Luiz Mott: "Quem continuar dentro da gaveta em pleno século XXI vai morrer sufocado" - 22/04/2008
Foto: Driele Veiga
“Quem continuar dentro da gaveta em pleno século XXI vai morrer sufocado e quem não levanta a bandeira, carrega a cruz”
Por Driele Veiga
Bahia Notícias: Recentemente, foi divulgado pelo relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB) que a Bahia é o estado mais violento em relação aos homossexuais. Há um motivo particular para isto?
Luiz Mott: O Grupo Gay da Bahia (GGB) foi fundado em 1980 e, desde então, todos os anos nós pesquisamos em jornais, revistas e internet os assassinatos de homossexuais e a violação dos direitos humanos da população de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis (GLBT). Todos os anos, geralmente, ou é São Paulo ou Pernambuco que disputam o primeiro lugar, numa média de 100 a 150 assassinatos e, pela primeira vez, foi à Bahia. Em parte, porque aqui está o GGB que é mais cuidadoso em registrar esses assassinatos do que em outros estados e segundo, provavelmente, é porque de fato a violência e a intolerância anti-homossexual na Bahia vêm crescendo. Apesar de a parada gay reunir meio milhão de pessoas, nem por isso resultou toda esta visibilidade de homossexual na diminuição do preconceito e da violência anti-homossexual.
BN: Então você acha que a intolerância aqui na Bahia vem aumentando?
Luiz Mott: Infelizmente, os atos demonstram que tanto na Bahia quanto no resto do Brasil. Porque em 2007, comparando com 2006, houve um aumento de 30% de assassinatos de homossexuais. Sendo que estes números são muito incompletos porque, infelizmente, não existe no Brasil estatísticas oficiais da polícia e da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos. De modo que são os próprios homossexuais que têm que fazer estas estimativas e que, certamente, são muito sub-notificadas. Nós calculamos que há um assassinato a cada três dias. Mas, a verdade deve ser um assassinato a cada dia. Afinal, grande parte destes crimes, fica secreto, sem divulgação na mídia.
BN: Em sua opinião, o que move algumas pessoas a serem homofóbicas?
Luiz Mott: Homofobia é um conceito que foi cunhado do pelo Dr. Jorge Wainberg, em 1972 e significa o racismo anti-homossexual. A fobia ao igual, ao homossexual. Ela existe sobretudo em sociedades muito machistas e regidas pela heteronormatividade - que somente os heterossexuais são considerados honestos, virtuosos e naturais. Todo resto é considerado aberração, marginalidade, desvio etc. - Então a origem da homofobia, no ocidente, tem a ver com a religião judaico-cristã, que considerava a homossexualidade como um pecado grave que clamava a vingança de Deus contra a terra. E ai, vem o mito de Sodoma e Gomorra que teriam sido destruídas por conta da suposta homossexualidade. Embora, estudos bíblicos dos exegetas – que são especialistas das sagradas escrituras - digam que não há nenhuma prova documental da existência dessas duas cidades; Sodoma e Gomorra e a interpretação de que elas teriam sido destruídas por conta da homossexualidade. É preconceito do mundo machista judaico-cristã, que queria que todos os homens fossem reprodutores, queria sacralizar a heterossexualidade e, por isso, inventou um mito negativo para demonizar o homoerotismo.
BN: Então você acredita que essa passagem na Bíblia é falsa?
Luiz Mott: Não sou eu quem diz, mas, são respeitáveis exegetas católicos, evangélicos e judeus que através de estudos minuciosos de antropologia, arqueologia, lingüística e da própria exegese chegaram a conclusão de que não há nenhuma ligação da destruição destas duas cidades devido a homossexualidade. Enquanto que todos os profetas e o próprio Cristo quando se refere a Sodoma e Gomorra diz que o grande pecado dos seus habitantes era a falta de hospitalidade e não a sexualidade, a imoralidade sexual e muito menos a homossexualidade.
BN: Há alguma forma dos homossexuais e travestis se defenderem de grupos que surgem em vários pontos do País e que pregam a morte dos homossexuais?
Luiz Mott: Infelizmente vivemos numa época de grande contradição. Ao mesmo tempo que em São Paulo se abriga a maior parada gay do mundo, com mais de 3 milhões de participantes, o Brasil emerge como campeão mundial de assassinatos de homossexuais. Todos os anos, a única verdade, a única previsão que se pode fazer em relação à população homossexual é que mais de 100 brasileiros gays, travestis ou lésbicas serão assassinados vítima da homofobia. Embora haja cada vez mais visibilidade homossexual, nas novelas que mostram beijos gays, casais de lésbicas e as paradas gays, o machismo e o heterocentrismo fazem com que nas igrejas, nos púlpitos, nas escolas ainda se propague discursos altamente intolerantes. O Papa diz que o homossexualismo é intrinsecamente mal, os pastores vivem acusando os homossexuais de serem causadores da Aids e que Deus vai castigar o Brasil se for aprovado a união estável homossexual. Então, um discurso todo dia ensinando uma mentira nos púlpitos e nas televisões provoca nos jovens um sentimento negativo em relação aos homossexuais. E, muitos deles com desejos homo-eróticos reprimidos, quando dão vazão a estes sentimentos se tornam agressivos e, por isso, depois querem se auto-punir por algo que eles ouviram por parte dos pastores e dos padres como sendo algo extremamente pecaminoso. De modo que as maneiras de homossexuais, transexuais e travestis se protegerem são: denunciar qualquer tipo de ameaça, agressão e violência indo à delegacia, exigindo ser tratado como cidadão comum, afinal, pagamos impostos e temos que receber o mesmo tratamento. O governo, através da Justiça, da polícia e do legislativo deve formular Leis que garantam a igualdade de direitos homossexuais; a Justiça e a polícia devem investigar e punir severamente os que praticam crimes homofóbicos. Seja insulto, discriminação ou morte com o mesmo rigor que a constituição e o código penal prevêem a punição ao racismo; que se criem na sociedade sentimentos mais positivos de tolerância em relação aos homossexuais porque somente assim construiremos uma sociedade justa, fraterna e solidária.
BN: Existe algum caso de prisão por discriminação a homossexuais?
Luiz Mott: A Constituição Federal infelizmente não faz referência ao crime por discriminação, por orientação sexual. Lá se diz: é proibido discriminar por sexo, religião, cor, raça, idade... mas, não fala por orientação sexual. Então depende da boa vontade do juiz condenar o que ele considere atos de discriminação que sejam crimes. No Código Penal também não há nenhuma referência à homossexualidade. Nem para proteger gays e lésbicas do preconceito e nem para condená-los pelo seu tipo de orientação sexual. De modo que, apesar de existirem uma centena de leis em municípios e Estados que proíbam a discriminação contra os homossexuais, a expressão contra homofobia ainda é muito tímida. Por isso, comprovar e denunciar crimes contra homossexuais ainda é muito mais raro porque não há uma legislação específica que garanta a punição daqueles que infligirem os gays, lésbicas e travestis. Por exemplo, se você disser: “seu negro descarado”. Você pode ser preso e inafiançável e se você disser: “seu veado descarado”. Vai depender da boa vontade do policial de achar que aquilo foi insulto e do juiz condenar se ele for uma pessoa justa e considerar que qualquer violação dos direitos humanos é grave e deve ser tratada com igualdade e não apenas racial ou por religião etc.
BN: Você já foi o secretário de direitos humanos da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis. Atualmente, mesmo não estando mais no cargo, sabe quantas denúncias de discriminação a Associação recebe mensalmente?
Luiz Mott: O GGB faz um levantamento anual dos assassinatos e da violação dos direitos humanos. Os assassinatos são em média de 100 a 150 por ano. As violações são mais de quinhentas que nós conseguimos registrar, apenas fazendo cliping de jornais e notícias da internet etc. Atualmente o governo federal, através do programa Brasil sem homofobia (2004), instituiu a possibilidade da criação de centros de referência GLBT nas principais capitais do Brasil. Aqui em Salvador, nós tivemos um financiado em 2007 e, em São Paulo e outras capitais, há também estes centros. A finalidade é receber denúncias, captar informações sobre essas violações. Assim, mostra de fato que, de todas as minorias sociais, os homossexuais são os mais discriminados. Enquanto que as crianças e adolescentes, negros, deficientes físicos, judeus etc, aprendem a enfrentar o preconceito dentro de casa, quando a família descobre que o filho é gay, lésbica, transexual ou pior, travesti, o que acontece: esses jovens são insultados, apanham, são expulsos de casa e chegam até a serem assassinados, como há registro de pais que mataram os filhos quando souberam que era homossexual. De modo que a discriminação, o sofrimento e intolerância estão no cotidiano da maioria dos homossexuais que ainda vivem numa sociedade heterror-sexista, em que existe um verdadeiro terrorismo contra aqueles que não são heterossexuais.
BN: Geralmente, qual a idade que a pessoa percebe a tendência homossexual?
Luiz Mott: Segundo Freud, a moderna psicologia é a partir dos cinco anos, quando se começa a idade da razão, que a criança já se percebe diferente, olhando preferencialmente com afeto para o mesmo sexo, para o sexo oposto ou para ambos os sexos. Já precocemente definindo sua orientação como homossexual, bissexual ou heterossexual. Porém, é na adolescência que esse sentimento difuso se torna um desejo objetivo, erótico, sensual e sentimental. Homossexualidade não e só sexo, é também afeto e paixão e, como qualquer outra tendência humana. Contudo, muitos brasileiros só se definem gays, lésbicas ou bissexuais depois de alcançarem à independência financeira.
BN: Você, por exemplo, percebeu cedo à tendência homossexual, mas demorou a assumir a opção. Inclusive casou e teve duas filhas. Porque esta demora? Medo da discriminação?
Luiz Mott: O jornal “A Tarde”, em 1985 ainda publicou duas vezes: “Mantenha Salvador limpa, mate uma bicha todo dia”. Se numa sociedade desta, em 85, já existia um grupo gay funcionando e registrado e de utilidade pública em Salvador, ainda no principal jornal do Norte e Nordeste havia lugar para que o jornalista José Augusto Berbert, da coluna de cinema, decretasse uma pena de morte aos homossexuais, imagina então, na década de 70, quando eu me casei e onde não haviam movimentos homossexuais, paradas e orgulho gay. A informação que tinha é que todo mundo tinha que se casar e que o homossexualismo, como se dizia na época, era uma coisa abominável, feia, suja, pecaminosa. De modo que eu me casei como todos os jovens deviam fazer, como a maioria dos homossexuais ainda fazem. Os gays assumidos não representam nem 5% dos mais de 20 milhões de homossexuais existentes no Brasil. Foi por falta de informação positiva que eu dei esse mau passo na minha vida, no qual redundou em duas pérolas, que são minhas duas filhas, atualmente com 32 e 30 anos. Elas são felizes, heterossexuais, me respeitam, me amam e se relacionaram bem com os diferentes companheiros que tive. Hoje defendem o direito da livre orientação sexual e são o meu melhor testemunho. Mesmo sendo homossexual assumido e tendo me divorciado, eu continuei a ser um pai responsável, nunca faltei com a pensão judicial, sou um pai amoroso e continuo mantendo um contato amigável e carinhoso com elas.
BN: Foi difícil conviver com esta opção sexual? Você se arrepende?
Luiz Mott: Eu repito a mesma frase do escritor francês Jean Gennet que diz: “para mim a homossexualidade foi uma benção”. Eu digo que para mim a homossexualidade foi uma graça. Eu fiquei mais gracioso, eu fiz o bem para milhares de jovens que teriam se suicidado, dado maus passos na vida se não fosse o meu testemunho positivo de estimular quem é gay a “sair do armário”, acabar com esta falsidade de vida. Não me arrependo um minuto sequer da minha escolha. O conselho que eu dou aos jovens, sejam gays, lésbicas ou que estejam em dúvida se são mesmo gays ou lésbicas é que não se decidam pelo casamento como uma forma de sufocar e vencer este desejo homossexual. Casamento, pai-de-santo e psiquiatria não resolvem homossexualidade de ninguém. Embora existam ex-gay, assim como existem ex-heterossexual; eu mesmo sou um ex-heterossexual, a coisa mais difícil é uma pessoa mudar sua orientação sexual. É mais fácil que a pessoa se aceite, vença a homofobia internacionalizada e convença aos parentes e amigos a o aceitarem como são, do que entrar nesse beco sem saída que é se casar como estratégia para enfrentar a homossexualidade. O resultado disso é a infelicidade, a neurose. Pois, casamento não cura homossexualidade.
BN: Qual sua sugestão para pais homossexuais que casaram com mulheres, por medo da sociedade e tiveram filhos na relação?
Luiz Mott: Se o gay ou a lésbica estão casados e tem uma vida homoerótica clandestina, se isso for possível de ser levado sem frustração, sem causar danos para o companheiro ou a companheira heterossexual, que siga esta vida. Mas, se for motivo para discussões, angústias e, se tem filhos, isto vai causar constrangimento; a melhor solução é se separar e cada um viver sua vida procurando manter uma relação civilizada e de diálogo. Se no começo for difícil, o tempo se encarrega de solucionar esta questão. A sugestão é que a pessoa “saia do armário”, o mais rápido possível. Quem continuar dentro da gaveta em pleno século XXI vai morrer sufocado. E quem não levanta a bandeira, carrega a cruz.
BN: Há números de casais de gays e lésbicas que formalizaram união na Bahia?
Luiz Mott: O GGB, há cinco anos passados, instituiu o livro de união estável homossexual que, na falta de poder se casar no cartório, como qualquer casal heterossexual, o INSS reconhece este documento como prova para, eventualmente, compartilhar herança, receber pensão etc. Já temos 30 casos na Bahia entre gays e lésbicas. Inclusive uma que a companheira faleceu e ela recebe a pensão. No Brasil, já existem mais de 200 casos registrados. 15 capitais também instituíram o livro de união estável homossexual.
BN: E, para finalizar, qual o conselho que você dá aos filhos de homossexuais?
Luiz Mott: Se o pai ou a mãe são gays ou lésbicas clandestinos, o filho deve demonstrar que não vai discriminá-los, que não terá preconceitos por conta da orientação sexual. E, no caso deles serem assumidos, o filho ou a filha heterossexual tem que procurar entender, conversar e compreender as dificuldades que o homossexual enfrenta numa sociedade heterror-sexista e procurar ser um amigo, um apoio. Pois, caso contrário, o que vai acontecer é que este filho vai infernizar ainda mais a vida dos pais e ser infeliz. Afinal de contas, o errado não é ser homossexual. O errado é a homofobia, o preconceito. E, para finalizar, eu uso a frase do poeta português, bissexual Fernando Pessoa: “O amor que é essencial, o sexo um acidente: pode ser igual, pode ser diferente”.