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Entrevista

Gabriel Oliveira: Desocupação da reitoria "manchou a história da Ufba e do reitorado de Naomar" - 29/11/2007

Por Cíntia Kelly

 

"Esse episódio (a desocupação) manchou a história da UFBA e do reitorado de Naomar"

Por Cíntia Kelly

Por que os estudantes ocuparam a Reitoria da Universidade Federal da Bahia?
Gabriel Oliveira -
A ocupação começou no dia 1º de outubro e o que estava na nossa pauta foram pontos
referentes à assistência estudantil, como a reforma do restaurante universitário, que está com vazamento de gás há mais de um ano, e da residência universitária. No decorrer dos dias, a pauta se estendeu também para o Reuni, que prevê a expansão da universidade. O movimento deliberou contrário à implementação do programa. No dia 19 de outubro a Reitoria cometeu uma ação que nós compreendemos autoritária. No dia em que o Conselho Universitário se reuniu nós fizemos uma manifestação, levamos uma carta para ler na abertura da sessão do conselho, mas o reitor impediu. O teor do documento era a necessidade de haver o debate para discutir o programa, por consideramos de alta relevância, porque praticamente dobra o número de estudantes, tem várias implicações com relação a isso. Achamos que o Conselho Universitário, embora seja legítimo, é um espaço muito restrito para essa discussão. Nós sugerimos que fosse feita uma assembléia, mas o reitor nunca o fez. Na reunião do conselho, sem conferir o quórum, aos gritos, ele declarou aprovado o Reuni. Depois disso voltamos para ocupação. Voltamos para ocupação, porque ele passou por cima de uma opinião nossa e por cima do próprio conselho.

Em entrevista ao "Bahia Notícias", o reitor Naomar Almeida disse que houve a votação no Conselho Universitário e que a maioria votou pela aprovação do Reuni. Se vocês são minoria, não era legítimo ter aceitado o processo, já que teve, segundo o reitor, a anuência da maioria?
GO -
Isso não é verdade. Não fomos apenas nós, estudantes, que fomos contra o Reuni. Dentro do Conselho
são 10 estudantes, dois professores ligados à Apub, pró-reitores, diretores de unidades. O processo de deliberação se deu nas congregações e nas unidades, que não são espaços representativos para o debate. Não temos condições de debater numa representação pequena, diante do quadro de 20 mil alunos, outros milhares de professores e servidores. O assunto é muito sério. O Reuni quer praticamente dobrar o número de alunos e isso vai agravar ainda mais os problemas da Ufba. Não temos orçamento para suprir isso e não teremos daqui a 5 anos.Várias congregações aprovaram o Reuni com ressalvas, ou seja, tinha quer ser mais debatido.

O reitor disse que levou a proposta de unidade em unidade e que a maior parte delas aprovou a proposta do Reuni.
GO -
Isso é incorreto. Absolutamente. Ele apresentou a proposta antes do decreto do governo federal
que cria o Reuni. Ele fez isso entre agosto e setembro do ano passado. A proposta que ele levou às unidades é um projeto dele. Ele apresentava o projeto, por sinal muito complexo, e saia da sala. Ninguém opinava. O momento que as unidades passaram a intervir não faz um mês, quando passou a ter reuniões para formular propostas para adendar ou intervir no projeto. O momento da criação do projeto foi em cima da hora. Até o dia que o projeto foi protocolado no MEC, os professores desconheciam a proposta. Existe uma carta assinada por 12 professores dizendo que eles não aprovaram nada. Pela proposta há unidades que vão receber recursos exorbitantes, existem outras, no entanto, que não vão receber um centarvo sequer. Essa discussão toda está dividindo a Ufba enquanto instituição. O conselho está dividido.

O reitor alegou que vocês não leram o projeto. Inclusive, ele afirma que a proposta do Reuni está há muito tempo disponível no site da Ufba.
GO
- Essa tática de não responsabilizar o movimento estudantil e seus atos políticos, como
devidamente devia fazer, e dizer que estamos puxando o debate na Ufba sem conhecer o projeto é próprio dele, que sempre usou disso no mandato dele. Isso é histórico no reitor.

O Reuni é do governo federal e deve ser executado pelas universidades públicas ou elas têm que fazer um projeto paralelo?
GO
- O Reuni tem metas e diretrizes que prevêem a quantidade de financiamento, mas cada 
universidade se organizará para entrar. Temos várias ressalvas ao projeto, entre elas a do bacharelado interdisciplinar.

O que seria isso?
GO
- É uma reestruturação curricular do ensino superior que divide em duas etapas o ensino. A
primeira é uma formação genérica interdisciplinar, inclusive a interdisciplinaridade é uma luta histórica dos movimentos, mas da forma como se pretende somos contra. Por essa lógica, apenas 20% dos alunos passarão para a segunda etapa, que vai ser mais ligada ao ensino das ciências e das artes. Quem  ficar apenas na primeira etapa vai ser um BI.

Mas como o mercado vai absorver isso?
GO
- Isso de verdade não forma um estudante.

Naomar Almeida expõe essa mudança curricular como uma grande proposta.
GO
- A crítica que nós fazemos é a seguinte. A universidade não pode se pautar apenas em função do
mercado de trabalho. A sua função tem que ser social, na capacidade intelectual, de transformação da sociedade. O problema é que o aluno vai sair da universidade sem a possibilidade de ter uma compreensão específica de alguma ciência que pudesse se profissionalizar, na perspectiva de transformar uma sociedade. Isso para nós é um crime na formação intelectual. Isso quebra o diploma.

Vocês querem continuar com a Universidade da ditadura militar, como afirmou Naomar?
GO
-  Eu
li e dei risada. O problema é o seguinte. Uma maneira fácil de sua proposta ser aceita é dizer que as que são contra são a favor do velho, do que está errado e está superado. É consenso nosso que a estrutura atual não pode continuar existindo. Historicamente somos pautados pela transformação da universidade na parte acadêmica, curricular, estudantil. Temos a compreensão pelos problema da Ufba.

Você é ligado a algum partido político?
GO
- Sou ligado ao PT. Sou militante.

O reitor acusou vocês de terem agido de forma criminosa ao revistarem as bolsas e pastas dos servdiores da Supac. Isso procede?
GO
- Não procede. O que aconteceu é que ocupamos espaços importantes na administração central, como a Superintendência Acadêmica (Supac), para atrapalhar o funcionamento, para que a administração central sentasse conosco e conversasse. Os servidores pedriam para sair das alas e nós deixamos, com a condição de deixarem lá todos os papéis. E isso foi feito. Não podíamos deixar que levassem os papéis, porque se não, não teria o impacto na administração central. Não tocamos em nada.

Você foi um dos estudantes presos pela Polícia Federal, durante a desocupação da reitoria da Ufba. Como foi a prisão?
GO
- Esse episódio foi muito grave. É a primeira vez que a polícia entra na Ufba com a autorização da administração central. A polícia invadiu a universidade duas vezes: uma na época do regime militar e a outra em 2001, no governo de César Borges. Nesses dois casos a administração central não teve nada a ver. Agora, a situação é diferente. O reitor poderia ter sentado com a gente e feito contraproposta, mas preferiu delegar essa missão para a polícia. Esse episódio manchou a história da Ufba e do reitorado de Naomar. Ele, ao invés de tentar resolver, deixou que 30 policiais fossem até a reitoria e bem armados prendessem quatro alunos, que não ofereceram resistência alguma.