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Entrevista

Edvaldo Brito: "Quero ser o Barack Obama que vai quebrar o establishment brasileiro" - 23/03/2008

Por Daniel Pinto

Fotos: Max Haack

"O que realmente importa é o trabalho e a vontade. Posso lhe assegurar que entrei nisso pra valer. Quero ser o Barack Obama que vai quebrar o establishment brasileiro"

Por Daniel Pinto

Bahia Notícias – Por que o Sr. estava afastado da política partidária?

Edvaldo Brito – Me afastei da política porque entendi que, naquela ocasião, não era a melhor ferramenta para promover a transformação social. Me afastei da política, mas, não, da vida pública. Continuei como professor e conferencista. Só pra você ter idéia, por ano, eu tenho mais de mil alunos entre Salvador e São Paulo e faço, em média, quatro conferências por mês. Esse universo atinge empresários, advogados, médicos, vereadores, prefeitos, etc. Então, eu não precisava ocupar um cargo eletivo e tinha a vantagem de ter uma credibilidade muito maior. Como técnico eu tinha a possibilidade de expor questões políticas, mas, como político, por mais técnico que eu fosse, as questões políticas tinham que ser preponderantes.

BN - O que efetivamente o motivou a aceitar o convite do PTB para disputar a Prefeitura de Salvador?

Edvaldo Brito – Foi uma provocação que me foi feita de que eu não poderia ser omisso. Isso me tocou! Quando a Executiva me fez o convite eu disse que não voltaria nem morto. Então, usaram o argumento de que eu precisava ter uma responsabilidade maior com minha terra, com o meu povo e eu não poderia ser omisso. Não era porque eu tinha uma vida equilibrada nos campos profissional e pessoal que não poderia aceitar esse desafio. Ninguém cresce sem diálogo e contestação. A política é o campo propício para o debate ideológico.

BN - Mas, o PTB tem estrutura para sustentar sua candidatura?

Edvaldo Brito –  Olha Daniel, no passado também não tinha (risos). Naquela época o PTB tinha uma sede humilde no Rio Vermelho e onze zonais, que foram compostas por gente que nós mesmos recrutamos. Só pra você ter uma idéia, eu não tinha nem vice. Então, não se pode pensar desta forma. No que diz respeito à questão financeira, por exemplo, a legislação coloca todos em pé de igualdade. Quem se arriscar a gastar para além do que deve vai sofrer as sanções da lei. O que realmente importa é o trabalho e a vontade. Posso lhe assegurar que entrei nisso pra valer. Quero ser o Barack Obama que vai quebrar o establishment brasileiro.


"Eu entendi que cada fracasso meu poderia ser debitado a minha terra; e que cada sucesso poderia ser creditado ao meu povo, eu preferi o sucesso"

BN - Antes do anúncio da sua candidatura, fontes da Prefeitura davam como certo o apoio do PTB à tentativa de reeleição de João Henrique (ver nota). Ao que parece, os partidários de JH não são os únicos que apostam que sua candidatura “vai morrer na praia”. Há possibilidade do Sr. desistir da disputa pelo Thomé de Souza?

Edvaldo Brito –  Só há condições de acordo já no primeiro turno se houver a possibilidade de construir um programa de governo comum. Tenho conversado com diversos partidos. Recentemente estive com lideranças do PPS e, também, com a deputada Lídice da Mata (PSB). Mantivemos conversas nesta mesma linha. Apesar do respeito por todos, um encontro que me encheu de júbilo foi com a ex-prefeita Lídice da Mata. Aliás, só existe um atributo para defini-la: Lídice da Mata é, antes de tudo, ética. Quem espera a minha desistência não conta com a vontade do povo. Quero ser uma surpresa. Voltei pra trabalhar.

BN - Pelo fato de existiram muitos virtuais candidatos à Prefeitura da base do governo do Estado, o governador Jaques Wagner tem se mantido afastado da sucessão municipal. O Sr. acredita que o afastamento do governador e a falta de unidade na base podem favorecer uma candidatura independente?

Edvaldo Brito – Olha, nem posso dizer que a minha candidatura é independente no sentido que você coloca. O PTB é da base de apoio do governo Wagner e também ocupa uma secretaria. Essa circunstância foi que me fez procurar o governador e, por sinal, fui muito bem recebido. Tive a oportunidade de mostrar o meu programa ao governador e também expus que é impossível colocá-lo em prática sem apoio do Estado. Ele me deixou bem à vontade quanto a isso. Por formação acadêmica e profissional, eu acredito nos recursos integrados. Os recursos financeiros, por exemplo, não são do Estado, da União ou município. Os recursos são do povo e devem ser administrados pelos poderes públicos para proporcionar bem-estar e qualidade de vida à população. O governador Jaques Wagner tem razão em manter o distanciamento do processo sucessório. Ele está certo em se manter neutro. Afinal, de todos os partidos que podem lançar candidaturas em Salvador, o único que faz oposição ao governo do Estado é o Democratas.

 
"Não dá para implementar um crescimento tributário na ordem vertical; ou seja, sempre que os cofres públicos estiverem sem dinheiro, aumentar a carga para os mesmos contribuintes. O crescimento horizontal é que se faz necessário. Se todos pagassem, sem dúvida, a carga individual seria dissipada"

BN - Por falar nisso, o Sr. acha que o possível retorno do ex-PFL ao poder seria um retrocesso?

Edvaldo Brito –  Não diria assim porque o DEM também tem um bom quadro. O pré-candidato que está posto aí é um jovem que pode ter muito a oferecer.

BN - Quais foram às circunstâncias que te levaram até a Prefeitura de Salvador e como foi essa experiência?

Edvaldo Brito –  19 de agosto deste ano completa 29 anos da minha primeira experiência à frente da Prefeitura de Salvador. As circunstâncias eram completamente diferentes. Primeiro porque havia uma eleição indireta. O governador Roberto Santos me escolheu, conforme declaração dada por ele, em função dos testes administrativos que ele já tinha feito comigo, tanto na Procuradoria da UFBA quanto na secretaria de Justiça do Estado. Quando eu assumi, fui até o meu amigo Orlando Gomes, que foi o meu pai espiritual e ideológico, e ele me disse: aceite, mas saiba que ou você se consagra ou se liquida. Posso dizer que fui um prefeito rente a população. O gabinete era o local em que eu passava menos tempo. Se houvesse uma obra, eu estava lá. Se houvesse um posto de saúde com problemas, eu ia resolver. Acho que não há outra forma de governar uma cidade, a não ser com a participação e o contato direto com a população. Me dei muito bem. Foi uma experiência maravilhosa. Foi lindo!

BN - Por falar nisso, o Sr. passou muito tempo em São Paulo. Isso foi um auto-exílio ou o Sr. já sabia que iria trabalhar com Paulo Maluf e Celso Pitta?

Edvaldo Brito –  Naquele tempo eu já tinha minha vida acadêmica consagrada e já era um profissional bem-sucedido. Eu tive a felicidade de ouvir os conselhos de minha mãe, que sempre me dizia: “Edvardo, meu filho, vai estudá, porque só assim tu vai ser homem na vida. Vai pra capitá, meu filho. Fio macho no cós da saia de mãe não vai dá o que preste”. Então, vim pra Salvador e essa cidade me acolheu. Ela passou a ser minha cidade. Mas, como eu não tinha nem mãe nem pai da alta sociedade, tive que cavar com as próprias mãos. As circunstâncias me levaram a fazer toda a carreira acadêmica complementar em São Paulo. Deixei, então, que os donos da Bahia, os donos do poder, se apoderassem da minha cidade.

BN - Mas, como o Sr. foi parar no governo de São Paulo?

Edvaldo Brito – Fui parar no governo de SP justamente por obra dessas coincidências. O prefeito Pitta me conheceu quatro anos antes de ser eleito, num evento que estavam presentes Ives, Delfim Neto, alguns juristas norte-americanos e europeus. Então, quatro anos depois, sem nem ao menos ter trocado uma palavra comigo neste período, ele me escolhe. Eu reagi, achava que não era o momento, mas terminei aceitando o convite. Eu posso dizer que fui o sustentáculo da administração, caso contrário, ela não teria existido desde o primeiro momento. Na verdade, eu era um “estranho no ninho”. Um baiano, negro, assumir uma pasta tão importante? Todos tinham curiosidade em ver o meu trabalho. Eu entendi que cada fracasso meu poderia ser debitado a minha terra; e que cada sucesso poderia ser creditado ao meu povo, eu preferi o sucesso. O resto a história fez questão de registrar.

BN - Professor, o governo o qual o Sr. participou foi muito turbulento, isso te trouxe alguma complicação?

Edvaldo Brito –  Não. Nenhuma.

BN - Recentemente o prefeito João Henrique afirmou que, se reeleito, vai revisar a base de cálculo do IPTU. Mas, antes disso, em entrevista ao “Bahia Notícias”, ele tinha dito que a Prefeitura precisava ampliar a arrecadação do município sem aumentar a carga tributária. Isso é uma contradição? A Prefeitura está desnorteada?

Edvaldo Brito – Sem dúvida. Não me resta outra alternativa a não ser pensar desta forma. O discurso é contraditório e oportunista no sentido mais amplo que a palavra pode oferecer. Como é que - agora que o mundo todo fala em redução de imposto - alguém pensa em aumentar a carga tributária? Essa não é a única alternativa. Não dá para implementar um crescimento tributário na ordem vertical; ou seja, sempre que os cofres públicos estiverem sem dinheiro, aumentar a carga para os mesmos contribuintes. O crescimento horizontal é que se faz necessário. Se todos pagassem, sem dúvida, a carga individual seria dissipada. Esse sistema é muito injusto. O grande problema de Salvador é a falta de gerenciamento. O aumento de impostos não vai resolver nada, caso o esfacelamento administrativo continue.


"Me diz uma coisa: o que vão fazer com a área do Clube Português? Ela deve ser reservada para construção de um espaço de lazer para crianças e idosos. Sei que existe muita especulação do ramo imobiliário. Mas, se fizeram algo diferente, quando eu for eleito mando derrubar tudo"

BN - Agora sobre a campanha: sabe-se que o Sr. tem visitado alguns bairros da cidade e também tem conversado com lideranças políticas de diferentes partidos, já conseguiu algum apoio significativo ou o PTB vai embarcar sozinho na disputa?

Edvaldo Brito –  Veja, historicamente o PTB sempre foi linha auxiliar. Mas, agora há uma mobilização, sobretudo direcionada aos jovens. Repito: vou cooptar os jovens que tenham vontade de transformação. Olha Daniel, não tenho dúvidas de que esse apoio virá na medida em que nós apresentarmos os nossos projetos.

BN - E quais são os pilares do seu programa de governo?

Edvaldo Brito –  Saúde, educação, trânsito, transporte coletivo, segurança pública e turismo. Vou te mostrar alguns pontos de, pelo menos, três áreas:

Saúde: Na área da saúde, por exemplo, a rede da capital permanece num estado lastimável. Todos reclamam da tercerização, mas esse não é o grande problema. A grande questão é ter parceiros confiáveis. A lei do SUS, de 19 de setembro de 1990, estabelece alguns critérios que devem ser respeitados. É preciso ter ajuda da União e do Estado para melhorar o sistema de saúde. Mas, apesar do federalismo solidário, também é necessário o apoio da rede particular. Com a gestão plena, o município precisa criar mecanismo onde possa atuar em três frentes: atenção básica, de média e alta complexidade. Não se pode desviar os recursos da saúde pra outra finalidade. A constituição determina que 15% do orçamento seja aplicado na saúde. O município não pode promover ações de contrabando. Ainda nesta área, não podemos descartar a influência do meio em razão da condição sócio-cultural. Existem doenças que, por exemplo, têm incidência maior nos negros. Qual o programa da Prefeitura que trata da anemia falciforme? Neste aspecto, a população negra precisa de um tratamento diferenciado.

Trânsito: A cidade cresceu muito, tanto em número populacional quanto em vias urbanas e quantidade de carros. Por isso, é necessária uma nova engenharia. As intervenções precisam ser feitas com mais qualidade. Todas as mudanças na região do Iguatemi só aumentaram os transtornos. E quanto às multas? Pra onde vai o dinheiro da indústria das multas? Esse montante deve ser aplicado na melhoria das vias e em campanhas educativas. Meu programa prevê uma melhor utilização das vias secundárias. Uma cidade tão complexa como Salvador precisa de rotas alternativas para desafogar o tráfego em horários específicos. Também não dá pra permitir a circulação de veículos pesados em determinados trechos da cidade. 

Segurança Pública: A Prefeitura não pode ser omissa na questão da segurança. Em São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana tinha funções específicas e foi uma importante arma para a manutenção da ordem. Dizem que a única função da Guarda Municipal é zelar pelo patrimônio público da cidade. Pergunto: existe patrimônio maior que a vida? Também quero utilizar o sistema de câmeras da Secretaria de Segurança Pública para auxiliar na vigilância de pontos estratégicos e inibir assaltos e roubos. Meu programa também abrage algumas questões de infra-estrutura. Precisamos incentivar a construção de garagens subterrâneas ou verticais. Me diz uma coisa: o que vão fazer com a área do Clube Português? Ela deve ser reservada para construção de um espaço de lazer para crianças e idosos. Sei que existe muita especulação do ramo imobiliário. Mas, se fizeram algo diferente, quando eu for eleito mando derrubar tudo. Meu compromisso é com o povo.

BN - Apesar da maioria da população de Salvador ser composta por afrodescendentes, talvez, essa seja a primeira vez que teremos três candidatos negros disputando a Prefeitura. Como a questão étnica vai ser abordada em sua campanha?

Edvaldo Brito –  Isso vai ser tratado com muito juízo e com muita experiência do passado. O povo negro deve buscar unidade, caso contrário não chegaremos a lugar nenhum. Esse segmento começa a resgatar o seu lugar na sociedade. O negro não pode, em hipótese nenhuma, ser racista. Ele deve mostrar que tem condições de competir em igualdade com qualquer pessoa. Se não há condições, temos que buscar as causas deste problema e descobrir mecanismos que nos dêem condições de competividade. 

BN - E o que o Sr. pensa das cotas?

Edvaldo Brito – A cota é importante, mas, se permanecemos apenas nela, será uma prova de que somos incapazes. É o mesmo dilema do pequeno empreendedor: qual o pequeno empresário que quer permanecer pequeno o resto da vida? O pequeno empresário pensa em ser grande logo que for possível. Essa é a mesma vontade do negro. O negro não deve cochilar em cima de ações afirmativas, ele deve reverter isso tudo.