo mais próximo da realidade brasileira?
Cel. Adelson Guimarães – Claro! Existem outras medidas como, por exemplo, a restrição ao tráfego de veículos pesados em determinadas vias e ruas. Em determinados bairros, a liberação para estacionamento pode ser restrita aos moradores da localidade. Há também o trânsito seletivo. Então, existe uma série de medidas, que, a depender da necessidade de cada cidade, podem ser adotadas para facilitar o deslocamento e diminuir o nível de stress no trânsito.
B.N – E quanto à Salvador?
Cel. Adelson Guimarães – Topograficamente, a cidade de Salvador é bem distinta das demais. Ela tem a baia de um lado e o litoral de outro. A circulação é feita na linha de cominhado e nas avenidas de vale, no mais, são elevações. Enquanto agente não espraia a cidade em direção à Região Metropolitana, que é o caminho natural de expansão de Salvador, nós vamos ter uma concentração maior de veículos em vias estreitas. Aí, só com a construção de viadutos, pontes, via elevadas e com a melhoria do transporte de massa para diminuir a sobrecarga. Mas, com 10% da frota de veículos crescendo anualmente, teremos que, de forma gradual, usar medidas que retirem o excesso de veículos de determinados locais como, por exemplo, o centro da cidade.
“Quando há vontade política e recursos para que a engenharia desenvolva um projeto de locomoção adequado para cada cidade, os resultados são excepcionais”
B.N – Esses são maiores desafios de sua gestão?
Cel. Adelson Guimarães – São desafios da gestão de qualquer um que venha assumir o cargo de superintendente de Engenharia de Tráfego de Salvador. É um desfio sempre crescente porque essa é uma dinâmica continuada. São os “males” do século XXI (risos).
B.N – Coronel, contudo, a SET tem fama de ser um órgão que prioriza a punição aos infratores em detrimento da educação dos condutores. O que o Sr. pode dizer sobre isso?
Cel. Adelson Guimarães – Não concordo com essa percepção. Os condutores de veículos, também como os pilotos de aeronaves e navios, são treinados, qualificados, formados, avaliados e declarados aptos a exercer essa atividade. As regras de conduta no trânsito são muito claras e emanam da vontade popular porque são constituídas na forma de lei. Paralelo a isso, existe o Código Brasileiro de Trânsito que todo condutor deve conhecer. Nesse sentido, não há como se falar em educação por esse viés. Mas, podemos falar, sim, num processo de consolidação desses valores através de campanhas informativas, o que nós desenvolvemos com eficácia. Esse é o trabalho constante e sistemático que os órgãos de trânsito precisam desenvolver.
B.N – Recentemente, o vereador Celso Cotrim (PSB) enviou ofício ao Ministério Público da Bahia (MP-BA) solicitando investigação de um suposto esquema de fraude envolvendo a SET e o Sindicato dos Guardadores de Veículos da Bahia (Sindguarda). Segundo Cotrim, não há uma contabilidade oficial do dinheiro movimentado pelo Sindguarda referente à cobrança da Zona Azul. O que há de verdade nessa denúncia?
Cel. Adelson Guimarães – Nada! Absolutamente nada. Existe um decreto municipal que regulamenta e atribuí ao sindicato de guardadores o exercício desta atividade, até como uma política de governo do sentido de integrar e dar atividade a um quantitativo expressivo de pessoas. De R$ 2,00, 40% é da SET, 10% do Sindguarda e 50% do guardador que opera o sistema. O sindicato vem ao setor de tesouraria da SET e faz o pagamento antecipado de cartelas que ele pretende aplicar nas diversas Zonas Azuis da cidade. Quando as cartelas saem da SET, o dinheiro é contabilizado imediatamente.

“Os condutores de veículos, também como os pilotos de aeronaves e navios, são treinados, qualificados, formados, avaliados e declarados aptos a exercer essa atividade. As regras de conduta no trânsito são muito claras e emanam da vontade popular porque são constituídas na forma de lei”
B.N – Então, a partir daí a SET não tem mais nenhuma responsabilidade?
Cel. Adelson Guimarães – Não é bem assim. Depois a SET supervisiona, através dos seus agentes, para saber se o período estipulado na cartela foi respeitado. A intenção é que haja o cumprimento da rotatividade das Zonas Azuis, porque é justamente para isso que elas se destinam. Nós entramos na fiscalização disso. A SET não perde dinheiro na rua e tem tudo devidamente contabilizado. A um equívoco lamentável na informação do vereador. Deveria ter ouvido melhor a superintendência, até pra exercer, como parlamentar que é, sua função de fiscalização.
B.N – O Sr. acha que se trata de um factóide, que a denúncia está travestida de motivação política?
Cel. Adelson Guimarães – Acredito que sim. Imagino que, neste momento, isso deve ter um viés político, não na acepção plena da palavra.
B.N – Qual o valor arrecadado pela cobrança da Zona Azul?
Cel. Adelson Guimarães – Não tenho contabilizado aqui agora, mas é um dado público. As contas são prestadas ao Tribunal e são assistidas pela Controladoria-Geral do município, que mensalmente nos questiona.
B.N – Coronel, quanto a SET arrecada, desde cobranças de estacionamento até as multas, e o que a legislação e a Lei Orgânica do município prevêem sobre a destinação/aplicação desses recursos?
Cel. Adelson Guimarães – O Código de Trânsito Brasileiro determina que os recursos sejam aplicados em fiscalização, educação, engenharia e sinalização.
B.N – Isso equivale a quanto mensalmente?
Cel. Adelson Guimarães – Não vejo o quanto é importante, pelo menos neste momento, tornar público o quanto a SET movimenta. Posso lhe dizer que as cifras estão disponíveis nos órgãos de fiscalização da contabilidade da SET.
“De R$ 2,00, 40% é da SET, 10% do Sindguarda e 50% do guardador que opera o sistema (...) Quando as cartelas saem da SET, o dinheiro é contabilizado imediatamente”
B.N – Desde os início de sua gestão, quais foram sua principais conquistas à frente da SET?
Cel. Adelson Guimarães – Vou colocar a partir de algumas ações: a primeira delas foi motivar e reordenar a função/emprego do agente de trânsito. Até pouco tempo, praticamente, os agentes não eram encontrados nas ruas. Não havia o controle de onde eles estavam nem o que faziam. Nós mudamos isso e os agentes passaram a cumprir sua função primordial, que é fazer com que o tráfego flua com segurança e da melhor maneira possível. Eram 520 homens, nós colocamos mais 51 em atividade; dobramos o número de viaturas, hoje a SET conta com 80 veículos. Além disso, ampliamos a quantidade de viaturas trafegando à noite, hoje são 25 que circulam 24h por dia. Dessa forma, conseguimos ocupar todos os espaços vazios da cidade, onde a presença da SET não era notada e, com isso, melhoramos a mobilidade urbana e inibimos eventuais desvios de conduta e coibimos infrações.
B.N – Mas, hoje, o SR. considera o trânsito de Salvador como exemplo de segurança e qualidade de vida para a população?
Cel. Adelson Guimarães – Tomando como princípio regras internacionais, nos horários de pico (entre 18h e 20h), Salvador se move, em média, entre 30 e 40 km/h. Aqui não tem engarrafamento de 140 km como em São Paulo. Portanto, a capital baiana se move muito bem.