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Entrevista

Rita Santos explica origem da polêmica sobre retirada da salada do acarajé - 07/12/2015

Por Guilherme Silva / Luana Ribeiro

Rita Santos explica origem da polêmica sobre retirada da salada do acarajé - 07/12/2015
Fotos: Cláudia Cardozo/ Bahia Notícias
À frente da Associação das Baianas de Acarajé e de Mingau (Abam), Rita Santos não nasceu na Bahia: é carioca. Ex-bancária, ela está desde 1987 em Salvador e coordena os trabalhos na entidade desde 2001. Na última semana, esteve no centro da polêmica retirada da salada no tradicional bolinho de feijão – que diante da repercussão negativa, acabou não acontecendo. “A gente sabe, tomate é uma coisa perecível e na cidade faz muito calor. Tem baiana que trabalha em pleno sol, na praia. Então a gente sabe que por ser um produto perecível, corre mais risco de ter contaminação”, cita, explicando de onde veio a ideia. Rita conta, porém, que a salada foi o último recheio a ser incorporado no acarajé, que inicialmente era acompanhado apenas por pimenta. Os desdobramentos da atualização do decreto, assinado no último dia 1º, vão além dos tomates. “Porque se você está só com o tabuleiro lá e não está vestida, você não é patrimônio. Se você está vestida e não está com tabuleiro consonante, você também não é patrimônio”, explica, sobre as novas regras que estabelecem a vestimenta obrigatória para as vendedoras da iguaria, originária no candomblé.

Quem colocou a proposta da retirada da salada na mesa?
 
Teria sido a própria Vigilância [Sanitária]. A gente sabe, tomate é uma coisa perecível e na cidade faz muito calor. Tem baiana que trabalha em pleno sol, na praia. Então a gente sabe que por ser um produto perecível, corre mais risco de ter contaminação. Só isso. 
 
E a senhora sentiu a repercussão negativa que o tema teve?
 
Uma polêmica boba, uma besteira. Nós temos tantos pontos positivos, foi um avanço muito grande o decreto, veio de encontro ao que a gente estava ansiando. Tem outra coisa que ninguém aqui no estado comentou, que é tornar o nosso ofício uma profissão. Entrarmos na CBO [Classificação Brasileira de Ocupações] é importante para nós, porque cada vez que eu vou tirar o documento, eu digo: ‘sou baiana de acarajé’. ‘Não, a senhora tem que se cadastrar como cozinheira’ – nada contra as cozinheiras, mas nós somos baianas de acarajé. Teve isso e ninguém falou nada. Foi dia 18 agora.

 
Em que pé está essa transformação em ofício?
 
Fui no dia 18 a Brasília, conversar com o ministro Miguel Rossetto [Trabalho e Previdência Social], pleitear junto a ele duas coisas: uma é entrar na lista da CBO. Tem mais de 600 profissões e a gente não está entre elas. E a outra é pedir que seja reconhecido como profissão, porque isso atenderia o Brasil todo. Em Salvador, as baianas tem essa parceria, a prefeitura vê isso como benefício tê-las, mas tem outros estados que não, as baianas são consideradas clandestinas, porque as prefeituras não têm decretos municipais que regularizem. São Paulo tem muitas baianas e é um caso. A gente não consegue que a prefeitura as veja como profissionais. Elas lá são clandestinas, quando o ‘rapa’ chega, tem que sair. Elas só têm direito quando tem uma feira no domingo, aí pode uma lá vender, mas não tem uma, tem várias baianas. Então se o Ministério do Trabalho nos reconhecer como profissão vai ser mais fácil para essas mulheres que estão pelo Brasil afora poder trabalhar. 
 
E existe alguma estimativa de quando isso deve ocorrer?
 
Essa foi a primeira conversa, e de cara o ministro já me recebeu para conversar. Eu fui pleitear para ele e de cara ele: ‘não, eu não vejo porque dizer não’. Então eu teria agora na sexta-feira [4] uma reunião com um assessor dele, chefe de gabinete dele, mas ele estava viajando. Aí foi desmarcado para o dia 11, eu vou ter uma nova conversa com o chefe de gabinete do ministro. E ele achou bom, isso para a gente é importante. Mais importante do que se vai ou não tirar a salada do acarajé. Isso aqui vai atender o Brasil todo. Então não tem porque essa polêmica. 
 
Voltando a atualização do decreto que foi assinado ontem [1º], porque houve a necessidade de atualizar esse decreto, que é de 1998, além de colocar regras rígidas de como a baiana deve se vestir para exercer essa atividade. 
 
O de 1998, na verdade, na época em que ele foi criado, a associação estava começando. Quer dizer, já se passaram 20 anos, muita coisa mudou. Este ano estamos fazendo 10 anos como patrimônio [imaterial], tanto que hoje vai ter uma homenagem às baianas agora à tarde, às 14h. E a roupa faz parte desse título de patrimônio. Porque se você está só com o tabuleiro lá e não está vestida, você não é patrimônio. Se você está vestida e não está com tabuleiro consonante, você também não é patrimônio. E a gente, a cidade de Salvador, estava perdendo muito isso. Se você olhar, hoje em dia, são poucas as baianas que se vestem de fato. Então para a gente manter essa cultura, foi necessário vir bem firme neste decreto a questão da roupa. 
 
E a senhora acha que é possível fiscalizar a vestimenta de tantas baianas de acarajé na cidade e se certificar de que todas estão seguindo...
 
Mas se a gente fizer com que em todos os pontos turísticos, fizer a orla, eu acho que a gente já tem mais de 50% de caminho andado. E com o tempo ir conscientizando, porque o trabalho da associação não é fiscalizar, é conscientizar. Então cada vez que uma baiana vai lá nos procurar, quem quer fazer parte da associação, a primeira coisa que a gente bota para ela é isso: ‘ Você quer ser baiana de acarajé? Prioridade: você tem que se vestir como tal’. Porque isso é o que regimenta o título de patrimônio imaterial nacional e o título de patrimônio imaterial estadual. 

 
O acarajé não tem a mesma penetração em outros estados do Brasil que tem na Bahia. Ontem uma das críticas que a senhora fez ontem na assinatura do decreto era que havia muita industrialização da produção do acarajé. Para a penetração do acarajé em outros estados do Brasil essa industrialização não é necessária? 
 
Essa industrialização não é necessária nem aqui nem em lugar nenhum. O lugar do acarajé é no tabuleiro da baiana, porque muitas baianas morreram para o acarajé chegar ao patamar que está hoje, muitas morreram para trabalhar para o acarajé chegar onde está hoje. E agora é fácil um empresário chegar aqui, porque ele tem dinheiro, e montar uma indústria de acarajé. Eu não sou contra ele vender, mas ele não vai vender acarajé, ele vai vender bolinho de feijão frito no azeite de dendê. Ele pode continuar vendendo, mas ele venda bolinho de feijão frito no azeite de dendê. Acarajé é das baianas, é da comunidade de baianas de acarajé, que são mulheres que trabalham duro para chegar onde está. 
 
A senhora acha que a restrição à industrialização não é um pouco de medo de concorrência?
 
Mas é isso, se a gente está aqui para preservar essas mulheres, que trabalham tanto, que dependem exclusivamente da venda do acarajé para botar comida na mesa, é desleal essa concorrência com elas. Porque tem baiana que vende hoje para comer amanhã. Elas dependem disso e elas trabalharam para que o acarajé tivesse essa notoriedade que ele tem. E elas dependem para sobreviver, não é justo empresas, essas grandes empresas por aí que estão botando o acarajé, eles tem milhares de outros itens para vender. E elas só tem o acarajé. Você vê que elas não podem vender cerveja, não podem vender nada que não esteja no tabuleiro. Se a gente não cuidar, daqui a uns dias elas vão perder o pouco que tem e vão ser o que? Com o grande desemprego que está aí? Mais uma para engrossar a fila de desempregados, se elas só sabem fazer acarajé? Então nada mais do que justo. Se eles têm dinheiro para montar empresa, que montem empresas de outras coisas. Vão ser empresários de coxinha, de cachorro-quente. Mas acarajé é um patrimônio, a gente tem que preservar ele e também as baianas. Porque se parar de ter baiana, acabou o patrimônio, que é o conjunto: a baiana e o bolinho. Se o bolinho ficar industrializado ele vai ser patrimônio para quê? Não precisa. 
 
Como é que uma carioca acabou se tornando uma baiana tão importante para a cultura do acarajé?
 
Estava escrito. No destino. Primeiro tenho que começar a história. Sou carioca sim, meu marido também é carioca. Sempre fui bancária, gerente de banco no Rio de Janeiro, mas meu marido é da Aeronáutica e teve que vir para cá. A Aeronáutica trouxa ele para ficar dois anos. Mas antes de tudo isso, antes de eu me casar, no meu noivado eu ganhei dois quadros: um preto velho e uma baiana, desse tamanho assim. Linda a baiana. E eu pendurei lá em casa, quando casei, e sempre que eu passava, ficava apaixonada de olhar aquela baiana e ver o quadro do preto velho. Só que do lado do banco onde eu trabalhava, tinha uma baiana de acarajé. E eu estava sempre lá conversando com ela. E por coincidência, depois de eu estar aqui, ela passou a fazer parte da diretoria da Abam. Então quando eu vim para cá e cheguei aqui eu já conhecia o acarajé lá, só que eu cheguei aqui em 1987, morava em Itapuã, na vila. E a única coisa que eu fazia era sair de casa, da vila, passar para a praia, da praia para casa e ficava ali no acarajé. Então era uma coisa que tinha que acontecer. E depois, mais tarde, eu vim descobrir que aquela baiana foi pintada exatamente onde hoje funciona o memorial das baianas, onde eu administro. Então estava escrito que isso ia acontecer. E eu não quero banco, quiseram me transferir para outra agência, e eu não aceitei. Preferi ser baiana de acarajé. É porque tinha que acontecer. 
 
E você continua trabalhando em banco?
 
O que? Não! Dedico-me exclusivamente à baiana de acarajé, baiana de mingau e às de beiju. Porque no início eu tinha pedido que esse decreto fossem incluídas as mulheres que vendem beiju. Mas depois pensaram e tirou. Mas ainda vou trabalhar para que elas sejam incluídas neste decreto.
 
O decreto que foi atualizado ontem não trata especificamente de questões religiosas, mas o acarajé tem uma relação muito forte com o candomblé.
 
Acarajé é, para nós que somos da religião, uma oferenda. Mas a gente também sabe ver que o acarajé que se faz no terreiro não é mesmo que se faz na rua. Mas nem por isso perde a essência. O fundamento é o mesmo. 
 
E segundo a tradição apenas pessoas do candomblé podem vender acarajé?
 
Podia, no início era assim. Mas com o passar dos anos, isso foi diminuindo. Muitas mulheres que eram de religião de matriz africana se tornaram evangélicas e continuaram vendendo acarajé. Então essa coisa de ser somente quem é de terreiro, isso com o tempo, ao longo dos anos, foi diminuindo. 
 
Voltando a questão dos ingredientes do acarajé, a gente já falou da salada. No início o acarajé era consumido sem todos esses acompanhamentos...
 
Só com pimenta. 

Queria que a senhora falasse sobre essa trajetória e de como o hábito de comer acarajé evoluiu com o passar do tempo.
 
No início era só acarajé e a pimenta. Com o passar dos anos acrescentaram o camarão, o vatapá, acrescentar o caruru. Se você for ver, nem todas vendem com caruru. Se for ver, Cira não bota, mas Dinha já bota. Então isso foi sendo agregado com o passar dos anos. A última mudança foi a salada. A salada foi a última que entrou. Isso tem...quando cheguei em Salvador tem uns 20 anos... Por aí, tem uns 30 anos que a salada foi agregada. Entrou no final. O acará, de fato, era vendido só com pimenta. Tanto que, quando recebo algum nigeriano, eles falama assim: ‘hambúrguer não’.  Eles tratam nosso acarajé lá como se fosse hambúrguer, porque lá na Nigéria ele é só com pimenta. E um ou outro com camarão. Só.
 
Não existem só baianas, existem também baianos de acarajé...
 
Um por cento. Depois que fizemos o mapeamento, nós vimos que 1% são baianos. 
 
Pois é, porque essa atividade é tão ligada às mulheres, porque os homens acabam ficando em segundo plano?
 
Essa é uma atividade predominantemente feminina. O que acontece? Muitas baianas não tiveram filha mulher, tiveram filhos homens. E os filhos seguiram a profissão da mãe. É o caso da baiana da Pituba, faleceu tem uns três meses. Todos os cinco filhos dela seguiram a profissão, vendendo acarajé. Todos os cinco tem acarajé. Então foram eles que abriram essa porta. Normalmente isso é passado de mãe para filha, mas ela não teve filha, então foi passado de mãe para filho e a gente não pode impedir. Eles precisam trabalhar. Hoje, depois do mapeamento do Oyá Digital, percebemos que 1% são homens. Ontem, a baiana que estava lá com aquela menininha, ali já é a 5ª geração. A avó da Tânia, a mãe da Tânia, a Tânia e agora o filho e a filha da Tânia são baianos de acarajé. E aí a neta dela também quer ser baiana. Ninguém pode impedir que o menino dela seja um baiano. Mas no início do século só eram mulheres. Mas a gente continua tratando como uma profissão predominantemente feminina.
 
A senhora comentou sobre as vendedoras de beiju, que ainda quer incluí-las nesse decreto...
 
Vou conversar com a secretária...
 
Porque a senhora acha que há similaridades, o que te leva a incluir essas vendedoras de beiju no mesmo decreto? 
 
Porque nós já temos neste decreto o mingau. Quando eu cheguei, quando eu entrei na Abam, em 2001, esse decreto já estava pronto. E ali já tinha baiana de acarajé e baiana de mingau. Com o passar do tempo, as mulheres que vendem beiju, como não têm uma legislação própria,  e elas foram para a rua vender e ficaram clandestinas, elas começaram a nos procurar, para que a gente pudesse ajudá-las. Como não são muitas, as agregamos na associação. Mas mesmo assim é meio complicado, porque mesmo as agregando na associação, não tem uma legislação para elas. Por isso, na primeira conversa que eu tive com a secretária, apresentei alguns esboços que eu comecei a fazer, no decreto anterior, eu acrescentei que se ele fosse bom, colocasse as mulheres de beiju. Mas aí em uma dada conversa, do meio para o fim, foram retiradas. Aí, o que eles falaram para mim, é que elas iam entrar no decreto de comida de rua, mas é um decreto muito amplo. Então ainda vou tentar de novo conversar com a secretária, no próximo ano, para ver se a gente pode agrega-las neste decreto. No Rio de Janeiro, temos a associação das baianas e lá só é baiana mesmo. Em Natal, temos a associação, só são as baianas. Na Paraíba, nós temos a associação das baianas. Só são as baianas. São Paulo, também já temos, é a mesma coisa. A peculiaridade do mingau e do beiju é aqui, porque aqui a gente também acabou agregando as moquequeiras de Saubara para lá, são mais de 200 mulheres que também não tinham onde se apegar, quem pudesse estar lutando pelas coisas delas, aí nós as agregamos agora. 
 
Então elas também já estão contempladas por esse decreto?
 
Não, ele é só municipal. Aí estou lá nesse município tentando trabalhar um decreto que seja para elas. Nós já temos um feito em Lauro de Freitas, Camaçari, Itaparica, deve sair um agora em Santo Antônio de Jesus, Santo Amaro, Cruz das Almas, Jaguaquara. Tem outros municípios onde a gente está indo que aí eu levo esse decreto daqui de Salvador para e adequo ao que tem na cidade. As moquequeiras ainda são aquelas mulheres que ainda saem com o tabuleiro na cabeça. Três quilômetros de praia com o tabuleiro na cabeça. Então elas nos remetem ao passado, como começaram as mulheres que vendem acarajé na rua, com o tabuleiro na cabeça.